Musa do momento, Kendall Jenner pode ter aquecido a passerelle mas foi na fila da frente do desfile desta sexta-feira que as atenções se demoraram. Aos 82 anos, Calvin Klein protagonizou uma rara aparição pública, para assistir à estreia de Veronica Leoni na direção criativa da marca que lançou em 1968, que vendeu no começo dos anos 2000 ao grupo PVH (que detém também a Tommy Hilfiger), e que agora regressou aos desfiles depois de um hiato desde 2018.

No arranque da semana da moda de Nova Iorque, no quartel-general da marca, na West 39 Street, o designer deixou-se fotografar com as top models Christy Turlington e Kate Moss, reeditando uma imagem de 1995, mas sobretudo mostrando como a veterania das ex-manequins e it girls dos 90’s (que nos últimos dias disseram “presente” ora nos desfiles, como em Jacquemus, ora em campanhas, como para Isabel Marant), é um posto imbatível. Modelos cujo trajeto se confunde em larga medida com o par e passo da própria etiqueta, que nos últimos anos navegou em águas incertas, em particular no que ao guião mais provocativo diz respeito. Quando Klein se despediu por completo da sua marca, em 2004, seguiram-se as notas de elegância de Francisco Costa e Italo Zucchelli. Raf Simons assumiria os destinos até 2018, quando o seu contrato foi interrompido nove meses antes do fim previsto. Por essa altura, os laivos mais sugestivos não iam além das famosas campanhas de underwear nos outdoors, que permanecem ingredientes de luxúria.

Primeira mulher a ocupar este lugar, ou “sinto-me como o King Kong”, como desabafou à W nos bastidores do desfile, Leoni terraplanou para recuperar as rédeas de uma casa sem liderança há seis anos e relançar a fórmula que hoje se encontra de boa saúde e se recomenda. E acima de tudo, aposta em reescrever a gramática da sensualidade, reaproximando-se das origens mas em simultâneo revendo os argumentos de outras eras para trazer as propostas para este século XXI.  “As suas roupas [de Calvin Klein] eram despojadas porque, assim o sugeriam, isso tornava mais fácil de despi-las. Ninguém era tão bom como ele a transformar roupas desportivas em provocação”, escreve a editora de Moda Vanessa Friedman para o The New York Times, que acompanhou o mergulho de Leoni no arquivo da marca, em Long Island, para regressar à tona com a chave que abre uma nova “sexytude”. “Na maioria das vezes, vemos as mulheres como objetos de desejo”, disse ela. “Mas e se eles se tornarem as pessoas que desejam?”, define a designer italiana, que trabalhou para várias marcas e lançou a sua Quira em 2021, tendo aceitado o desafio de assumir o leme da etiqueta norte-americana em maio do ano passado.

Numa era de excesso, assistiu-se ao regresso às origens, que é como quem diz ao “minimalismo icónico” de Calvin Klein, padrinho dessa corrente em solo norte-americano, presente em tantas declinações atuais, que bebem do melhor espírito dos anos 90. Como diria o próprio Klein, citado pelo Style Not Com, se o assunto for simplesmente roupa, com mais ou menos sensualidade de caminho, a solução está ao virar da esquina. Por outras palavras, se por acaso precisava de um bom casaco, te-lo-á encontrado por aqui. O efeito, esse, quer-se monumental, em pormenores como a textura e estrutura, que se revelam por exemplo em longos exemplares sem golas, ou em acessórios como os chapéus e as carteiras.

Explorando uma paleta de cores neutras, Leoni serve um guarda-roupa ao estilo da mais sofisticada loja de conveniência, aberta 24 horas por dia, sete dias da semana. Do cinza para a visita matinal à padaria, ao caqui para um almoço, e ainda ao básico preto ideal para o final do dia. Anna Wintour ou Bad Bunny juntaram-se ao público que viu de perto as propostas para o próximo outono-inverno. E ao que tudo indica, Calvin, que também arrancou com a alfaiataria nos idos de 60, ficou satisfeito com o que viu. Já nem é preciso dizer às manequins para fazerem cara feia/séria. Afinal, os noventa já lá vão.