No desfile de estreia pela alta costura da Valentino, Alessandro Michele não desapontou. A coleção que foi apresentada na última quarta-feira, 29 de janeiro, na Paris Couture Week, chama-se Vertigineux, e tem tudo o que se espera do criador que fez fama nos últimos oito anos na Gucci. Milhares de horas de trabalho em peças feitas à mão com bordados, cristais, penas, padrões, tule, crinolina. O maximalismo misturado com um tom teatral e surrealista surpreendeu a imprensa internacional, que classificou a estreia de “masterclass” e “brilhante”.

O cenário, montado no Palais Brongniart, já fazia sentir o nome da coleção. Numa escuridão total, o público ouvia ruídos industriais e via luzes a piscar. Ao abrir das cortinas, uma imensa lista de palavras piscavam em letras vermelhas. “Sou apaixonado por listas. Por tentar encontrar uma ordem. O meu trabalho é imaginar. Tentar apanhar o oceano num copo. Estou sempre a tentar encontrar ordem”, explicou o designer, no final do desfile. Michele fez, efetivamente, uma lista de 95 páginas para os 48 looks que apresentou. Trazia palavras que lembram estilos e ideias, como “volume”, “crepe da China”, “obsessão” ou “femme fatale”, mas também nomes históricos que o inspiraram, como “Umberto Eco”, “Shakespeare”, “Maria Antonieta” ou “Sigmund Freud”.

Vê-se Cleópatra, arlequina ou rainha Victoria, em roupas tão dramáticas quanto as máscaras e joias dignas de uma ópera que as modelos, quase metade com idades entre os 50 e 60 anos, levaram à passarelle. “O tempo confere graça e multiplica a beleza”, disse Michele. Prova disso é o tempo dedicado a cada uma das peças. Vestidos que demoraram 1300 horas a fazer, um trabalho minucioso feito à mão, a definição de alta costura. “As costureiras são como fadas e elfos. Não sou bom a costurar, sou bom com alfinetes. Porém, tenho uma paixão que pode fazer da moda algo significativo. Consigo contar uma história”.

Na sua estreia pela alta costura da Valentino, Alessandro Michele privilegiou contar a história da casa de moda. O designer assume que mergulhou nos arquivos da maison onde encontrou todas as referências aristocráticas de Valentino Garavani, tão presentes na nova coleção. “É quase ele. Tentei fazer um pouco diferente. Às vezes tento replicar o que vi, porque é tão fascinante. Mas acho que estamos os dois no mesmo vestido”, disse Michele à Vogue. Na primeira fila, nomes como Elton John, Susie e Nick Cave, ou Carla Bruni, apenas uma amostra dos muitos amigos famosos que o designer já fez ao longo da profissão. Todos a assistir a coroação e de olhos postos na nova visão de Alessandro Michele para a tradicional maison Valentino.