Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Os assinantes standard e premium do Observador têm acesso antecipado a todos os episódios desta série, já disponíveis em observador.pt.
Só há uma regra: não ser reconhecido. Para todos os efeitos, ele é apenas mais um elemento da tripulação. Veste uma farda emprestada que pertence à Companhia Aérea de Angola. Estamos em julho de 1970, no Congo Belga. O país está em convulsão depois da independência. A guerra entre as diferentes fações militares obriga a população de origem europeia a fugir. Entre eles, estão 6 mil portugueses. Vale tudo para os resgatar. O tripulante dá-se como voluntário para aquela missão arriscada, logo que sabe do plano do governo de Salazar para evacuar os portugueses, mas não tem autorização para entrar no país. Por isso, vai disfarçado. Assim que aterram no aeroporto, depara-se com um cenário perigoso na cidade. Ouvem-se trocas de tiros constantes entre grupos armados que lutam pelo controle de posições estratégicas. O tráfego aéreo fica bloqueado, mas ele mantém o sangue frio. Sobe à torre de controle, põe aviões em movimento e estabelece ligações rádio com Luanda, para onde os portugueses devem ser levados sem demora. Depois, participa em viagens clandestinas a vários pontos do país. Aterram ao nascer do sol, metem os portugueses dentro do avião e tiram-nos dali. Está há 12 dias a ajudar na ponte aérea, quando lhe pedem para ir numa nova missão arriscada. Há 60 pessoas que precisam de ser resgatadas numa cidade remota no sul, a cerca de 1300 km da capital. Mas assim que aterram, reparam imediatamente nos jipes carregados de homens armados que aceleram em direção ao avião. Ele é o único que sai para os enfrentar. Pedem-lhe os documentos. Entrega apenas uma carta de piloto. Esconde o passaporte diplomático para não denunciar a identidade e não comprometer o governo português. Tinha combinado um sinal com o comandante do avião. Se de repente cruzar os braços atrás das costas, quer dizer que estão em perigo. O comandante deve levantar voo imediatamente e fugir dali. Mas já não há tempo para isso. Quando tenta mover os braços, sente a arma encostada ao corpo. Os soldados arrancam com os jipes e cercam o pequeno avião. Fugir é impossível. A tripulação é presa e levada para uma sala de despacho de malas do aeroporto. Os homens armados fazem um julgamento improvisado mesmo ali. Os invasores são acusados de violar a soberania do país. Muitos sugerem o veredito implacável. O fuzilamento. O homem disfarçado de tripulante vê-se à beira da morte, sem ter como escapar. Até que alguém repara num pormenor. Uma fotografia que ele traz na carteira. Jorge Pereira Jardim. É o nome escrito no passaporte diplomático que o tripulante quis esconder. O Engenheiro Jardim, como quase todos o tratavam, era um político português, deputado à Assembleia Nacional por Moçambique. Era um empresário respeitado e um pai de família que teve 13 filhos. Só que, afinal, ele era muito mais do que parecia. O Engenheiro Jardim era especialista em executar missões clandestinas em países hostis. Nunca deixava que o apanhassem desprevenido sem uma arma, uma granada ou uma cápsula de cianeto. Liderava uma rede de agentes informadores e garantia que havia sempre muito dinheiro para comprar influências ou pagar golpes de Estado. O que estava à vista de todos escondia, na verdade, um outro mundo, secreto, paralelo e perigoso. Este é "O Misterioso Engenheiro Jardim", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, com banda sonora original dos HMB. Episódio um: Uma foto vai salvar-lhe a vida.
Na Kia, acreditamos que o movimento inspira ideias e é a partir das histórias do passado que estamos a escrever a história do futuro. Descubra o novo Kia EV3, um SUV compacto elétrico com mais de 600 km de autonomia. Kia, movement that inspires.
Jorge Jardim sente que tem os minutos contados. Está sentado numa sala de um pequeno aeroporto no sul do Congo, à espera do momento em que o decidam fuzilar, a ele e a toda a tripulação do avião que vinha para resgatar portugueses. Até que repara num homem. Mete conversa. É um político, um deputado congolês. Convence-o a deixá-lo ir até ao avião. Quer ao menos poder usar o rádio e enviar uma mensagem a avisar os outros portugueses do final trágico que a tripulação está prestes a ter. O deputado aceita, mas já dentro do avião, volta a pedir os documentos ao português. E é aí que repara numa fotografia que traz na carteira. Na imagem, Jardim aparece com uma mulher e 10 crianças. O deputado pergunta o que é aquilo. Jorge Jardim explica que é a mulher e os filhos. "Mas você tem 10 filhos?" "Sim", responde Jardim. Naquela altura, ele e a mulher já tinham tido nove crianças. A décima é uma órfã chinesa que tinham adotado. "Com nove filhos e ainda adotou uma órfã chinesa? Você não pode ser má pessoa", diz o deputado. A foto começa a circular pelas mãos dos soldados. Depois de uma conversa mais longa, acabam por voltar atrás e decidem deixar Jardim sair em liberdade. E o resto da tripulação também. A história é relatada pelo próprio Jorge Jardim, numa das centenas de cartas que trocou com o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, ao longo de anos. Mas com o engenheiro Jardim, nem sempre é fácil distinguir a realidade do mito, o que são os factos e o que é romanceado para criar uma aura à volta do protagonista. A versão da história, que é recordada por uma das filhas, Carmo Jardim, é diferente. E envolve um padre.
No dia seguinte ia ser fuzilado, era assim que estava destinado, e que lhe disseram que ia ser. Então ele pediu para falar com o padre. Queria se confessar. Meu pai era muito católico. E o padre perguntou-lhe: "O que era aquela gente toda? Aquela fotografia?" E o meu pai explicou: "Olhe, são os meus filhos todos, estão em Moçambique. É a minha mulher e são os meus filhos." E o padre olhou para ele e disse: "Então, mas não é melhor o senhor ficar em Moçambique? Do que andar aqui a fazer estas coisas e tomar conta dos seus 10 filhos." E depois ficou mais um pouco em silêncio e disse: "Não, você não pode, de maneira nenhuma, morrer e deixar 10 filhos e uma mulher para procriar. Portanto, você vai se salvar." E foi ele que salvou, foi ele que arranjou uma forma de meu pai fugir da cadeia, ir lá apanhar outra vez o avião e passado um mês ou dois, estava outra vez a fazer a mesma coisa. E isto era o meu pai.
Durante muitos anos, pelo menos enquanto os filhos eram mais novos, o pai era uma incógnita. Apenas sabiam que passava muito tempo fora de casa, mas não sabiam praticamente nada sobre o que ele andava a fazer.
Nada, zero, nem um pouco mais ou menos. Nós não percebíamos o que meu pai trabalhava. Sabíamos que o meu pai era o administrador da Lusalite e não nos interessava nada. Também não sabíamos o que os outros pais faziam. Só sabíamos que os outros pais estavam em casa sempre e o nosso pai não estava.
Isabel Maria Jardim, conhecida na família como Patuxa, é a mais velha dos irmãos. Depois do episódio da fotografia que lhe salvou a vida no Congo, Jorge Jardim e a mulher ainda tiveram mais três crianças. No total, o clã Jardim tinha 13 filhos, 10 raparigas e três rapazes. Elas viriam a causar sensação em Moçambique por quebrarem as convenções. Quase todas fizeram saltos de paraquedas. Uma foi considerada a mulher mais audaciosa do mundo. Chegou a acompanhar o pai em missões clandestinas. Anos mais tarde, já em Portugal, seriam alvo da atenção das revistas do social. Entre as irmãs estão Sinhá, Mituxa ou Snika Jardim. Apesar de ser um pai ausente, os filhos aprenderam desde muito cedo a venerá-lo.
Além de ser o nosso pai, era o nosso herói, era tudo. Para nós era um ser extraterrestre, quase, que nós venerávamos, que não se podia fazer barulho lá em casa porque o pai estava a dormir, porque o meu pai sempre gostou muito de trabalhar de noite
E, portanto, de manhã andávamos pé ante pé. Quando passávamos ao pé da porta do quarto deles, que era para não incomodar.
Outra das filhas, Carmo Jardim, só soube perto dos 20 anos o que o pai andava realmente a fazer quando se ausentava por longos períodos.
Era uma pessoa que eu engolia o que ele dizia. Não sabia nunca quando é que não o ia ter, porque ele andava sempre nestas missões tão perigosas e nestas missões tão difíceis, que eu nunca sabia se seria o último dia.
Oficialmente, no início dos anos 50, o engenheiro Jardim era administrador de uma empresa em Moçambique, mas por trás da capa de homem de negócios, escondia vários segredos. Todos concordam num ponto: desde muito novo, Jardim não conseguia estar parado um segundo. A cabeça dele trabalhava a uma velocidade estonteante. Gostava de viver depressa e de forma perigosa. Os amigos atribuíam a personalidade excêntrica ao facto de quase ter morrido com uma meningite com apenas quatro anos. A doença deixou-lhe mazelas. Era um homem baixo e franzino. Tanto que não passou na inspeção quando era jovem. Foi reprovado no exército. Conta-se que foi o maior desgosto da vida dele, que naquele dia chegou a casa a chorar. Dizia que não servia para nada, que assim não era homem. E muito do que viria a fazer mais tarde, seria para lhes provar que eles estavam errados. Tira o curso de Agronomia. Destaca-se nos escuteiros, onde conhece a mulher, Teresa. Faz parte de uma geração de jovens que ganham consciência política depois do caos da Primeira República e que se identificam com a ordem trazida pelo autoritarismo de Salazar. Como engenheiro, aos 24 anos, já anda nos circuitos do governo, em funções técnicas. E a ascensão é muito rápida. A poucos dias de fazer 29 anos, toma posse como Subsecretário de Estado do Comércio e Indústria. Torna-se o mais jovem governante do Estado Novo. Mas o cinzentismo dos gabinetes governamentais do Terreiro do Paço contrasta com o desejo de ação e adrenalina de Jardim. Carmo recorda que as reuniões eram muitas vezes interrompidas quando havia um incêndio.
O pai estava numa reunião bastante envolvente, mas se ouvisse um carro dos bombeiros passar ali onde era o Ministério da Indústria e do Comércio, ele largava tudo, tinha sempre no armário o fato de bombeiro, o capacete, as botas, arranjava-se todo e partia atrás do carro dos bombeiros e ia ajudar a apagar os fogos.
Além de ser bombeiro voluntário, Jorge Jardim fica quatro anos no governo, mas um conflito com o novo ministro da Economia, Ulisses Cortez, leva-o a abandonar o cargo em 1952. Garante que Salazar lhe propôs várias outras posições, cargos públicos ou empresas privadas, mas recusa todas as ofertas. Decide aceitar um convite radicalmente diferente. Quer começar do zero. Aos 33 anos, já com quatro filhos e a mulher grávida de Carmo, Jardim decide que é tempo de viver uma aventura. Vai para África. Jardim é convidado para administrador da filial da Lusalite, uma fábrica de fibrocimentos na Beira, em Moçambique. Chega sozinho no início de agosto de 1952. A família só irá seis meses mais tarde. Vai numa altura de enorme desenvolvimento nas colônias, explica o historiador Pedro Aires Oliveira.
Ele realmente vai para Moçambique em 52, exatamente numa conjuntura em que a economia dos territórios ultramarinos portugueses começa a ganhar um certo impulso, um certo dinamismo. E havia, portanto, recursos significativos para o desenvolvimento infraestrutural de Moçambique e de Angola. Estradas, pontes, vias férreas, aeródromos. Nessa altura, no fundo, o regime colonial português sentia a necessidade de procurar novas fontes de legitimação internacional. E o desenvolvimentismo colonial, a melhoria das condições materiais de vida no ultramar para a população colona e também, nalguma medida, para os africanos, era um dado importante para também mostrar em certos fóruns internacionais.
É pouco tempo depois de chegar a Moçambique que Jardim começa a partir em missões secretas, a ser uma espécie de agente não oficial do governo Tinha um trunfo para isso: uma linha direta com o poder. 3 de agosto de 1952, um dia depois de Jorge Jardim chegar à África. Está sentado a escrever uma carta. É a primeira que vai enviar para Lisboa e o destinatário é Salazar. A correspondência com o ditador ao longo dos anos revela uma relação de intimidade. As cartas estão repletas de detalhes, são relatos pormenorizados da situação em Moçambique e em África. E aos poucos, Jardim vai se tornando cada vez mais importante para Salazar.
Jorge Jardim era um homem extremamente desembaraçado, gostava de viajar, de conhecer pessoas, de fazer contatos. E ele torna-se realmente os olhos e os ouvidos de Salazar, não só em Moçambique, mas noutras partes de África que ele também procurou visitar e conhecer.
Mas não se trata apenas de um simples informador. Em breve, Jardim vai começar a ser o recurso secreto de Salazar, em especial para os casos mais difíceis. A filha mais velha garante que o ditador nunca pedia ou exigia nada, apenas sugeria. O resto era o voluntarismo e o impulso do pai.
Sempre com aquela teoria, o doutor Salazar falou-me: nunca pediu. Era uma coisa que era muito frisada. Ele não me pediu para fazer nada. Perguntava sempre se eu conhecia alguém ou se eu indicava alguém para poder ir fazer isto ou aquilo. E ele oferecia-se. Lembro-me da minha mãe dizer isso. O pai oferece-se para tudo e esquece que tem tantos filhos e eu fico aqui sozinha com vocês.
Dois anos depois de chegar a Moçambique, o engenheiro Jardim vai começar a provar o que vale, e num território muito distante de África. Índia, 1954. O homem está vestido com uma jaqueta tradicional indiana. Na cabeça, tem um chapéu ao estilo de Gandhi e na mão direita leva um pingalinho. Usa óculos escuros e é moreno. À primeira vista, poderia passar por mais um indiano rico. As roupas são de bom corte e mandadas fazer num dos mais finos alfaiates da baixa de Nova Délhi, o mesmo que fazia as roupas do primeiro-ministro indiano, Nehru. Mas, na verdade, quem se esconde por trás daquele disfarce é Jorge Jardim. Em julho, a união indiana tinha invadido os enclaves de Dadra e Nagar Haveli, que estavam sob administração portuguesa. Seria apenas o início de um processo de descolonização forçada. Como acontecia quase sempre, Jardim ofereceu-se para ir ao terreno, recorda o historiador Pedro Aires Oliveira.
E o Jorge Jardim vai em missão de levantamento de informações para documentar o governo português acerca de preparativos militares que pudessem atingir o Estado português na Índia.
Durante 12 dias, percorre parte da Índia num táxi. Numa carta escrita a Salazar, gaba-se de ser o único português ou talvez mesmo o único europeu a conseguir atravessar livremente os territórios indianos. Chega até a infiltrar-se nos grupos que defendem a integração dos territórios portugueses na união indiana. E acima de tudo, aproveita para montar uma rede de informações que terá como base a Lusalite de Goa, com o objetivo de manter o governo de Lisboa informado de tudo o que está a acontecer. Mas a viagem terá ainda um pormenor importante. Traz um amuleto que passará a acompanhá-lo sempre, em todas as missões. Tal como Indiana Jones nunca se separava do famoso chapéu, a partir daquele momento, Jardim nunca mais larga o bivaque indiano, lembra a filha Carmo.
Sim, que ele vestia-se como o Nehru. E andava sempre com isso. Sempre. Em todas as missões que ele fizesse para norte, para sul do país, para sul não, mas para norte ou para países vizinhos, etc. Aliás, se por acaso se esquecia, voltava atrás com o avião para ir buscar. Tal era a importância daquele objeto que ele tinha trazido da Índia.
Oito anos depois, quando a situação se agrava e a união indiana invade finalmente os territórios de Goa, Damão e Diu Salazar e Adriano Moreira, o ministro do Ultramar, lembram-se imediatamente de um nome.
E aí é o Adriano Moreira que diz: "É a única pessoa que consegue lá entrar sem causar barafunda nenhuma e que tenha aceitação do outro lado." Lá vai ele.
Orlando Temes de Oliveira é genro de Jorge Jardim. Ouviu muitas histórias das aventuras do sogro contadas pelo próprio. Entre elas, as missões na Índia. Hoje em dia é o guardião das agendas onde Jardim apontava todos os passos que dava. Na altura, a filha Carmo tinha apenas 10 anos e lembra-se da família fazer o que sempre fazia quando o pai saía em viagem.
Recordo-me perfeitamente. Nós tínhamos um oratório, minha avó tinha um oratório no meio lá da casa, num corredor, e que todas as noites rezávamos o terço pelo meu pai que estava na Índia. Aquilo fazia-nos uma imensa impressão: "O que ele está fazendo na Índia, tão longe?"
Jardim tinha sido encarregado de uma missão: negociar as condições para libertar cerca de 4 mil soldados portugueses que tinham ficado retidos em Goa depois da invasão dos indianos, explica o historiador Pedro Aires Oliveira, especialista no período da descolonização.
Há um elevado número de militares portugueses que são feitos prisioneiros pela união indiana, estão em campos de prisioneiros de guerra, e o governo português, como tardava em reconhecer a consumação desse facto político, ainda estava a tentar desenvolver diligências internacionais para reverter a situação. Isto levou ao arrastamento da situação dos prisioneiros de guerra portugueses e o Jorge Jardim é alguém que vai ter um papel de intermediação neste episódio.
Mas não era assim tão fácil entrar novamente na Índia e ter liberdade de movimentos. Por isso, Jardim monta um esquema ardiloso. Primeiro passo: arranjar a colaboração de alguém influente, a bem ou a mal. A vítima: Kalyanji Kakubhai, um indiano milionário a viver em Moçambique. O método: Jardim assalta-lhe a casa e rouba documentos que provam que Kakubhai é favorável à invasão de Goa. Depois vai ter com ele, conta-lhe o que fez e diz-lhe que ele até devia agradecer-lhe pelo assalto, porque a PIDE, a Polícia Política, estava quase a fazer o mesmo, e iria certamente prendê-lo quando encontrasse os documentos. É tudo mentira, mas não importa, porque o indiano já está amedrontado. E mais fica quando Jardim lhe diz que a mulher e o filho, que vivem em Lisboa, estão sob sequestro. Basta um telefonema para o confirmar. E de facto, quando o indiano liga para Portugal, a mulher diz-lhe que está um capanga à porta de casa. Faz tudo parte do plano. "Não há razões para as coisas não acabarem bem", tranquiliza Jardim. Mas para isso, o indiano tem de arranjar três coisas: um salvo-conduto na Índia, contactos de alto nível em Nova Deli e acesso a toda a fortuna que ele tem em Moçambique. Kakubhai fica sem alternativa e acaba mesmo por ceder. Jardim viaja para a Índia, sempre com o inseparável chapéu. Quando chega, percebe que Nehru até quer ver-se livre da situação incômoda dos soldados portugueses retidos em Goa, mas quer também garantias para os indianos que vivem em território português, em especial em Moçambique, e que Salazar quer expulsar como retaliação pela invasão. Hão de chegar finalmente a acordo, com os portugueses a serem transportados para o Paquistão e daí levados em navios nacionais para Lisboa. O ministro Adriano Moreira viria mais tarde a admitir que a ação de Jardim foi decisiva para a resolução do conflito com a Índia. O engenheiro foi mesmo a última pessoa a deixar o território depois do governador Vassalo e Silva. E, ainda que de forma discreta, acabou condecorado com a Ordem do Império. Mas Jorge Jardim estava ainda mandatado para uma outra missão especial. O pedido tinha sido feito por Adriano Moreira ainda em Lisboa. Já à porta do gabinete, depois de aceitar a missão e antes de se despedir, Jardim perguntou-lhe se queria alguma coisa de Goa. Em jeito de desafio, o ministro respondeu que sim. Queria que ele lhe trouxesse o quadro de Afonso de Albuquerque, o vice-rei da Índia que conquistou Goa para os portugueses e que estava no Palácio do Hidalcão, em Panjim. O genro, Orlando Temes de Oliveira, recorda como Jardim levou aquilo a sério.
Raparam um dos quadros, embrulharam aquilo, mandaram para Lisboa.
Semanas depois, um caixote chega ao gabinete do ministro Quando abre, Adrienne Moreira tem uma surpresa, conta Patucha Jardim.
O Adrienne mandou-lhe um telegrama a dizer: "Também tem barbas, mas não se chama Afonso de Albuquerque."
Tinha trazido o retrato errado. Pertencia a outro vice-rei, Dom João de Castro. Jardim não perde tempo. Volta à Índia e, à segunda vez, recupera o quadro certo.
Lembro-me muito bem da minha mãe chamar-me e dizer assim: "Tu sabes onde é que está o pai? Não."
Quando os filhos souberam do que estava a acontecer, Jorge Jardim já estava muito longe de casa. Era sempre assim. Nunca avisava que ia sair, nunca revelava para onde iria a seguir. Normalmente, só descobriam quando a mãe e a avó os convocavam para rezar pelo pai, que tinha ido em mais uma missão. Patucha recorda-se do dia em que, já com 14 anos, a mãe lhe revelou que o pai iria tentar sabotar a operação de um grupo armado que estava a ser notícia em todo o mundo.
Um susto de morte. Era sempre o nosso pânico. "E agora, se o matam? E agora?"
Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Ele copiava, é um facto, do princípio ao fim, o James Bond.
Aquilo foi para compensar a sua frustração de não ter sido militar.
"É muito perigoso, não podem mexer em nada. O senhor engenheiro tem uma caneta que deita balas."
"O Misterioso Engenheiro Jardim" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, e tem banda sonora original dos HMB. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio na Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
