Estar Além, a antologia de ensaios que António Fernando Casais dedicou à persona queer de António Variações, tem desde logo duas nada negligenciáveis virtudes estruturais. A primeira de todas, e mais evidente, é procurar trazer alguma luz a uma das personagens mais enigmáticas e a um dos maiores artistas do Portugal do século XX, artista esse tantas vezes ignorado pelos estudos críticos ou sujeito a injustas caricaturas que nada nos revelam sobre o seu rosto. Além de duas ou três teses de doutoramento, uma biografia sofrível, um livro infantil e uns quantos artigos críticos (todos disponíveis na bibliografia de Estar Além e, de uma forma ou de outra, analisados ao longo destes ensaios), a popularidade de Variações foi sempre acompanhada de um injusto desinteresse académico.

A segunda virtude estrutural do livro de António Fernando Cascais é a de nunca se comprazer na incursão biográfica, antes usando a biografia como ponto de apoio para a compreensão da obra do artista em causa, um modelo literário que infelizmente rareia por cá. Se se fala da vida de António Joaquim Ribeiro é apenas para se compreender a obra de Variações. E ainda bem.

Para lá das virtudes estruturais, Estar Além merece o nosso interesse pela argúcia crítica de Cascais, que não só mostra a importância da persona queer para a compreensão da obra de Variações, como também sublinha a importância de uma ideia de exílio na sua música, exílio esse comum a muitos portugueses nos anos setenta e oitenta e que se atualiza de três formas diferentes na vida de Variações (exílio da província para a cidade, destacamento para a Guerra Colonial e emigração), sendo que, como o professor universitário bem explica, se este era um destino comum a muitos portugueses devido à então omnipresente pobreza, tornava-se uma questão ainda mais premente para homossexuais em busca de um anonimato que os abrigasse quer nas grandes cidades quer no estrangeiro, reforçando-se assim uma ideia de não pertença. Evidentemente, é esse o tema de canções como Minha Cara Sem Fronteiras, Sempre Ausente ou Estou Além, mas é também o que parece esconder-se por detrás da célebre autodescrição de Variações como um artista entre Braga e Nova Iorque.

Esta análise a uma faceta de Variações que ninguém hoje desconhece mas que usamos quase exclusivamente para associar o artista a uma vaga noção de excentricidade — sem nunca considerarmos a homossexualidade (e particularmente a homossexualidade de um homem que viveu em Portugal nos anos 70 e 80) operativa na construção da obra musical de Variações — permite ainda a António Fernando Cascais desfazer algumas ideias feitas, como a de que Variações serviria de bandeira de um período de libertação sexual que desembarcara milagrosamente nas praias lusitanas logo após o 25 de Abril, quando, na verdade, a homossexualidade e a abertura de costumes continuaram por muito tempo a ser menosprezadas pelo “espírito militar e revolucionário (…) enquanto expressão de decadência burguesa e ostentação de consumismo capitalista” (p. 22).


Título:
“Estar Além — A Persona Queer de António Variações”

Autor: António Fernando Cascais
Editora: Edições 70
Páginas: 216

Aliás, um dos muitos aspetos interessantes deste livro prende-se precisamente com a forma sagaz como o seu autor mostra como comentários violentamente homofóbicos se camuflavam então sob o manto de apreciações estéticas acerca da sua voz desafinada ou do seu mau gosto em termos de indumentária. Nesse sentido, talvez uma das melhores passagens do estudo aconteça nas páginas em que Cascais se dedica a analisar a atuação de Variações na Grande Noite do Fado de 1982, onde interpreta a sua versão de Povo que Lavas no Rio e é vaiado pelo público. Se é certo que não escasseiam exemplos de artistas cujas ruturas são inicialmente incompreendidas e por isso mesmo vaiadas, Cascais sugere que o aqui acontece é um caso de homofobia, não rebatido pelo aplauso entusiástico do mesmíssimo público ao espectáculo de travestismo de Guida Scarllaty. Porque, como bem explica o ensaísta, Scarlatty permite que o público permaneça “confortavelmente recostado nas certezas dos seus estereótipos de género”, ao passo que Variações explode com esses preconceitos “não com uma performance única (…) mas com a persona que cria” (p.35).

Cascais destrinça ainda com grande astúcia a influência de David Bowie e dos Village People na construção de Variações, mas é na análise que faz das letras do artista nascido em Fiscal que os méritos do seu estudo mais reluzem, particularmente quando sugere de forma convincente que canções como Dar & Receber, Gelado de Verão ou Anjinho da Guarda são construídas a partir de uma muito premente mundividência homossexual, ao ponto de por vezes parecerem esconder uma certa brejeirice, dissemelhante da de Quim Barreiros apenas devido aos méritos literários de Variações, que universalizam o ponto de partida de onde nascem tão extraordinárias composições. Cascais parece ter toda a razão também quando argumenta que …Que Pena Seres Vigarista é uma canção sobre prostituição homossexual ou quando explica que Canção do Engate só retrospetivamente poderia ser tida por uma descrição de engate heterossexual. Mas sobretudo tem razão quando demonstra que na sua versão de Povo que Lavas no Rio Variações parece destapar o poema de Pedro Homem de Melo, retirando-lhe o manto heterossexualizante que a voz de Amália sobre ele impusera.

No entanto, à luz do aparelho teórico que Cascais monta, faria bem mais sentido, parece-me, ver em O Corpo É Que Paga um lamento pelas autocensuras que abundam na mente de um homossexual deste tempo e não como uma evocação das consequências da irresponsabilidade e da imprudência que mais tarde redundariam na epidemia da SIDA, como Cascais sugere. Só assim se compreendem os versos “Quando a cabeça não se liberta/Das frustrações, inibições” ou “Quando a cabeça não tem juízo/ E te consomes mais do que é preciso”, o que faria desta canção um díptico e não um contraponto hesitante em relação a É p´rá Amanhã, que escutamos no mesmo álbum.

Contudo, no meio destas virtudes, há dois problemas no livro. O primeiro prende-se com o tom do mesmo, uma vez que se o livro é comercializado como um objeto pop e de massas pelas Edições 70, António Fernando Cascais escreve exclusivamente para um público já iniciado, com um excesso de academismo e sem fazer cedências, não explicando muitas alusões que passam ao lado de quem não conheça a fundo os estudos queer, como se torna por demais evidente, para dar apenas um exemplo entre vários possíveis, na alusão de passagem que Cascais faz ao “escândalo causado pela estreia de Francis Graça no Portugal de 1925” (p. 178), como se isso fosse uma referência por todos conhecida.

O segundo problema fundamental do livro reside no quarto ensaio, onde durante mais de sessenta páginas António Fernando Cascais usa o caso concreto de Variações para construir uma espécie de revisão bibilográfica do conceito de camp cunhado por Susan Sontag num ensaio de 1964, ferindo assim a coesão da estrutura do livro, uma vez que Variações é aí absolutamente acessório, não sendo dado ao longo do texto que ocupa um terço do livro um só passo que nos ajude a compreender este extraordinário artista, que aí permanece sempre ausente.