Era um jogo, mas também era um jogo que começava este domingo e só acabava no próximo sábado. A entrar em campo depois do Benfica, depois de uma vitória do Benfica, o Sporting sabia que estava completamente obrigado a ganhar para entrar no mais do que decisivo dérbi em igualdade pontual com os encarnados na liderança do Campeonato. Pelo meio, porém, estava o Gil Vicente.

Os leões recebiam os gilistas em Alvalade depois de quatro vitórias consecutivas, incluindo o apuramento para a final da Taça de Portugal, e numa altura onde a larga maioria das conversas sobre o Campeonato já se prende mais com o dérbi da Luz do que propriamente com os obstáculos que ainda existem até lá. Rui Borges, contudo, não tinha qualquer prurido na hora de puxar as atenções para o encontro deste domingo.

Ficha de jogo

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Sporting-Gil Vicente, 2-1

32.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Tiago Martins (AF Lisboa)

Sporting: Rui Silva, Eduardo Quaresma, Jeremiah St. Juste (Geovany Quenda, 64′), Gonçalo Inácio, Geny Catamo (Biel, 83′), Debast, Morita (Hjulmand, 64′), Maxi Araújo, Trincão (Matheus Reis, 90+7′), Pedro Gonçalves (Conrad Harder, 64′), Gyökeres

Suplentes não utilizados: Franco Israel, Iván Fresneda, Ricardo Esgaio, Eduardo Felicíssimo

Treinador: Rui Borges

Gil Vicente: Andrew, Zé Carlos, Marvin Elimbi (Jorge Aguirre, 66′), Jonathan Buatu, Jonathan Mutombo, Facundo Cáseres, Mohamed Bamba, João Marques (Diogo Costa, 76′), Félix Correia (Sergio Bermejo, 90′), Santi García (João Teixeira, 66′), Pablo (Jordi Mboula, 66′)

Suplentes não utilizados: Brian Araújo, Tidjany Touré, Kazu

Treinador: César Peixoto

Golos: Félix Correia (gp, 26′), Maxi Araújo (81′), Eduardo Quaresma (90+3′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Jeremiah St. Juste (25′), a Maxi Araújo (44′), a Pablo (45+1′), a Marvin Elimbi (51′), a Andrew (68′)

“Acredito que o que tem sido passado ao longo das semanas é focarmo-nos no próximo jogo. Sinto que a equipa está ligada no jogo com o Gil Vicente, até porque para chegarmos ao Benfica temos de passar pelo jogo com o Gil. Sinto a equipa focada, não tenho tido a necessidade de falar nisso. Gosto de ouvir os jogadores, são eles que correm por mim, não sou eu que corro por eles. Se não acreditarem, não vale de nada. Se estivermos com a cabeça no futuro isso vai sair-nos caro”, disse o treinador leonino ainda antes de o Benfica vencer o Estoril de forma tangencial na Amoreira.

Assim, em Alvalade, Rui Borges não arriscava e deixava Hjulmand, que está a um cartão amarelo de ser castigado, no banco. Morita voltava ao onze inicial e fazia dupla com Debast no meio-campo, com Pedro Gonçalves a manter-se no apoio a Gyökeres e Geovany Quenda a ser suplente. Do outro lado, num Gil Vicente que vinha de duas vitórias consecutivas, César Peixoto tinha Pablo como referência ofensiva — sendo que Fujimoto, que era inicialmente titular, sentiu um desconforto durante o aquecimento e acabou por ser substituído por Santi García.

O Sporting entrou melhor e parecia decidido a chegar depressa ao golo, para fugir a ansiedades ou preocupações desnecessárias. Trincão teve as duas primeiras situações de perigo, com um remate ao lado (3′) e outro que esbarrou num adversário (14′), e os leões iam tentando encontrar espaço entre o bloco baixo e compacto do Gil Vicente, que obrigava a equipa de Rui Borges a lateralizar muito o jogo por não ter espaço no corredor central.

Os gilistas só se soltaram já depois do quarto de hora inicial, num momento em que Mutombo desequilibrou na esquerda e cruzou rasteiro para a área, onde Debast apareceu a intercetar (16′), e só precisaram de atacar novamente para chegar à vantagem. O mesmo Mutombo fugiu à marcação na esquerda, St. Juste fez falta sobre o francês e Tiago Martins, depois de analisar as imagens do VAR, assinalou grande penalidade. Na conversão, Félix Correia bateu Rui Silva e abriu o marcador em Alvalade (26′).

Os leões tentaram reagir de forma rápida, com Geny Catamo a ter um raro lance individual na direita para depois rematar cruzado e à malha lateral da baliza de Andrew (33′), mas o momento foi um autêntico oásis no deserto. A equipa de Rui Borges não tinha espaço, por mérito da organização defensiva do Gil Vicente, e errava demasiados passes e demasiadas linhas de ligação, sem conseguir desenhar uma jogada com princípio, meio e fim.

Ao intervalo, o Sporting estava a perder com o Gil Vicente em Alvalade e não tinha qualquer remate enquadrado, parecendo demasiado aprisionado pelo bloco recuado do adversário e pela exibição cinzenta de Gyökeres, que estava completamente controlado pelos centrais gilistas. Na dimensão virtual do Campeonato, no fim da primeira parte, os leões estavam a três pontos da liderança do Benfica e iriam para o dérbi em desvantagem face aos encarnados.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e a lógica manteve-se: o Sporting tinha a bola, mas não conseguia entrar no último terço do Gil Vicente, limitando-se a ter posse na zona do meio-campo sem capacidade para encontrar espaços rumo à baliza de Andrew. Pedro Gonçalves teve a primeira situação de perigo dos leões na segunda parte, com um remate de fora de área que passou ao lado (53′), e Rui Borges só esperou 15 minutos até fazer as primeiras substituições.

Conrad Harder, Hjulmand e Geovany Quenda foram os eleitos para saltar do banco de suplentes, com St. Juste, Morita e Pedro Gonçalves a saírem e o Sporting a adaptar-se a uma linha defensiva de quatro elementos, com Debast a recuar para o eixo defensivo e Eduardo Quaresma a ficar como lateral-direito. César Peixoto respondeu, também com três substituições, e lançou Jorge Aguirre, Jordi Mboula e João Teixeira.

De forma natural, o Sporting ia conquistando cada vez mais metros e ficando totalmente inserido no meio-campo contrário, ainda que sem situações de perigo ou remates enquadrados. Geovany Quenda trouxe a capacidade de cruzar, para além da vertigem do desequilíbrio no corredor direito, mas a bola morria quando chegava à área — onde Gyökeres estava constantemente anulado por Jonathan Buatu, que realizou uma exibição memorável em Alvalade.

Já dentro dos últimos dez minutos, porém, os leões conseguiram mesmo destruir o muro. Conrad Harder rematou de fora de área, a bola desviou um adversário e sobrou para Maxi Araújo, que atirou de primeira para bater Andrew (81′). Rui Borges utilizou o pouco banco que tinha e ainda lançou Biel no lugar de Geny Catamo, Trincão acertou no poste de livre direto (87′) e um dos momentos que pode decidir uma temporada apareceu nos descontos: canto na esquerda, Andrew socou para a entrada da grande área e Eduardo Quaresma, com um belo remate, carimbou a reviravolta (90+3′).

O Sporting venceu o Gil Vicente em Alvalade num jogo muito sofrido e garantiu os três pontos que permitem que vá para o dérbi da Luz, no próximo sábado, em igualdade pontual com o Benfica na liderança do Campeonato — ou seja, com a possibilidade de ser campeão nacional já na próxima jornada, em cenário de vitória perante os encarnados. Rui Borges tinha dito, na antevisão, que sabe que os jogadores correm por ele: este domingo foi o dia em que Eduardo Quaresma correu por ele e por todos.