Filipe Homem Fonseca é um fulgor de imaginação, um escriba inquieto, sempre próximo da experiência e da transgressão entre disciplinas. Licenciou-se em Publicidade, mas tem-se destacado, profissionalmente, em diversos domínios, entre eles o guionismo, ora dramático, ora humorístico. Fundamental também nomear a literatura como modalidade artística que tem praticado, em diferentes modos, de há vários anos para cá. Vai-se, por vocação, por — cá está — inquietação, diversificando em géneros como o romance (com, por exemplo, Se Não Podes Juntar-te a Eles, Vence-os e A Imortal da Graça), a poesia (Conta Gotas e A Norte do Calendário) e a novela, em parceria com Miguel Martins, a fazer lembrar, pela vocação para a irmandade delirante, a parceria Alface-Manuel da Silva Ramos (com Ferro em Brasa).

Com uma diferença de poucos meses, entre os finais de 2024 e os inícios de 2025, publicou dois livros. Um deles poderá ser classificado como sendo uma ficção breve. O outro é de poesia. Tratemos do primeiro, Vénus Anatómica (abysmo), que, segundo o autor, é, antes de mais qualquer considerando, um gesto de liberdade, cuja faísca partiu depois de um amigo lhe contar que enterrou o seu cão, morto depois de uma década de vida em comum, com vasta cumplicidade. “A partir daí, o livro tinha de acontecer, o fogo começou a lavrar.”

Há, no livro, um cruzamento de linguagens — de literárias a cinematográficas, passando pela BD. É esse lugar impuro de experiência literária que lhe interessa. “Tenho pouco ou nenhum interesse em qualquer tipo de literatura que não seja – para usar essa terminologia – impura.” Há, neste feito de base ficcional, como que um género novo, feito de estrutura e de linguagem. São invenções que chegam pela reinvenção dos códigos da literatura. Que pedem desarrumação, pedem para ser provocados de forma a poderem renascer de outra forma.

▲ A capa de "Vénus Atómica", de Filipe Homem Fonseca (abysmo)

O livro começa com uma advertência: “Esta história está dividida em cinco partes que podem ser lidas pela ordem que os leitores quiserem. E as vezes que os leitores quiserem. Ninguém manda nos leitores”. Ninguém manda nos leitores. Como ninguém manda neste escritor. Felizmente. Porque não há, num gesto literário, como é este de Vénus Anatómica, qualquer compromisso com o desejo normativo de um “mercado” qualquer.

E o que encontramos em Vénus Anatómica? Os grandes temas da literatura – o amor por pessoas, por cães e pela Natureza, a perda, a morte, o sexo, a desesperança, a raiva, a teima, o medo, a superação, o medo outra vez – tratados numa linguagem única, que se for chamada de “poética” parecerá frouxa ou com fraca capacidade de surpreender. O melhor é não encontrarmos um nome para ela e, como pista, ficarmos a saber que esta linguagem não é nem concreta nem lírica, tem um dicionário seu em que se ensopa e fervilha.

É o cruzamento entre os grandes temas e a experiência jazzística literária que lhe interessa? “Não ando à procura de grandes temas, eles intrometem-se sem que seja necessário buscá-los. Quanto à ‘experiência jazzística literária’ – na minha perspetiva, não há outra maneira da ficção se aproximar tanto da vida como através do jazz, como também não há outra maneira (pelo menos formalmente) da ficção se afastar tanto da vida como através do jazz. Esse espaço simultaneamente próximo e distante é onde me interessa operar.”

Também encontramos um conjunto de ocorrências que existem pela linguagem – e que, por isso, seriam intraduzíveis para uma linguagem que não a da literatura. Impossível fazer disto um filme. Esta realidade – só a literária terra, e este livro tem muita terra, a suporta.

Neste livro cabem excertos de poemas e letras em francês, Serge Gainsbourg, a canção do Noddy, primeiras, segundas peles, pais, mães, filhas, bonecas, busca do sentido da vida, remorsos, vidas que se cruzam, ângulos diferentes sobre o mesmo acontecimento. Tudo num ambiente onírico, entre o céu e o inferno,  com canetas e armas.

Bons títulos de capítulos: “A luz fria dos derradeiros instantes”, “O silêncio das balas perdidas” e “A visão próxima do medo distante”. Outros, também bem sacados, de travo literário-económico, como “Liturgia dos empréstimos bancários”, “Criação de mais-valia”, “Longevidade das linhas de crédito” e “Flutuação das taxas de juro”.

▲ "Última Refeição Antes de Mim", publicado pela Companhia das Ilhas

O segundo livro em cima da mesa é Última refeição antes de mim, edição da Companhia das Ilhas. Se o regresso à poesia tem um significado excecional para o autor? “Publica-se muita porcaria em Portugal e no mundo, pelo que ter obra publicada deixou de ser um privilégio, deixou de ser sinónimo de talento, muito menos de ter alguma coisa para dizer. No entanto, creio no crivo das editoras que me têm publicado; creio no crivo das pessoas a quem mostro o que proponho para publicação (ou aquilo que escrevo respondendo a convites) – o que é abaixo do par, vai para o lixo”.  Isto para dizer que sim, claro que sim – os seus livros de poemas têm muita importância. Neles está cristalizado o tempo da sua escrita, a música das suas palavras, “as respostas a perguntas que não me ouvi fazer”.

Última refeição antes de mim é mais um livro de uma escrita de confronto consigo numa linguagem que, em momentos vários, parece chegar dos mistérios do inconsciente. Um “abrir de torneira” que, mesmo quando se aproxima da quietude ou da beleza, revela uma funda inquietação com o mundo (“Uso labaredas como garrote para a injecção de dias, verdades e dúvidas”/  “Uma queda sem outro ruído/ para além do riso sanguíneo/ quando só aquilo que te mata/ te faz sentir vivo”/ “Trepa o muro; permite/ ao arama farpado que te desfigure,/ baptiza a carne viva,/ (dá também nome às cicatrizes futuras)”. Persiste o sentimento de que os significados desta escrita, na qual sobrevive sempre uma sombra, um lado negro, desvelam-se num idioma que oscila entre o intrigante e o revelatório.

O ambiente é, umas vezes, urbano e evoca robalos grelhados servidos em esplanadas, vizinhos de cima, taxímetros; outras, deixa-se pairar sobre um “mar de acácias” e levar pelo “cheiro da urze” e  pelo vislumbre de “astromélias, eufórbias, lisiantos”.

Há algo que une estes livros? “Espero que não – embora também não possa dizer que tenha feito qualquer tipo de esforço nesse sentido”. A uni-los, há o singelo facto de terem sido escritos pela mesma pessoa. Mas, refere, quer pelo tempo que os separa, quer pelas circunstâncias, não se pode dizer que fosse a mesma pessoa durante a escrita de ambos. “Até porque”, conclui, “as histórias e os poemas (às vezes poemas são histórias e histórias são poemas) tomam conta do escritor: histórias diferentes, escritor diferente; vozes semelhantes?, quem sabe?: o condutor (ou passageiro?) traz as suas experiências (bagagem), mesmo que ‘só’ a nível subconsciente”.