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E se uma ficção se tornar realidade? "Crocodile Club" chama-lhe "eleições"

Este artigo tem mais de 1 ano

Realidade, fantasia, pesadelo. Mickäel Oliveira abre as portas do "Crocodile Club" sentando-se à mesa com o elenco da peça que estará em cena no Teatro Nacional de São João até domingo, dia 11.

Beatriz Branco e Luís Araújo fazem parte do elenco de "Crocodile Club"
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▲Beatriz Branco e Luís Araújo fazem parte do elenco de "Crocodile Club"

▲Beatriz Branco e Luís Araújo fazem parte do elenco de "Crocodile Club"

Crocodile Club não é uma estreia. Mas, ao mesmo tempo, é. Depois de Hantologia (2019) ou Festa de 15 anos (2020), Mickäel Oliveira chega de corpo inteiro a um texto dramatúrgico, político, que se “atreve” a anteceder em dez dias as eleições legislativas portuguesas. A conversa que se seguiu não mostrou recato nos argumentos sobre a necessidade de mudança, do medo, da liberdade e das ameaças europeias à democracia e no crescimento do populismo e da extrema-direita em Portugal.

Sentamo-nos num sofá de veludo vermelho, detalhe característico do Teatro Nacional de São João, no Porto, que se localizava junto à porta lateral do auditório principal do teatro. O diálogo do encenador, que começou naquele sofá, manteve-se no palco, desta vez, num jantar informal entre sete amigos (representados por Afonso Santos, Bárbara Branco, Beatriz Wellenkamp Carretas, Fábio Coelho, Gabriela Cavaz, Inês Castel-Branco e Luís Araújo).

O enredo desta peça retrata um típico encontro de amigos de longa data, na casa familiar, deslocada da cidade. O que se diferencia em toda a normalidade que um acontecimento destes desenvolve, é que a anfitriã, Isabel, é candidata de um partido de extrema-direita às eleições legislativas e, aquele jantar, onde os copos são transparentes e as garrafas de vinho avermelhadas, onde a comida que se serve é vegana e as pessoas que reúne mostram-se ideologicamente diferentes, é parte de uma ação de campanha que requer a humanização da candidata. Campanha essa que acaba por rondar o terror e o fantasmagórico.

“As imagens e as falas, por vezes totalmente politizadas e cruas, são difíceis de ouvir: entre o sangue e a atrocidade, entre o esquartejar uma pessoa ou ser um fantasma passageiro de corpo para outro, tudo isto, é uma construção de equipa que exigiu muitos ‘testes’ anteriores”, começa por partilhar Mickäel Oliveira, depois de reforçar que toda esta representação é o reflexo de uma intervenção do teatro político, mesmo que não tenha sido pensado dessa forma.

“Como é que este retrato pode ajudar, de alguma maneira, a pensar a política neste momento crucial? O que vivemos atualmente dentro de sede de assembleia é uma vergonha institucional, política. E parece que ninguém sabe muito bem lidar com a situação”, reage o encenador.

As sete personagens que se desenvolvem ao longo da peça — confinada a dois atos — vão-se dividindo entre a ação reativa e emocional, que se intensifica com a presença do documentarista em palco, Fábio Coelho, que é também responsável pelo desenho de vídeo.

É neste palrar entre o palco e a tela, que o seio intimista representado transmite a ideia do que se vive nos seios familiares portugueses “neste momento, em cada família, há uma pessoa ou outra que vota na extrema-direita”. “Pode dizer-se que estão revoltados, mas há outros partidos para canalizar a sua revolta. O descontentamento popular é normal numa democracia e começa a ser sintomático”, defende Mickaël de Oliveira.

Apesar de não ser um espetáculo pensado para anteceder as eleições, o dramaturgo (integrante do Colectivo 84) reconhece que este momento é “uma nova oportunidade para termos um parlamento mais maduro, mais organizado, menos cacofónico”.

Entre a comédia e o terror, Crocodile Club avança com “dilemas éticos”, elucida, e temas como o “conservadorismo, o revisionismo e a própria indústria do espetáculo”. Dessa forma, a escolha de uma mulher candidata de extrema-direita para personagem principal não se reflete em vão. Falou-se de Marie La Pen, Giorgia Meloni, enquanto figuras fortemente representadas.

“Estes casos revelam a operação de cosmética que estas mulheres desempenham. Os pais, de partidos tradicionalistas e familiares, assumiam o seu posicionamento racista, antissemita e xenófobo. Já as filhas vêm pegar no eleitorado dele(s) e tentam maquilhar esse discurso. É uma atitude muito perigosa”, remata.

Dando evidência à importância do discurso que assume as grandes audiências e que, acredita o encenador, corporiza o peso e o crescimento dos movimentos populistas a partir da comunicação social, Mickaël de Oliveira coloca em cena o documentarista,
dada a componente narrativa que pretende explorar. O objetivo principal desta ficção era esse: gravar um documentário. Mas a câmara representa também um elemento de manipulação. “Temos de desmontar, mostrar o equívoco, mostrar a manipulação, mostrar de como é que não vais à procura de uma coisa que não te estão a dar”, continua. Remete-se em palco a referência a recursos televisivos que abrem a peça e vão acompanhando a mesma até ao juízo final.

Por vezes confundida com comédia, esta tragédia surpreende o público que dá uma e outra gargalhada enquanto o ensaio geral se arrasta. É importante ir mais longe, explica o encenador que nasceu e estudou em França, não se conseguindo abstrair da realidade política e social do país em que viveu grande parte da sua vida.

Expressões como “é preciso cortar as gorduras do estado, precisamos de largar os parasitas” ou a “exemplar defesa das autoridades e das suas condições laborais” são reconhecíveis e involuntariamente remetidas para um discurso extremamente atual que parte de figuras políticas como André Ventura, presidente do partido CHEGA.

A dificuldade de dirigir personagens com grandes oscilações de humor, com profundo trabalho cénico e de interpretação é uma tarefa que o elenco se desafia uma e outra vez. O desconforto de quem assiste pela primeira vez é visível e, também por essa razão, Mickäel Oliveira recorda a importância de este espetáculo ser um corpo vivo, que por mais pensado que estivesse, se foi transformando vezes sem conta.

Se a ficção recorre à realidade para se inspirar, neste espetáculo ambas as realidades chegam a ser concorrentes. O eco que Crocodile Club tenta intensificar a dez dias as eleições é tão calculoso quanto a verdadeira história do clube informal da União Europeia, ou até as desconhecidas mortes que o espetáculo que nos recorda terem acontecido. Algo que apenas se descobre quando visto.

“Crocodile Club” entra em cena nesta quinta-feira, dia 8 de maio, prolongando-se até domingo, dia 11, entre diferentes horários (16h-19h-21h). A peça é dirigida a maiores de 16 anos.

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