Partir rumo a uma cidade que desperta vulnerabilidades para visitar alguém de quem fugimos pode ser um processo exigente. Em Quem Matou o Meu Pai (com estreia marcada no CCB para esta sexta-feira, 24 de janeiro, e prolongando-se até domingo, dia 26), o ator e encenador Luís Mestre explora a partir de uma leitura performática — ao invés de um “monólogo ou espetáculo”, o que afirma com assertividade – um corpo que retrata todas as possibilidades e fragilidades de uma família de classe operária que reflete, refaz e (des)constrói.
À entrada, a sala parece inundada de escuridão. Não se observa um único rasgo de luz. Mas algo se altera depois de se passar a porta. No palco, já se vê uma pessoa, uma mesa e uma pequena luz que ilumina uma remessa de folhas de papel. O candeeiro que concentra esta é verde, mas pouco se destaca. Há uma escuridão que insiste em envolver o outro canto do palco. Luís Mestre senta-se.
Partindo das palavras de Édouard Louis, escritor e dramaturgo francês, Luís Mestre repensa aquele que foi o lugar a que Louis quis voltar: a cidade onde nasceu, uma das regiões mais pobres de França. O objetivo era visitar o pai. Um pai que é um corpo pobre, resignado, violento. “Tudo converge na violência. É tudo sobre um corpo que uma pessoa tem mediante as circunstâncias da sua vida”, adianta o artista.
A casa em que entramos, com as palavras de Louis e a voz de Mestre, carrega muitas temáticas diferentes: “A vergonha, a pobreza, as questões de género e a violência doméstica são provavelmente as que mais se evidenciam aqui”, começa por explicar o diretor artístico da companhia de Teatro Europa.
Enquanto jovem, Édouard Louis escreve uma tragédia com uma força sólida das suas convicções, certezas insolentes — próprias da sua tenra idade — e de uma necessidade de recordar as políticas de um país que lhe empurrou o pai para um limbo laboral, para a degradação social e económica.
“Não é um texto fácil. É simples, mas muito duro”
O momento performático divide-se em três atos. Todos eles apoiados em referências visuais como uma estrada, um fim de dia e uma noite. “Não é um texto fácil. É simples, mas muito duro”, partilha Luís Mestre.
Durante esta longa jornada, a personagem que vai “vivendo” nesta obra artística habita num espaço em constante violência, mesmo na morte. “Há a ideia de ir diretamente à morte”, tal como Peter Henkel nos levou a acreditar. Mas esta pode ser uma morte precoce de um corpo, “não literal, mas a ideia do corpo deste pai se ir perdendo, tornando disfuncional”.
▲ “Houve quem chorasse quando o tema da violência se iniciava ou quem não aguentasse com uma descrição tão legítima desta experiência, porque se encontrava nessa mesma situação ou já tinha passado por ela”
O pai de Louis mudou de vida. Foi-se transformando, umas vezes mais do que outras. Mas o seu corpo não. “Não está disponível e isso metamorfoseia tudo: desde um acidente de trabalho à prontidão de uma vida difícil que alimentou por responsabilidade própria — e política — com as reformas que são feitas”, explica o ator.
A importância do choro é também um momento crucial desta obra artística, e que aflui à masculinidade tóxica. A partir do choro, e de outras emoções – muitas delas reprimidas – a procura de um refúgio que o permita ter consolo, depois de diversas crises que entende ter alimentado os conflitos interiores de uma geração, é uma necessidade constante.
Do vulgar ao essencial, passando pelo profundo e o superficial, a ansiedade e a trepidez, nesta incessante procura de um corpo que não respondeu por si, estão bem mais à flor da pele do que se possa pensar.
“A ideia de um homem que não deve chorar é algo muito explorado” começa por ilustrar o ator. É quando este pai vê um concerto de ópera e fica com os olhos cheios de lágrimas que se reprime, o que vinha igualmente incutindo no próprio filho. “As pessoas que defendem estes mecanismos e que estendem estas questões são os primeiros a quebrá-los”, continua.
“O que é muito estranho é que isso não faz com que haja uma alteração, uma revolução dessa visão sobre o mundo. São os primeiros a quebrar, são os primeiros a desobedecer a esse mecanismo, mas no que toca à questão de género isso não faz com que as pessoas fiquem a pensar da mesma forma”. O que se torna igualmente paradoxal, mas que resulta de uma “intoxicação da normalização”, leva tempo a reverter-se. O próprio Luís Mestre revela que para si foi algo que levou tempo, pois foi-lhe incutido de uma outra forma.
“Não há uma família que não conte uma história de violência doméstica”
No caso das palavras ligadas à violência doméstica, o artista português decidiu fazer uma abordagem mais generalizada e, como tal, reside nesta tragédia: “Há um estudo que afirma que, em Portugal, não há uma família que não conte uma história de violência doméstica. Isso é absolutamente transversal e nesta leitura não poderia deixar de o realçar”.
E se estes dados são contáveis e visíveis, é também na demonstração destas palavras, da presença em palco e da viagem no tempo, que a fragilidade se reflete.
Ao longo de dois anos, a peça viajou de norte a sul do país — no último ano de uma forma menos regular, pois como Luís Mestre afirma, “houve necessidade de fazer uma pausa”. Ainda assim, todas as gerações que reuniu e assistiram não deixaram de transportar diferentes comportamentos cada vez que observam a leitura de Mestre.
▲ “Espero que as pessoas assistam ao projeto artístico, que gostem e que fique algo a ecoar, porque isso vai permitir que, mais à frente, a pessoa volte a este local"
Desde adolescentes de 12 e 13 anos, aos mais graúdos, “houve quem chorasse quando o tema da violência se iniciava ou quem não aguentasse com uma descrição tão legítima desta experiência, porque se encontrava nessa mesma situação ou já tinha passado por ela”, explica.
Com toda a leveza e dinâmica que a voz de Luís Mestre concentra, a que percorre e a que se sujeita, há um lugar que a receciona e a envolve e, isso, ultrapassa o comunicador ou até mesmo o espaço. Torna-se numa introspeção profunda. Por essa razão, engane-se quem define este espetáculo como um monólogo.
“Apesar de esta personagem não estar a falar connosco durante todo o tempo, isso não significa que não esteja a ter um diálogo consigo própria. É um diálogo interior, uma partilha nas mais diversas visões que condensa em si”, remata o artista, acreditando que “já lá vai o tempo em que o monólogo era uma técnica formatada”.
O contacto repetido que vai tendo com a caneca branca, pousada sobre a secretária de madeira, junto à pilha de folhas de onde retira uma e outra para ler, entre pausas e devaneios, vai dando novas camadas de significação. Há quem as tome como suas, que as sinta e, também por essa razão, por mais alinhamento que persista, a interpretação pode sofrer sempre alterações. “Há alturas em que é difícil continuar a leitura, pelas pessoas que choram, que se espantam ou que saem”. Em palco, não faz por sofrer.
Quando seleciona as imagens, as tais que acompanham cada espaço que o texto retrata, partem para uma realidade física que não se assemelha ao mesmo tempo, à mesma política, à mesma noite ou ao mesmo dia. Faz transportar e isso cria uma história com princípio, meio e fim. É nessa mesma fase que as imagens de Luís Mestre nos acolhem com o futuro.
“As pessoas são ilhas que se relacionam entre si”
Assim como em Tetralogia das Estações – do mesmo artista que dá voz ao texto — o objetivo nunca foi levar-nos a tirar conclusões categorizadas. Nada é premeditado. Mas isso também pode acontecer. “É o fenómeno público”, explica.
A massa humana, que Luís Mestre considera ser orgânica, nunca é autêntica quando controlada e, também por essa razão, “seria algo condescendente da minha parte, pois as pessoas são ilhas que se relacionam entre si”, argumenta.
Os momentos interrelacionais prolongam-se durante todo o espetáculo, um comportamento que Luís Mestre considera ser fundamental na mediação e no processo educativo que o teatro desenvolve junto das comunidades, esse é o seu objetivo: “Espero que as pessoas assistam ao projeto artístico, que gostem e que fique algo a ecoar, porque isso vai permitir que, mais à frente, a pessoa volte a este local, e que não sinta este espetáculo como uma pastilha elástica”.