Para fazer a defesa do meu ponto prévio, vou recorrer a uma trend do TikTok. Peço desde já desculpa às gerações abaixo da minha pela apropriação cultural. Portanto, repitam comigo: “We listen and we don’t judge”. Por favor, oiçam-me com carinho e não me julguem, por compaixão. Fiquei muito entusiasmada quando me propuseram analisar a prestação do apresentador dos Óscares, cerimónia que acompanho desde que me foi possível fazê-lo nos canais generalistas, uma vez que antena parabólica era coisa que não se gastava lá em casa. E o meu ponto prévio tem a ver com o nome que foi escolhido este ano.
Adoro o Conan O’Brien, mas não vou ser poser. Desde que ele deixou de aparecer com regularidade no pequeno ecrã, eu deixei de o consumir (salvo seja) de forma assídua. Nunca ouvi um episódio do podcast Conan O’Brien Needs a Friend e ainda não vi mais que excertos do Conan O’Brien Must Go na HBO. E isto acontece por nenhuma razão lógica, plausível ou sequer consciente. É o chamado “é daquelas coisas que não se explicam”. Acredito que isso não faz de mim menos Team Coco. Parem, vocês disseram que não iam julgar! O que é que tenho de fazer para provar que sou verdadeiramente fã do trabalho artístico de O’Brien? Tatuar o “Masturbating Bear”? Ah, bom!
Espero sempre com expectativa o anúncio do apresentador dos Óscares. O Billy Cristal, a Whoopy Goldberg e o Jon Stewart ocupam o meu pódio pessoal, com uma menção muito honrosa para o Steve Martin. Os anos sem apresentador foram, quanto a mim, um desastre. Percebo que tentem fazer diferente, mas isso não é uma mais valia por si só. Mas a Academia não deve partilhar da minha opinião, já que atribui 13 nomeações ao desastre em cadeia diferentão chamado Emilia Pérez.
Quando foi anunciado o nome do mestre de cerimónias deste ano, fiquei sem saber o que esperar, o que é uma forma bastante adequada de descrever Conan O’ Brien. Imprevisível, desbragado, esquisitóide: Coco foi sempre isto. Bill Kramer, o CEO da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, numa entrevista à CNN descreveu Conan da seguinte forma: “Ele é uma pessoa adorável, número um. Ele é um humanista. Ele é apolítico”. Concordo com as duas primeiras frases, em absoluto. Já quanto à última tenho as minhas severas dúvidas. Parece-me impossível alguém tão informado e curioso sobre o mundo que o rodeia ser apolítico, o que é bem diferente de ser apartidário.
Mas o que me deixou ainda mais com a pulga atrás de orelha (isto sem uma expressão própria de uma personagem do Conta-me como foi não tinha a mesma graça, confessem), foi o CEO afirmar que o seu objetivo era ter uma transmissão absolutamente livre de política. E imaginar que foi esse o o motivo da seleção de O’ Brien, parece-me extraordinariamente redutor, para não dizer cínico e manipulador. A questão é: será possível que Conan seja Conan num evento tão pomposo, tão sem espaço para o improviso e tão escrutinado como os Óscares? Será que aquele metro e noventa e três meio desconjuntado, coroado com uma poupa laranja bamboleante e um humor desconcertante cabe na linha da frente do Dolby Theatre? Quis acreditar que sim desde o primeiro minuto e estou prestes a saber a resposta. Tenho a manta no colo, três cafés no bucho e gomas ácidas para quando me começar a dar o quebranto. Let the games begin.
[veja — ou reveja — o monólogo de abertura dos Óscares, por Conan O’Brien:]
O Monólogo de abertura é o momento chave. Define o tom daquilo que vai ser a performance do apresentador e é uma rampa de lançamento para aquilo que vai ser a cerimónia. Conan O’Brien sabia disso e o que se passou foi isto:
Eu não devia ir por aqui. Não será o meu momento momento de humor mais sofisticado, mas é mais forte do que eu. Ver o Conan a sair de dentro da Demi Moore não estava no meu bingo de 2025. O mini sketch inspirado n’A Substância foi absolutamente palerma e deliciosamente engraçado. Excelente lançamento para o tradicional monólogo de abertura, onde Conan entrou a medo e a deixar transparecer um ligeiro nervosismo. Numa indústria que é muitas vezes tão plástica, orientada para o ego e pouco genuína, achei isso refrescante e enternecedor.
Eis o meu top 3 piadas do monólogo: (sobre Conclave) “A movie about the Catholic Church, but don’t worry!”; “Anora uses the f-word 479 times. That’s more than the record set by Karla Sofía Gascón’s publicist.”; e por último, a fotografia do Conan em criança. Valeu cada cêntimo do cachet do apresentador, chorudo de acordo com o próprio (não sei se amo a palavra chorudo ou se me dá um certo asco, achei oportuno partilhar).
O momento do Adam Sandler na plateia foi como a carreira dele enquanto ator: no geral, passava bem sem ver, mas há aí 5% que vale a pena (Punch Drunk Love, Funny People, Uncut Gems). O momento em que Sandler agarrou o jovem portento que encarnou Bob Dylan e gritou “Chalamééét!” fez-me rir com vontade.
E como este é o ano dos musicais nos Óscares, Coco fecha o monólogo com chave de ouro: fez-se rouxinol e cantou um tema sobre a duração extenuante da cerimónia. Um momento musical ridículo de bom (não ridículo de mau como Emilia Perez… prometo que é última vez que bato nos ceguinhos responsáveis por este delírio coletivo). Incluiu uma sandworm do Dune a tocar piano e um Dead Pool a dançar. Está ganho.
Ao longo da cerimónia, Coco manteve a bola alta, a tolice que lhe é tão característica e mandou uma ou outra entrada a pés juntos, o que muito me apraz. Estes foram os momentos altos, na opinião desta querida:
No lançamento do Óscar de Melhor Guarda Roupa, Conan pisca o olho à audiência internacional (preocupação premente da Academia) e fala em diferentes línguas, o que não é propriamente a coisa mais inovadora de sempre, mas deu-me risa, como dizem as pessoas que dizem encarnado. Achei caliente o sotaque em espanhol, não vou mentir. Na punchline, O’Brien tenta captar investimento chinês. Carlos Moedas fez like.
Amy Poehler apresentou o Óscar para Melhor Argumento Original e Adaptado, e o apresentador descreve-a assim “She is Joy in Inside Out 2, but she’s here to present the Oscar that represents the opposite of Joy: screenwriting”. Desculpem puxar a brasa à minha sardinha, mas touché. Apesar de não me trocar o meu trabalho por nada. Como diria o meu caro amigo Guilherme Duarte, foi a vida que um sócio escolheu.
O sketch ao estilo televendas que apresenta uma solução inovadora para o incómodo de ver filmes num ecrã de telemóvel, tablet ou portátil: uma sala de cinema. As coisas que eles inventam… O sketch até podia não ter ponta de piada (que não foi o caso), porque teve Martin Scorsese e as suas sobrancelhas icónicas. Absolute cinema.
Conan volta a palco para assinalar que a cerimónia vai a meio com uma piada que provocou um riso nervoso na audiência e me fez bater palmas, sozinha na sala, de forma ridícula: “We are halfway through the show. That means that is time to Kendrick Lamar comes to stage to call Drake a pedophile”. E sabem quem é que também voltou a palco? A sandworm do Dune… Para tocar harpa. Ouro puro.
Os Bombeiros de Los Angeles foram chamados a palco para serem homenageados e entregar piadas que Conan não tinha coragem de dizer, incluindo a piada da noite “All of our hearts go out to those who have lost their homes… including the producers of Joker 2”. Num aparte que não é para aqui chamado e que rompe uma promessa que fiz uns parágrafos atrás (já deviam saber que eu não sou de fiar): eu não gostei do Joker 2 e fui bastante crítica na altura, mas depois de ver Emilia Pérez, fiquei capaz de fazer um tramp stamp a dizer “Folie à Deux” para me penitenciar.
Querias uma cerimónia que não chateasse o cabeça de tangerina, não querias, CEO da Academia? Olha para o Conan a ser apolítico: “Anora is having a good night. Two wins already. I guess Americans are excited to see somebody finally stand up to a powerful Russian.”
Além do relambório acima, houve trocadilhos parvos diversos como “In Europe they are known as Kilometers and Kilometry. Please welcome Miles Teller and Miley Cyrus”, que resultam muito graças à entrega de Conan e ao ar meio constrangido, meio maravilhado, como quem diz “não acredito que acabei de dizer esta estupidez nos Óscares!”. Houve one liners exímias: “If you still enjoying the show, you’ve got something called Stockholm Syndrome” e uma vontade de bem dispor, no geral.
Conan acabou a cerimónia aos pulos e a fazer uma dancinha celebratória com a sua notória e irresistível falta de jeito e bem merece. Não foi perfeito, mas foi muito bom. Esta foi uma noite de vitória para o cinema independente (Bravo, Anora!), com um apresentador que não é dependente do mainstream. Uma vez, Conan disse numa entrevista, após um interregno na televisão: “Espero que ainda me achem comicamente absurdo e ridículo e não me arrependo de nada”. Achei isso e muito mais. E eu sim estou arrependida e amanhã vou acabar com este interregno e fazer o download do podcast e começar a ver o programa na Max. Go, Team Coco!