— “Tenho de ver o documentário da Anitta, para o Observador.
— Qual Anita, a dos livros?
— Não, a outra!
(compasso de silêncio)
— A da canção do Marco Paulo?”
O meu marido tem 41 anos e uma ótima cultura geral. Por isso, este diálogo é paradigmático do fenómeno de Anitta: para uns, uma das artistas mais importantes e influentes do mundo; para outros, apenas uma vaga ideia de uma cantora brasileira da qual não sabem trautear um refrão. O conceito de celebridade mudou muito nas últimas (poucas) décadas. Numa era de escolha infinita, é possível ser idolatrado por milhões e ignorado por quase outros tantos. Mesmo assim, se há pessoa no mundo que tem como plano ser uma celebridade mítica e incontornável, essa pessoa é a brasileira Anitta.
Lançado há poucos dias na Netflix, Larissa: O Outro Lado de Anitta conta a transformação da pequena Larissa na estrela internacional de Envolver. Para isso, a ex-menina feia (como a própria diz) de uma favela do Rio de Janeiro convidou um amigo de adolescência, com o qual entretanto tinha perdido contacto, para realizar — permitindo assim que, alguém que a conhece como Larissa, conseguisse aceder à sua versão mais pura. A própria cantora assume-se como uma espécie de dupla personalidade, “o criador e a criatura”, como a longa explica a determinado momento. De um lado, a cantora brasileira mais famosa de sempre, uma mulher com uma garra, uma determinação e uma atenção ao detalhe surpreendentes. Do outro, um patinho feio com dúvidas e síndrome de impostor, que ainda se lembra de ser gozada na escola e que parece não ter saído completamente desse trauma.
[o trailer de “Larissa: O Outro Lado de Anitta”:]
A bem da honestidade com o prezado leitor, tenho de admitir que a minha vontade de despender uma hora e 40 minutos com Larissa: O Outro Lado de Anitta era quase nula e só o fiz a bem dessa atividade radical que é o preenchimento de recibos verdes. Por isso, resta-me dobrar a língua: é um ótimo documentário, em muitos aspetos completamente diferente de outros docs sobre celebridades que já vi (e vi muitos). Para isso, contam alguns detalhes, como uma ótima realização, fotografia ou edição. Também o rico catálogo de vídeos caseiros da infância da artista. Mas importa, sobretudo, uma noção muito acima da média do que é contar uma história. Que os outros músicos com vontade de cantar os seus louros aprendam a lição: contratem um bom guionista. E Anitta contratou uma das melhores.
O guião (ou roteiro, como se diz no Brasil) de Larissa: O Outro Lado de Anitta é de Maria Ribeiro, afamada atriz, escritora e realizadora de cinema brasileira. É também uma notável cronista, como prova por exemplo o livro Trinta e Oito e Meio, que reúne reflexões e desabafos em textos autobiográficos e que por cá foi cá publicado pela Tinta da China. Na voz do narrador, o realizador Pedro Cantelmo (o tal amigo de adolescência) estão as palavras certas, nas alturas certas. Há uma noção boa de metáfora, mesmo quando estas são relativamente óbvias, como a Larissa de um ano a dançar sozinha na sua festa de aniversário ou a Anitta de 30 e tal a tentar escalar literalmente o Evereste. E há, acima de tudo, uma ideia sólida e diferenciadora para querermos ver o documentário na totalidade: uma inusitada história de amor entre a celebridade e o realizador.
▲ Se há coisa que se aprende nesta hora e tal é que a brasileira é uma mulher muito inteligente, muito focada, muito cerebral. Repara em tudo, produz tudo, controla tudo
Pedro Cantelmo veio do mesmo bairro que Anitta e refere-se a ela como “a primeira menina de quem eu gostei”. Já a cantora, lembra-se do beijo que deram na adolescência e de como achou que nunca mais voltaria a beijar um homem tão bonito. A relação entre ambos é de cumplicidade e o resultado para o espectador é de quase voyeurismo (há até uma cena num duche, talvez escusada). E é, digamos, diferente do que são os outros documentários de estrelas. Já todos vimos a superação, a solidão da fama, o ter de se reinventar, o andar em limousines, mas só querer ir a pé à rua beber uma cerveja em paz. Mas aqui, esses clichés estão todos mostrados de um modo original.
Se a história de amor aqui presente é falsa ou real? Não faço ideia. Mas como sou cínica por defeito, apostaria na falsidade. É que mesmo na versão “desarrumada”, não há nenhum plano em que Anitta não esteja giríssima e impecavelmente maquilhada. Além disso, se há coisa que se aprende nesta hora e tal é que a brasileira é uma mulher muito inteligente, muito focada, muito cerebral. Repara em tudo, produz tudo, controla tudo — e não me admiraria que aqui tivesse esculpido com perícia um set up que lhe convinha para garantir ser top da Netflix. Mas e se for tanga, há problema? Talvez não. O que importa é o carisma, como estamos avisados pela própria desde o início.
[Já estreou “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]