Portugal tem uma relação curiosa com a avaliação escolar: discute intensamente os resultados durante alguns dias e raramente acompanha, com igual atenção, o que acontece depois. As Provas de Monitorização das Aprendizagens (ModA) de 2026 merecem outro destino. Devem servir para melhorar o que os alunos aprendem, com consequências concretas nas salas de aula.
Os dados divulgados esta semana pelo EduQA mostram progressos modestos. Em Matemática, a média passou de 50,9 para 52,5 pontos no 4.º ano e de 51,3 para 52,3 no 6.º. Na produção de textos em Português, subiu de 47,4 para 50,0 e de 45,0 para 47,9, respetivamente. A evolução é favorável, mas dois anos de resultados não bastam para declarar uma recuperação consolidada.
Alguma comunicação social apressou-se a destacar os resultados “negativos” na escrita do 6.º ano. A formulação exige cautela: o EduQA esclarece que os Pontos ModA medem proficiência, numa escala de zero a cem, e não a percentagem de respostas corretas. Não devemos, portanto, transportar automaticamente para esta escala a fronteira escolar entre positiva e negativa. Uma discussão séria começa por compreender o significado dos números.
Essa cautela não deve, porém, alimentar complacência. A pergunta decisiva é outra: que conseguem efetivamente fazer os alunos? Conseguem escrever um texto coerente, compreender um enunciado e justificar um raciocínio? Precisamos de conhecer a distribuição pelos níveis de desempenho e as dificuldades concretas. Uma média nacional, isoladamente, diz pouco sobre quem necessita de apoio e sobre a intensidade desse apoio.
Há também uma evolução que merece atenção: em Português Língua Não Materna, nível 2, a média da interação e produção escrita passou de 43,3 para 55,4 pontos. É um sinal encorajador. Importa perceber que práticas contribuíram para esse progresso, sem atribuir causas que os dados divulgados não demonstram. Identificar e partilhar intervenções eficazes deveria ser uma prioridade.
Existe ainda um problema de oportunidade. As provas decorreram entre finais de maio e início de junho, mas os resultados foram divulgados em 20 de outubro, já no ano letivo seguinte. A avaliação perde utilidade quando a informação chega depois de decisões pedagógicas importantes. Devemos encurtar este intervalo e garantir que o diagnóstico acompanha cada aluno nas transições entre ciclos.
A resposta exige tempo para ensinar, estabilidade das equipas e apoio dirigido às dificuldades identificadas. Na escrita, proponho prática frequente, correção comentada e reescrita. Na Matemática, trabalho sobre a compreensão dos problemas, a explicação dos procedimentos e a consolidação dos conhecimentos fundamentais. Os professores precisam de condições para transformar informação em intervenção.
Enquanto professor de Sistemas de Informação, valorizo a tecnologia, mas recuso a ideia de que distribuir equipamentos equivale a melhorar aprendizagens. A inteligência artificial pode apoiar exercícios e feedback, desde que preserve o esforço intelectual do aluno. Se escrever e raciocinar forem tarefas sistematicamente delegadas numa máquina, estaremos a comprometer as competências que pretendemos desenvolver.
As ModA justificam-se se desencadearem mudanças verificáveis. Cada escola deve poder identificar prioridades, mobilizar recursos e acompanhar progressos, com apoio proporcional às necessidades dos seus alunos.
O verdadeiro teste ao sistema educativo começa depois da publicação dos resultados. Mede-se na capacidade de garantir que uma dificuldade detetada recebe uma resposta e deixa de acompanhar a criança ano após ano. Avaliar é necessário. Fazer alguma coisa com a avaliação é a responsabilidade que falta cumprir.