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Anora, de Sean Baker, é o Melhor Filme do ano e o grande vencedor da cerimónia dos Óscares este domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América. Ainda Estou Aqui é o Melhor Filme Internacional, numa noite histórica para o Brasil, que conquistou o seu primeiro Óscar, ainda que com um sabor agridoce: Fernanda Torres viu fugir o prémio de Melhor Atriz, tal como a mãe, Fernanda Montenegro, há 26 anos.

Sem um favorito óbvio como Oppenheimer no ano passado, a 97ª edição dos Óscares — cuja cerimónia, em Portugal, foi emitida na RTP1 — seria sempre feita de surpresas, mas o suspense foi quase até ao fim. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas acabou por premiar o cinema independente e Anora, um filme de seis milhões de dólares e sem uma campanha mediática planetária, venceu em cinco das seis categorias para as quais estava nomeado: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Atriz, Melhor Montagem e Melhor Argumento Original.

Sean Baker em San Sebastian. Filmes que arruínam relações, o sucesso de “Anora” e a beleza do sonho americano

Quando Sean Baker (Tangerine, The Florida Project, Red Rocket) subiu ao palco, discursou sobre a importância do espaço do cinema. “Cineastas, continuem a fazer filmes para os grandes ecrãs. Eu sei que o farei”, disse na terceira subida ao palco, desta vez pelo prémio de realização. “Estamos aqui porque amamos o cinema. E onde é que nos apaixonamos pelos filmes? Num cinema”. “Numa altura em que o mundo parece mais divido do que nunca, é uma experiência de comunidade”, defendeu.

Numa cerimónia morna, os prémios dos atores cumpriram à risca as previsões: Adrien Brody venceu com O Brutalista o Óscar de Melhor Ator, e Kieran Culkin o de Melhor Ator Secundário por A Verdadeira Dor. No caso das atrizes, se o galardão para Zoe Saldaña (Melhor Atriz Secundária por Emilia Pérez) era quase certo, o sobressalto foi grande quando se escutou o nome de Mikey Madison, considerada a Melhor Atriz do ano por Anora. “Isto é muito surreal”, disse a jovem antes de proceder a ler o discurso de agradecimento. Tal como Sean Baker, dedicou o prémio em parte às trabalhadoras do sexo, com quem contactou para preparar a personagem de uma dançarina erótica de ascendência uzbeque que vive e trabalha no bairro de Brighton Beach, em Brooklyn, e vende os seus favores sexuais a alguns clientes.

Emilia Pérez revelou-se o grande derrotado da noite. Depois de ter passado de bestial a besta, o filme do francês Jacques Audiard tinha o maior número de nomeações, 13, e conquistou apenas duas estatuetas: Melhor Canção Original (“El Mal”), e Melhor Atriz Secundária (Zoe Saldaña). Em lágrimas como há muito não se via, Saldaña tornou-se o rosto público de Emilia Pérez depois da trapalhada com os tweets de Karla Sofía Gascón, por muitos considerados racistas e intolerantes. De Óscar na mão, lembrou: “Sou a primeira americana de origem dominicana a receber um Óscar e sei que não vou ser a última”. A atriz partilhou o prémio com os colegas, com a produção, com os managers, e agradeceu à família. “A minha avó veio para este país em 1961, sou orgulhosa filha de pais imigrantes, de mãos que trabalharam”, sublinhou.

Trump e política estiveram quase ausentes da cerimónia

Sendo o tema da imigração caro a Donald Trump, a deixa de Zoe Saldaña não foi aproveitada por Conan O’Brien, que apresentou a cerimónia sem alaridos que ferissem a sensibilidade do Presidente dos Estados Unidos da América — debaixo de fogo depois consequências do sucedido na Sala Oval com Volodymyr Zelensky.

O’Brien manteve-se distante de piadas com teor político tanto no monólogo de abertura como nas restantes intervenções. As alfinetadas do comediante cingiram-se a Karla Sofia Gáscon (que saltou a passadeira vermelha, mas foi à cerimónia) e a um único comentário mais mordaz quando, referindo-se à “boa noite” que Anora estava a ter, disse que “os americanos estão finalmente entusiasmados por verem alguém fazer frente a um russo poderoso”, numa alusão à proximidade entre Trump e Vladimir Putin.

Foi preciso que a atriz Daryl Hannah — Elle Driver de Kill Bill — subisse a palco para se escutar “Slava Ucrânia”, antes da apresentação do prémio de Melhor Montagem. Foi a única vez que a invasão russa foi mencionada de forma explícita na cerimónia.

“Ainda Estou Aqui”: o primeiro Óscar do Brasil

A noite foi histórica, mas agridoce para o Brasil. Ainda Estou Aqui venceu o Óscar de Melhor Filme Internacional, com o realizador Walter Salles Jr. a dedicar o prémio à “mulher, que depois de uma perda sofrida durante um regime autoritário, não se deixou vergar”. “O seu nome é Eunice Paiva”, sublinhou, referindo-se à mulher sobre a qual o livro Ainda Estou Aqui, escrito pelo seu filho Marcelo Rubens Paiva, foi escrito, sendo depois adaptado ao cinema.

Sem esquecer de sinalizar o marco que a conquista do Óscar representa para o cinema brasileiro, o cineasta dedicou ainda a vitória a Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, as duas atrizes (filha e mãe) que encarnaram Eunice Paiva neste filme. A “torcida” brasileira continuou até à última, mas o desejo para que Fernanda Torres conquistasse o que escapou à mãe há 26 anos, não se concretizou.

Documentário israelo-palestino premiado

No momento mais político da noite, os cineastas responsáveis por No Other Land, considerado o Melhor Documentário, chamaram por uma solução para uma guerra se estende há décadas. O filme documental retrata Masafer Yatta, um conglomerado de 20 aldeias situado no sul da Cisjordânia, perto da fronteira entre Israel e a Palestina.

A equipa de No Other Land, composta por israelitas e palestinianos (o filme mostra a aliança que se desenvolve entre o ativista palestiniano Basel e o jornalista israelita Yuval), pediu pelo “fim da guerra e da limpeza étnica”, apelando tanto ao “fim do genocídio do povo palestiniano” como à “libertação dos reféns de 7 de Outubro”, apontando ainda o dedo à política externa norte-americana pelo arrastar do conflito.

A vitória é particularmente significativa para um filme que não teve distribuição norte-americana. Em Portugal, o documentário também ia pelo mesmo caminho, e começou por ir diretamente para a Filmin, mas entretanto a plataforma de streaming chegou a acordo com um distribuidor e a obra chegou a dois cinemas do país: o cinema Trindade, no Porto, e o Cinema Ideal, em Lisboa.

A vitória de Flow e um alerta: “Estamos no mesmo barco”

A Letónia saiu do grupo de países que nunca ganharam um Óscar com a vitória de Flow — À Deriva, de Gints Zilbalodis, derrotando pesos pesados como Divertida-Mente 2, dos estúdios Disney Pixar. A Academia premiou com o Óscar de Melhor Filme de Animação a história de um pequeno gato preto que, depois de um cataclismo ambiental, é levado nas cheias numa embarcação à deriva, procurando sobreviver com outros animais. Ao receber o prémio, o letão Gints Zilbalodis, que assina realização, argumento, fotografia, direção artística, montagem e música, terminou o discurso afirmando que “estamos no mesmo barco, temos de ultrapassar as nossas diferenças para chegarmos ao mesmo destino”, numa referência ao seu próprio filme, mas talvez não só.

Nomeado para oito Óscares, Conclave, o filme de Edward Berger que decorre durante a eleição de um novo Papa conquistou apenas um único: Melhor Argumento Adaptado.

A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES da 97.ª EDIÇÃO DOS ÓSCARES:

Melhor Filme

Vencedor: Anora
Restantes nomeados:

O Brutalista
A Complete Unknown
Conclave
Dune: Parte II
Emilia Pérez
Ainda Estou Aqui
Nickel Boys
A Substância
Wicked

Melhor Atriz

Vencedora: Mikey Madison, Anora
Restantes nomeadas:

Cynthia Erivo, Wicked
Karla Sofía Gascón, Emilia Pérez
Demi Moore, A Substância
Fernanda Torres, Ainda Estou Aqui

Melhor Realizador

Vencedor: Sean Baker, Anora
Restantes nomeados:
Brady Corbet, O Brutalista
James Mangold, A Complete Unknown
Jacques Audiard, Emilia Pérez
Coralie Fargeat, A Substância

Melhor Ator Principal

Vencedor: Adrien Brody, O Brutalista
Restantes nomeados:
Timothée Chalamet, A Complete Unknown
Colman Domingo, Sing Sing
Ralph Fiennes, Conclave
Sebastian Stan, The Apprentice — A História de Trump

Melhor Banda Sonora

Vencedor: O Brutalista
Restantes nomeados:
Conclave
Robô Selvagem
Emilia Pérez
Wicked

Melhor Filme Internacional

Vencedor: Ainda Estou Aqui
Restantes nomeados:
Emilia Pérez
A Semente do Figo Sagrado
Flow
The Girl with the Needle

Melhor Fotografia

Vencedor: O Brutalista
Restantes nomeados:
Dune: Parte II
Emilia Pérez
Maria
Nosferatu

Melhor Curta-metragem

Vencedor: I’m Not a Robot
Restantes nomeados:
A Lien
Anuja
The Last Ranger
The Man Who Could Not Remain Silent

Melhores Efeitos Visuais

Vencedor: Dune: Parte II
Restantes nomeados:
Alien: Romulus
A Better Man
Planeta dos Macacos: O Reinado
Wicked

Melhor Som

Vencedor: Dune: Parte II
Restantes nomeados:
A Complete Unknown
Emilia Pérez
Wicked
Robô Selvagem

Melhor Documentário

Vencedor: No Other Land
Restantes nomeados:
Black Box Diaries
Porcelain War
Soundtrack to a Coup d’Etat
Sugarcane

Melhor Documentário — Curta-Metragem

Vencedor: The Only Girl in the Orchestra
Restantes nomeados:
Death By Numbers
I Am ready, Warden
Incident
Instruments of a Beating Heart

Melhor Canção Original

Vencedora: “El Mal”, Emilia Pérez
Restantes nomeadas:
“Like A Bird”, Sing Sing
“The Journey”, The Six Triple Eight
“Mi Camino”, Emilia Pérez
“Never Too Late”, Elton John: Never Too Late

Melhor Design de Produção

Vencedor: Wicked
Restantes nomeados:
O Brutalista
Conclave
Dune: Parte II
Nosferatu
Wicked

Melhor Atriz Secundária

Vencedora: Zoe Saldaña, Emilia Pérez
Restantes nomeadas:
Felicity Jones, O Brutalista
Isabella Rossellini, Conclave
Ariana Grande, Wicked
Monica Barbaro, A Complete Unknown

Melhor Montagem

Vencedor: Anora
Restantes nomeados:
O Brutalista
Conclave
Emilia Pérez
Wicked

Melhor Maquilhagem e Cabelos

Vencedor: A Substância
Restantes nomeados:
A Different Man
Emilia Pérez
Nosferatu
Wicked

Melhor Argumento Adaptado

Vencedor: Conclave, Peter Straughan
Restantes nomeados:
A Complete Unknown
Emilia Pérez
Nickel Boys
Sing Sing

Melhor Argumento Original

Vencedor: Anora, Sean Baker
Restantes nomeados:
O Brutalista, Brady Corbet, Mona Fastvold
A Verdadeira Dor, Jesse Eisenberg
A Substância, Coralie Fargeat
September 5, Tim Fehlbaum, MoritzBinder, Alex David

Melhor Guarda-Roupa

Vencedor: Wicked, Paul Tazewell
Restantes nomeados:
A Complete Unknown, Arianne Phillips
Conclave, Lisy Christl
Gladiador II, Janty Yates e David Crossman
Nosferatu, Linda Muir

Melhor Curta-Metragem de Animação

Vencedor: In the Shadow of the Cypress
Restantes nomeados:
Beautiful Men
Magic Candies
Wander to Wonder
Yuck

Melhor Filme de Animação

Vencedor: Flow
Restantes nomeados:
Divertida-Mente 2
Memoir of a Snail
Wallace & Gromit: A Vingança das Aves
Robô Selvagem

Melhor Ator Secundário

Vencedor: Kieran Culkin, A Verdadeira Dor
Restantes nomeados:
Yura Borisov, Anora
Edward Norton, A Complete Unknown
Guy Pearce, O Brutalista
Jeremy Strong, The Apprentice — A História de Trump