Num momento, tudo mudou. Sérgio Conceição assumiu para si o insucesso na segunda mão do playoff da Liga dos Campeões mas aquela expulsão de Theo Hernández por simulação pouco depois do intervalo foi um golpe demasiado duro para o AC Milan, que passou de um jogo controlado para uma eliminatória perdida após o empate com o Feyenoord antes de duas derrotas consecutivas fora na Serie A com Torino e Bolonha. No final, o técnico português “explodiu”. Puxou dos galões, defendeu o currículo até chegar a San Siro, voltou a dizer que tão depressa tinha chegado como podia ir, recordou as várias eliminatórias nas provas europeias pelo FC Porto contra equipas transalpinas que passou sempre, “atacou” quem o queria dispensar.

Uma bala já falhou o alvo, só resta outra: AC Milan perde com o Bolonha e soma terceiro jogo sem ganhar

“Eu e a minha equipa damos o nosso melhor. Estou sempre a ouvir falar sobre a possibilidade de sair. Lamento porque não sou respeitado. Não venho do nada. Venci Sarri, Pioli e Di Francesco na Europa, só perdi com o Inter e ganhei 13 troféus em Portugal. Tenho quase 100 jogos na Liga dos Campeões. Quero respeito como pessoa porque tenho uma família. Todos os dias as pessoas falam de mim, da minha situação aqui. Quando não for necessário, pego nas minhas malas e saio sem pedir um euro”, apontou na primeira entrevista rápida depois da derrota frente ao Bolonha com uma reviravolta na segunda parte.

Se era a final da Champions, o objetivo ficou aquém: Milan acumula erros defensivos e perde em casa do Torino

“Depois da Lazio, temos dois jogos em duas semanas e vamos poder trabalhar em certas coisas que nunca trabalhámos. O nosso início de temporada é contra a Lazio. Vamos trabalhar outro sistema mas é preciso fazê-lo em campo, não só no quadro ou em vídeos. Não gosto de perder, a minha angústia é igual à dos adeptos. Quero sempre ganhar. Estamos cientes do momento, do que aconteceu tanto devido aos nossos erros como devido ao que não conseguimos controlar. Não podemos agarrar-nos à má sorte mas podemos corrigir o que está errado e trabalhar nos erros que cometemos. E, claro, trazer resultados. Pedi aos rapazes para trabalharem bem e para perceberem que o que fazemos nos treinos tem de ser levado para jogo. Temos de ser mais leves mentalmente e, acima de tudo, mais equilibrados. Fui habituado a vencer desde pequeno”, referira agora na antecâmara da receção ao conjunto de Roma que ocupava a quinta posição na Serie A.

As críticas, essas, avolumavam-se. A Gazzetta dello Sport apontava mesmo Cesc Fabrègas como o sucessor do português no comando técnico, Arrigo Sacchi apontava para Maurizio Sarri, Antonio Conte ou Marco Baroni. “Este AC Milan não é uma equipa. Digo isso com pesar, porque vocês sabem o quanto amo este clube, mas não dá para fugir das evidências. Em Bolonha, havia onze jogadores espalhados pelo relvado, sem nada que os mantivesse juntos, sem um jogo, sem uma ideia. Nesta altura, só nos resta uma coisa: outra revolução. Na esperança de que, neste caso, seja feita com sabedoria e seguindo as regras de ouro que são a base da construção de uma equipa. Não creio que o clube veja um futuro com o Sérgio mas é a minha impressão”, referiu mesmo o antigo técnico campeão europeu pelos rossoneri. Só com resultados a atual fase mudaria.

Não foi isso que aconteceu. Pior: a forma como o AC Milan entrou no jogo, foi dominado, não reagiu aos vários estímulos que foram lançados de fora, voltou a acabar em inferioridade numérica por culpa própria e caiu após recuperar a esperança deu sinais de tudo menos capacidade de reação ao momento. Além das três derrotas consecutivas na Serie A, com a descida ao nono lugar a nove pontos do acesso à Champions, houve uma “mini greve” da principal claque e muitos assobios no final. A situação é tudo menos fácil…

Apesar das promessas de mudanças, Sérgio Conceição trocou apenas João Félix por Pulisic, colocando com isso Reijnders mais adiantado no terreno com Musah em dupla com Fofana. Resultados? Poucos, nenhuns. Ainda no período em que a principal claque do AC Milan não estava em San Siro, numa “mini greve” de 15 minutos contra o atual momento da equipa e as apostas do português (“Comparado com o anterior treinador [Paulo Fonseca], Sérgio Conceição não mudou a abordagem aos jogos, apenas criou mais divisões internas”, justificou em comunicado), Maignan evitou o golo de Boulaye Dia isolado na área, Pavlovic quase marcou na própria baliza após jogada de Nuno Tavares e Isaksson atirou perto do poste de meia distância. As coisas não corriam bem, com muitos assobios pelo meio, mas iriam tornar-se ainda pior até ao intervalo.

Antes da meia hora inicial, e confirmando o domínio na partida, a Lazio conseguiu mesmo adiantar-se no marcador por Mattia Zaccagni, deixando San Siro ainda mais em estado de sítio perante a incapacidade de reação do AC Milan ao momento mais difícil desde que Sérgio Conceição assumiu o comando. João Félix foi lançado ainda na primeira parte no lugar de Musah mas o 1-0 iria manter-se até ao intervalo.

Algo teria de mudar para os rossoneri entrarem de novo na partida e os minutos iniciais até mostraram um esboço de reação, com o recém entrado Kyle Walker a ter um remate com perigo e João Félix a ameaçar a baliza de Ivan Provedel, mas continuaram a ser os visitantes a beneficiarem das melhores oportunidades com Mike Maignan a adiar o golo que iria decidir de vez a partida antes da expulsão de Pavlovic após entrada dura sobre Isaksson, deixando o AC Milan reduzido a dez nos últimos 25 minutos do encontro. Só mesmo quando a esperança parecia condenada apareceu o empate, com Rafael Leão a cruzar da esquerda para o desvio de cabeça de Chukwueze que bateu na trave mas foi mesmo para dentro (84′). Voltava a ficar tudo em aberto para um final de loucos com oportunidades nas duas áreas e um penálti de Mike Maignan sobre Isaksson no derradeiro minuto de descontos que permitiu o 2-1 de Pedro Rodríguez aos… 90+8′.