“Quando estamos dentro de um quarto de hotel à espera de um jogo destes, infelizmente, não temos a perceção do que estamos a fazer.

Muitas vezes a pressão não nos deixa curtir o momento.

O sentimento de nunca mais chega a hora, não pode tirar o gozo que é estar a jogar a este nível.

Aproveitem ao máximo, gravem esses momentos tão bonitos nas vossas mentes ainda que a pressão não vos deixe.

Contrariem isso e divirtam-se.

Ouçam a melhor música no trajeto até ao pavilhão, sorriam durante o aquecimento e quando for dado o apito arregacem as mangas e vão com tudo.

Vocês são os maiores de sempre e façam com que a montanha seja ainda maior para quem vem atrás.”

Entre as muitas mensagens que foram chegando à Seleção de andebol num dia histórico para a modalidade no país, houve uma que teve um impacto extra. Ricardo Costa, antigo ponta direita hoje com 48 anos, foi um dos melhores jogadores nacionais na posição, brilhou no FC Porto e no Ademar León, esteve em quatro fases finais de Europeus e três Mundiais como parte integrante daquela que era “a” Geração de Ouro portuguesa, tornou-se treinador com passagens por FC Porto e Cabo Verde, esteve no Gaia e no Avanca e chegou ao seu “porto seguro” quando rumou ao Sporting em 2021, onde fez história ao conquistar todas as provas nacionais na última temporada. Este é Ricardo Costa, o mesmo Ricardo Costa pai de Martim e Francisco Costa, os dois grandes símbolos da nova geração que entrou na Seleção. A “família” do andebol estava em festa.

Que Portugal estava numa fase de crescimento na modalidade, ninguém tinha dúvidas. Mesmo com um dos capítulos mais tristes do desporto nacional pelo meio como foi a morte prematura de Alfredo Quintana, os Heróis do Mar fizeram das fraquezas forças para mostrarem todo um trabalho de base que foi sendo feito de forma sustentada. Entre 2020 e 2021, a Seleção conseguiu o melhor resultado de sempre num Europeu, o melhor resultado de sempre (até aí) num Mundial e qualificou-se pela primeira vez para uma edição dos Jogos Olímpicos. Houve campanhas que não correram tão bem mas o conjunto de Paulo Pereira estava consolidado como um crónico  candidato a chegar às fases a eliminar. Agora, deu o passo em frente.

Já sem elementos como Daymaro Salina, Alexis Borges, Gilberto Duarte (com grande relevância até mais na estrutura defensiva) ou André Gomes, Portugal começou este Mundial com a notícia de que Miguel Martins estava suspenso por doping num caso no mínimo estranho e perdeu depois Alexandre Cavalcanti por lesão. Apesar disso, não vergou. “Chorou”, enxugou as lágrimas, agarrou nos que estavam, apostou em desafiar a história. A forma como bateu o Brasil depois de uma grande recuperação e a maneira como dominou a anfitriã Noruega eram provas de que a Seleção se podia bater com as melhores, algo confirmado na main round com um empate diante da Suécia e um triunfo diante da Espanha. Os quartos estavam confirmados, a goleada do Chile foi apenas o último carimbo numa presença histórica com cinco vitórias e um empate nos seis encontros até à fase a eliminar. Seguia-se a Alemanha e o sonho de prolongar o sonho.

“É um objetivo claro para todos atingir as meias-finais, não temos dúvida nenhuma. A Alemanha faz do contacto físico uma das suas principais armas mas vamos procurar lutar pelas recuperações no timing certo. Agora, a motivação existe por natureza. É só encontrar o equilíbrio emocional que nos permita vencer o jogo tranquilamente, não querer vencer rapidamente, com precipitações. Se isso acontecer, temos a possibilidade de vencer. Alemanha de 2020? Essa já vai muito longe, quer uma equipa, quer a outra. Nós também estamos muito diferentes. Manteve-se o treinador em Portugal, na Alemanha já não é o mesmo, e uma série de jovens entraram em ambas as equipas. Nós também não tínhamos os irmãos Costa, em 2020, mudou muito. Em termos ofensivos, por exemplo, mudou muito, espero que seja um jogo diferente até no resultado”, comentara Paulo Pereira na antecâmara desse “reencontro” com a formação germânica.

Esse jogo, a contar para a atribuição do quinto e sexto lugares do Europeu, foi o último oficial entre os dois conjuntos e também aquele que terminou com a diferença mais pequena este século (29-27). Depois disso, em quatro particulares, Portugal ganhou um e perdeu três mas sempre por margens mínimas. Mais: se os confrontos diretos alimentavam a esperança de que não era impossível ganhar, o próprio trajeto alemão no Mundial ilustrava uma equipa com primeiras partes que deixavam sonhar os adversários e nem mesmo os recentes triunfos mudavam essa realidade tendo em conta que o grupo I apresentava equipas que não eram teoricamente do mesmo patamar de outras do grupo III. E com outro dado importante: sendo certo que a Dinamarca “despachou” o Brasil com uma vantagem de sete golos a meio da primeira parte (10-3, resultado final de 33-21), a Croácia encetou uma recuperação fantástica com a Hungria no último minuto e a França só conseguiu chegar às meias-finais frente ao Egito com um golo marcado… no derradeiro segundo.

Os minutos iniciais e a imagem de Paulo Pereira de braços no ar a pedir calma entroncou da melhor forma daquilo que tinha sido dito na antevisão, com duas defesas de Diogo Rêma e algumas falhas técnicas a darem margem para Portugal, apesar da grande exibição de Andreas Wolff, ganhar uma surpreendente vantagem de quatro golos nos dez minutos iniciais (5-1). O islandês Alfred Gíslason, selecionador que trouxe coisas novas aos germânicos, parou de imediato o encontro mas as melhorias no ataque não disfarçaram as dificuldades defensivas para travar a ligação entre primeira e segunda linha de Portugal que levou o jogo até ao 7-3. No entanto, começavam a perceber-se diferenças na tendência do jogo, algo que alertou o selecionador nacional.

“Não queiram ganha o jogo em cinco minutos, não vale a pena”, referia Paulo Pereira, antes de preparar a entrada em cena de novas combinações ofensivas. Os efeitos não foram imediatos, com a Alemanha a chegar ao 7-6, os efeitos acabaram por surgir: numa fase em que os germânicos tinham um jogador a menos por exclusão, dois golos do meio-campo de Luís Frade e a meia distância de Francisco Costa ditaram leis, com a vantagem de quatro a ser novamente recuperada (11-7) e a perdurar até ao intervalo, que chegou com mais uma falta ofensiva “sacada” pela defesa nacional que esteve ao nível mais alto deste Mundial. Aliás, se não fosse o gigante Wolff na baliza dos alemães e a vantagem no descanso poderia ser mais “decisiva” (13-9).

Como se viu no arranque do segundo tempo, teria sido importante. Por um lado, a Alemanha chegou com outros argumentos ofensivos em ataque organizado que foram levando a que Portugal se tivesse de tentar adaptar a essas mecânicas; por outro, e ainda nos cinco minutos iniciais, uma falta que deveria ser tomada com sanção de exclusão de dois minutos tornou-se um cartão vermelho para Luís Frade. Mais um problema para a Seleção, que vira a vantagem passar para apenas dois golos nesse arranque (15-13), numa diferença que entretanto ficaria reduzida a apenas um ataque com o 17-16 pelo pivô Johannes Golla aos 41′.

Era aqui que entrava a fase decisiva da partida, com Wolff a aparecer também na baliza dos germânicos ao travar um lance de 1×0 com Leonel Fernandes que poderia ter dado de novo três golos de vantagem e a dupla de arbitragem a ter decisões cirúrgicas a penalizar Portugal nos momentos chave até com sanções ao banco. Com tudo isso, e pela primeira vez, a Alemanha passou para a frente aos 47′ pela primeira vez quando jogava com mais duas unidades de campo e chegou ao 20-18 logo de seguida. Fim de jogo? Nem por isso? Fazendo mais uma vez das fraquezas forças, Portugal nunca deixou de acreditar, fez o empate a 22 e manteve tudo em aberto até ao último lance, quando os germânicos não marcaram já com Gustavo Capdeville na baliza. A partida iria mesmo seguir para prolongamento, confirmando a tendência de todos os jogos dos quartos à exceção do Dinamarca-Brasil, com Martim Costa a ser a chave com o golo decisivo a poucos segundos do final para o 31-30 já depois de ter sido a força de desbloqueio em termos ofensivos.