Eu sentava-me aos seus pés, ela no sofá verde, os dedos cheios de anéis, aqueles olhos azuis cristalinos e uma luz. A Maria Teresa Horta tinha uma luz que era só dela. Conversávamos horas sem fim, ríamos muito, as confidências misturavam-se com o que sabíamos ser passível de ser escrito para a biografia. Depois, havia o resto. Uma vida tão longa que ela relatava com um sentido de pertença e, em simultâneo, como se contasse a história de uma outra mulher.

Decidi muito cedo que a biografia se chamaria A Desobediente. Poderia ser A Corajosa. A Audaz. Mas a desobediência servia-a como uma luva. Porque não era uma mulher de concessões, era uma mulher de causas. Com uma voz própria. E uma voz que Portugal nunca perdoou. Porque ela nunca se calou, sempre decidiu que dizia de sua justiça sobre o que fosse, que ninguém a impediria. Mesmo antes do 25 de Abril, ela decidiu que a Liberdade era a sua luta, a sua vontade.

▲ A capa de "A Desobediente", a biografia de Maria Teresa Horta, escrita por Patrícia Reis, publicada pela Contraponto

Escrever a biografia de alguém com a colaboração da própria pessoa é um exercício arriscado. Ela dizia-o, “não sei por que te metes nisto”. E eu ria-me. Foram quatro anos de trabalho com muitas atribulações. O marido de Maria Teresa Horta, o jornalista Luís de Barros, morreu em novembro de 2019. A pandemia confinou-nos a partir de março de 2020. O livro, Paixão, o seu último livro de poesia, dedicado mais uma vez ao marido, foi o único que não lançou, não viu nos escaparates.

Deixou de sair de casa. Abandonou o Facebook onde publicava um poema por dia. Viu nascer os bisnetos. Continuou a escrever poesia todos os dias. Interrogava-se sobre um novo livro, como o escrever, como voltar ao computador. Não chegou a concretizar esse último projeto, mas sabia o tema: a solidão. A Teresinha era uma mulher só. À sua maneira, cheia de mundo, com muitas solicitações, mil curiosidades, mas sempre só. Talvez por ter sido uma menina que viu a mãe sair da casa de família, abandonando o marido e as três filhas, aos nove anos de idade. Talvez por ter chocado com o pai que comentava: “esta rapariga é muito estranha”.

Ativa, atenta, ruidosa: Maria Teresa Horta

Teresa sabia que era diferente das mulheres ao seu redor. Não se conformava com o que lhe queriam impor. Contava que Agustina Bessa-Luís lhe pedia: “tente, Teresa, tente estar calada”. E ela, muito rápida, muito lúcida, respondia: “não consigo, Agustina, não consigo”.

A morte da Teresa é uma perda tremenda e todos a irão elogiar. Pena que não o tenham feito tanto em vida. O reconhecimento do seu génio foi tardio. Por ser mulher? Ela estava convicta de que ser feminista a prejudicava, disseram-lho muitas vezes, mas ela estava-se “nas tintas”, falar em nome das mulheres, de todas nós, era mais importante do que ser reconhecida.

Patrícia Reis é escritora e editora, autora de “A Desobediente”, biografia de Maria Teresa Horta