A sermos fieis ao tom e ao sentido do texto, importa dizer, antes de tudo, que ler As Coisas, de Georges Perec, é ver sobrepostos o começo e o fim. A casa longamente descrita no início do livro inscreve uma abertura — inequivocamente, a do romance que lemos —, do mesmo modo que detém a força delirante e materialista do olhar pousado sobre um lugar que se abandona. Trata-se de um início cinematográfico, na exaustão melancólica de uma série de objetos e de um acumulado de disposições que afastam, no limite irredutível de que as mesmas descrições vivem, a possibilidade de um desenho claro.
Assim, o livro começa por propor o seu próprio substituto: impossibilitados de reter nada mais do que o quadro geral de um espaço vago, fragmentário e disperso, somos impelidos a imaginar o que se passará, em alternativa ao estado apresentado, esforço para o qual as personagens deste romance não parecem aptas. A relação estabelecida com o romance é, imediatamente, projetiva. Apresenta-se uma coisa, imaginamos outra. E, subitamente, coisas já temos duas. Uma forma e o seu negativo. O seu espelho enlouquecido. Algo como uma crítica à dispersão é o motivo — e o rebate irónico — com que autor engancha leitor, disjuntando crítica e ficção. Se, por um lado, trata-se do desdobramento inerente ao exercício de imaginar, por outro consiste num formalismo mimético do modo de viver de um casal, cuja vida verdadeira está na imitação de um modelo obsessivamente rondado. Eis a vida de alguns “alguéns” que almejam como história pessoal “a história da felicidade; mas, demasiadas vezes, [é] apenas a de uma felicidade ameaçada.” (61).
O cenário é espacial e historicamente situável: a sociedade francesa dos anos 60. O realismo está na tentativa de testar a nossa atenção sobre as coisas que o romance faz desfilar diante dos nossos olhos, ao sabor da imaginação mais ou menos prolífica, ao mesmo tempo que apresenta um casal, Sylvie e Jérôme, como caso-estudo. Aliás, o registo enxuto da prosa de Perec, no contexto da qual a descrição é mais documental do que afetiva, atesta esse pendor cronístico e a remissão do romance para determinados eventos da história de França, com os subjacentes sistemas económicos e regimes políticos associados, como vetores diferenciadores de uma análise a engendrar posteriormente (não é a leitura sempre póstuma? Blanchot diria que sim, até ao fim, afastando-se do lugar da redundância, reclamando a precisão do rigor como a verdade possivelmente revelada).
Título: “As Coisas”
Autor: Georges Perec
Tradução: Luís Leitão
Editora: Antígona
Págnas: 128
Publicado em 1965, às vésperas do Maio de 68, acontecimento tão localizado quanto inspirador, ainda hoje, de movimentos de libertação pelo mundo inteiro, As Coisas faz certamente o retrato de um país que se esforça por sair de si mesmo. País seduzido por uma ideia de propriedade que não se revela aqui senão como o conjunto de manias e fantasmas que, em cada um, convertem todo o bem numa forma de adiamento do inevitável fracasso. As prestações — ilusão de felicidade como epítome da existência plana destes jovens pequeno-burgueses —são disso exemplo e constituem referente metonímico destas vidas rasas, previsíveis, desafetadas, habitantes de um mundo “sem recordações, sem memória” (117). A sombra é paradoxalmente (sugestão feita mais do que uma vez) o lugar onde a luz e o brilho perduram: “Na penumbra, a divisão conservaria a claridade.” (13).
O que poderia ser encarado como sinal de resistência, o sonho como guindaste resplandecente no âmbito de um modo de vida modesto, é, na verdade, sinal da impermeabilidade dos espaços habitados por estas figuras. São lugares em que a luz reside num acumular delirante, de efeito entrópico, de coisas, cujo valor reside na própria inércia de objeto a possuir. A posse, note-se, que é nada mais nada menos do que o destino ambulante destes objetos, por oposição a uma permanência arquitetónica e afetiva. As coisas perdem a sua finalidade e a sua densidade afetivas quando são adquiridas e deixadas de si para si. Como, de resto, é o destino de Sylvie e Jérôme, cujas conquistas não chegam nunca a sê-lo, não sendo sequer possível reconhecer uma evolução positiva das suas vidas, submersos que estão na tentativa gradual e infinda de superarem um estado atual de coisas em prol de um modelo que não chega a ser claramente apresentado, mas que é tão-simplesmente, em negativo, a rejeição do tempo presente.
Uma possível síntese deste romance está na oposição entre atualidade, em conformidade com a redoma desafetada e narcísica destas figuras, e o presente, o recreio de potenciais implicações, negativas e positivas. O brilho coincide com a opacidade, com o escuro, com a cegueira, na medida em que a luz esbarra contra um reflexo que é uma série de elementos, a citação arbitrária das coisas que fazem a condição resvaladora para a mania e a vontade de sair de si, antes mesmo de haver um si, um eu caracterizáveis. Afetivamente, os espaços habitados por este casal e o seu grupo de amigos — o próprio grupo é bitola para uma permanente necessidade de validação — compõem o itinerário e o plano de uma fuga impossível. O que resta é a descrição destas, não de outras, vidas.
Onde reside, então, o pulso? Do lado de quem vê, de quem testemunha e descreve. A vitalidade é de quem vê para dar a ver vidas que coincidem, à partida, com o seu próprio arquivo. Daí o constrangimento: “eles sufocavam sob o amontoado de pormenores” (91). Os sonhos destas personagens são confusos porque coincidem com um tipo de faro, ao serviço da tarefa impossível de tornar habitável um estatuto que só por semelhança e em série terá valor, não sendo, pois, verdadeiramente habitável, mas apenas sondável. Como manequins despidos (mas não nus, que seria outra coisa), o destino destas figuras é o de serem embutidos no cimento que os próprios ajudaram a secar nos seus corpos.
O poder não é habitável, é auto-destrutivo, além de anárquico. A simpatia que quase sentimos por estas figuras rapidamente desilude para uma forma de desprezo — talvez o que de mais próprio eles detenham — que parte de um lugar vazio e de um desinteresse descarnado por tudo o que não é imitável ou movido por campanhas provisórias, qual matéria publicitária: “O desprezo que sentiam por aqueles ricaços, aqueles exploradores, aqueles gananciosos constituía por vezes o seu primeiro terreno de entendimento” (35). O que, por vezes, quase se confunde com uma forma de resistência, não é afinal senão o esboço — e o esforço ridículo, caricatural — de um “gosto adequado” (37), reproduzido a partir da revista L’Express que lhes oferecia “todos os símbolos de conforto” (38).
Num mundo de pechisbeque, o manifesto é aquele que subjaz o ato que Georges Perec propõe ao escrever sobre estas vidas, de que o mundo hoje é um derivado direto — dizer um filho direto será impreciso, pois filhos não os há em segundo e terceiro graus e o mundo, este, vem já, por tanto, amassado. O manifesto pode, quando muito, ser começado do lado de fora, da janela aberta entre livro e leitor.
Às prestações, opor o tempo da leitura. À publicidade, opormo-nos com a denúncia da hipocrisia e a prática de atos que clareiem a declaração de intenções como uma forma criminosa de conivência com o estado de coisas. Ao sorriso amorfo, daqueles para os quais o mundo é uma grande vitrine, resistir com o pensamento furioso que não deixa passar impune a transparência como a maior forma de tirania. Tudo o que de político reside neste livro está na rejeição do que aqui é descrito. Mas a sua descrição é já o destaque de um terreno infértil, mirrado, inerte. Manifesta-se, com efeito, o compromisso com os impossíveis arredores da linguagem que é, desde logo, mundo, corpo, matéria, possível crime ou sinfonia e comunidade. De resto, para o bem e para o mal, a imparcialidade é um mito. E ainda bem.