Numa entrevista ao jornal Público, em 2008, admitiu ter muito dinheiro e era mesmo apontado como uma das pessoas mais ricas do mundo. Mas a vida do príncipe Aga Khan, líder dos muçulmanos xiitas ismailis, que morreu esta terça-feira, em Lisboa, aos 88 anos, ficará mais conhecida por ter dado origem a uma das maiores agências de desenvolvimento do mundo que apoia dezenas de milhões de pessoas: a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN, Aga Khan Development Network).
A Fundação Aga Khan (AKF) começou a trabalhar em Portugal em 1983, com atividades focadas na educação e cultura na primeira infância, desenvolvimento da sociedade civil e inclusão social e económica de imigrantes. Opera no país devido a vários acordos e protocolos de cooperação entre o Imamat Ismaili e Portugal, colaborando com o governo português, organizações da sociedade civil e instituições religiosas, incluindo a Igreja Católica. A apoiar 336 organizações da sociedade civil, alcança mais de 127 000 pessoas. Eis alguns exemplos do legado social deixado pelo líder dos muçulmanos ismailitas em Portugal.
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Educação
De acordo com os dados da fundação, as ações focadas em educação e primeira infância abrangem 95 000 pessoas e mais de 1000 escolas.Uma das iniciativas em curso atualmente é a Escolas 2030, que é uma ação de investigação científica com duração de 10 anos com o objetivo de desenvolver estratégias a fim de melhorar a aprendizagem. O programa envolve 10 países, sendo que em Portugal decorre em 108 escolas de 17 agrupamentos escolares nas regiões de Lisboa, Porto, Sintra, Gondomar, Alcanena e Marinha Grande. A Universidade do Porto e o ISCTE-IUL são os parceiros científicos, e o programa recebeu um apoio recente da fundação Santander Portugal no valor de 300 mil euros até 2027 para a capacitação de 1500 professores e a criação de uma bolsa de 30 formadores.
A AKF também criou a Rede de Escolas para a Educação Intercultural (REEI), que desde 2016 trabalha com escolas na Grande Lisboa na criação de materiais multilingue e estratégias para promover a igualdade, o diálogo e a inclusão. Em 2019, assinou com o Governo português um protocolo de apoio ao Plano Nacional de Leitura para três anos, visando o apoio a 300 escolas do ensino infantil e pré-escolar através da compra de livros, no valor de 150 mil euros.
Desde 2009 administra o Centro de Primeira Infância nos Olivais Sul, em Lisboa, com unidades de creche e pré-escolar. O centro promove também ações de capacitação e desenvolvimento profissional de professores através da formação em serviço e de estudos de pós-graduação. Em fase de projeto está a Academia Aga Khan Lisboa, que seria a primeira na Europa e a quinta de uma rede mundial, destinada a jovens até aos 18 anos — é um projeto de ensino de mais de 80 milhões de euros.
Cultura
O Fundo Aga Khan para a Cultura (AKTC – Aga Khan Trust for Culture) promove regularmente prémios para a arquitetura, no valor de um milhão de dólares (cerca de 900 mil euros), e para a música, no valor de 500 mil dólares (cerca de 457 mil euros).
A AKTC também deu apoio a cerca de 40 mil músicos e educadores musicais e formou 4550 artesãos em 2024. O fundo também é destinado ao restauro e conservação de património, assim como de cidades históricas. Um exemplo é de 2015, durante a campanha pública do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) para a angariação de 600 mil euros para a aquisição do quadro “A Adoração dos Magos”, do pintor português Domingos António Sequeira (1768-1837). A AKF doou 200 mil euros, a maior doação registada. Em 2019, a fundação financiou o restauro de três pinturas de Bento Coelho da Silveira (1617-1708), artista régio de Pedro II: “Apresentação da Virgem no Templo”, doada ao Museu Nacional Soares do Reis, no Porto, “Repouso no Regresso do Egipto” e “Virgem com o Menino e a Visão da Cruz”, entregues ao MNAA.
No início do ano a fundação anunciou que vai financiar com 375 mil euros a obra de reabilitação da capela de Nossa Senhora da Aflição, em Gondomar, destruída por um incêndio em 2024. O projeto é uma colaboração com a autarquia de Gondomar, a paróquia local e a família proprietária.
Ações solidárias e inclusão social
Em 2017, diante da tragédia em Pedrogão Grande, a fundação doou cerca de meio milhão de euros para ajudar as vítimas dos incêndios. No mesmo ano, doou 100 mil euros para a reflorestação da mata de Leiria, depois dos fogos que atingiram a zona no verão. Já em 2019 ofereceu um robô cirúrgico a um hospital de Lisboa e, a partir de 2020, apoiou em várias frentes a luta contra a covid-19.
A fundação também tem redes para apoiar a formação profissional, a colocação de trabalhadores e a criação de empregos. A AFK diz que, desde 2010, já apoiou mais de 17 mil pessoas em Lisboa, Sintra e Oeiras a terem acesso a formação e colocação no mercado de trabalho.
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Além disso, em Lisboa, mais concretamente nas Laranjeiras, existe há 20 anos o Centro Ismaili (no mundo só existem seis, além de Lisboa há dois no Canadá, um no Tajiquistão, outro em Londres e outro no Dubai). Um complexo que ocupa cerca de 18 mil metros quadrados onde existe um espaço para que a comunidade possa fazer o seu recolhimento em oração (dois momentos diários, ao nascer do sol e ao final do dia). O espaço também acolhe as instituições Aga Khan. Foi aqui que duas mulheres, Farana Sadrudin e Mariana Jadaugy, de 24 e 49 anos, que trabalhavam no centro, morreram, na manhã de 28 de Março de 2023, na sequência dos ferimentos provocados por um ataque com uma faca.