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Duques de Bragança. Das capas brancas aos véus pretos, quais são e como funcionam as ordens dinásticas que estiveram na Basílica

Este artigo tem mais de 1 ano

Na comemoração dos 30 anos de casados de D. Duarte e D. Isabel a Basílica da Estrela encheu-se de damas e cavaleiros com as indumentárias tradicionais de duas ordens dinásticas.

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Perto das 18h30 desta terça-feira os convidados vão chegando à Basílica da Estrela. Eles, em fatos escuros, trazem consigo um porta-fatos; as senhoras apresentam-se com vestidos pretos elegantes e colar de pérolas. Do lado de fora, alguns curiosos interrogam-se sobre o motivo da escolha da cor, acompanhando o cortejo à distância. Minutos antes do início da missa de celebração dos 30 anos de casamento de Duarte Pio e Isabel Herédia, o hall de acesso à igreja enche-se de figuras femininas vestidas de preto com uma medalha ao peito, luvas brancas e um véu de renda preto na cabeça. São seguidas pelo grupo de cerca de 70 homens que, depois de uma discreta alteração do look, envergam agora por cima capas brancas com apontamento azul, e ainda medalhas e insígnias.

Os cavaleiros da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e as damas da Real Ordem de Santa Isabel ocupam quase metade da nave uma vez concluída a procissão. Compõem as duas ordens dinásticas instituídas no século XIX, e que se mantêm vivas sob o comando da Casa de Bragança. A estas junta-se ainda a antiga Ordem de São Miguel da Ala, hoje denonimada Ordem do Arcanjo São Miguel, cujo chanceler é o filho mais novo dos duques, Dinis.

▲ Os cavaleiros sentaram-se à esquerda e as damas à direita, ocupando quase metade dos bancos da Basílica da Estrela

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Os cavaleiros da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa

A Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa foi criada por Dom João VI, no Brasil, a 6 de fevereiro de 1818, com o objetivo de homenagear a padroeira pelo facto de Portugal ter sobrevivido às guerras napoleónicas. “Com a República, as ordens foram extintas e só uns anos mais tarde reformulam para que as antigas ordens militares de Cristo, Avis e Santiago voltassem a ser ordens nacionais, mas esta não. E, portanto, ficou uma ordem dinástica. Como o Estado rescindiu da ordem, os descendentes de D. João VI organizaram-se de forma a que continuassem a poder atribui-la”, começa por explicar ao Observador António José Emauz de Almeida Lima, embaixador e antigo chefe de protocolo do Estado, que também é comendador da ordem. “Isso acontece praticamente em todas as famílias reais europeias, mesmo as que já não estão no trono”, destaca Almeida Lima. “Os Sabóias têm uma ordem, os Borbón, vários alemães têm ordens. É um hábito dos europeus desde que começaram a acabar as monarquias: essas ordens que estavam ligadas a soberanos passaram para as famílias”.

Dentro da ordem há níveis de hierarquia sendo que D. Duarte Pio é o Grão Mestre. Seguem-se os graus de Grã-Cruz, Comenda e Cavaleiro. Atualmente acolhe entre 70 a 100 membros, entre portugueses, estrangeiros, figuras da realeza e também personalidades da sociedade civil — embaixadores, professores catedráticos, empresários, antigos políticos e militares. “D. Duarte escolhe pessoalmente quem é que quer distinguir”, explica Almeida Lima. O chanceler atual é Jaime de Almeida, Marquês do Lavradio, e o vice-chanceler Francisco de Mendia.  Fazem parte da ordem nomes como José Ribeiro e Castro, Vasco e João Pereira Coutinho, Manuel Braga da Cruz e João Távora. A este leque juntam-se membros da realeza internacionais, como Simeão da Bulgária, o Conde de Paris, Bertrand de Orléans e Bragança e Rafael de Orléans e Bragança, da família real brasileira, ou o Duque de Castro.

A Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa também atribui medalhas de mérito — foi o caso em 2006, quando Cristiano Ronaldo recebeu a homenagem das mãos do Duque de Bragança em nome da seleção nacional que representou Portugal no Mundial.

▲ A indumentária dos cavaleiros da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa inclui uma capa branca com azul e a insígnia

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

As capas fazem parte da indumentária das ordens antigas — e que permanecem em instituições como a de Malta, do Santo Sepulcro ou da Jarreteira. “Quando foi a coroação do rei Carlos III de Inglaterra, várias pessoas vinham com capas correspondentes às suas ordens respetivas. A Princesa de Gales, a Kate, vinha com uma capa especial que pertencia à sua ordem”, recordou o embaixador. Na Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa a capa é azul e branca, por serem as cores da imagem de Nossa Senhora da Conceição, e também da monarquia. O traje fica completo com as insígnias e as medalhas que os cavaleiros exibem também. Vestem-se assim pelo menos uma vez por ano, no dia de Nossa Senhora da Conceição, a 8 de dezembro, quando decorre uma procissão em Vila Viçosa, ou ainda quando o Duque de Bragança assim o requisita – foi o caso da passada terça-feira, 13 de maio, ocasião especial para a família.

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As damas da Real Ordem de Santa Isabel

Do lado direito da Basílica da Estrela sentaram-se as damas da Real Ordem de Santa Isabel. Uma ordem instituída em 1801 pelo príncipe regente D. João, em nome da Rainha D. Maria I, e que teve como primeira Grã-Mestre a princesa Carlota Joaquina, responsabilidade assumida em 2002 por Isabel de Herédia, quando a Casa de Bragança restaurou a ordem. “Foi criada em honra de Santa Isabel, que foi também uma rainha portuguesa, e que foi canonizada vai fazer agora 400 anos, no dia 25 deste mês. Portanto, havendo uma ordem masculina, que é a Real Ordem de Vila Viçosa, criou-se também uma ordem feminina. E ambas são feitas para agraciar quem ajuda a família real. Ou seja, nesta altura, já não havendo uma família real reinante, são para aqueles que defendem os princípios monárquicos em democracia, ajudando a família real naquilo que nos pede”, explica ao Observador a chanceler da ordem, Maria João Villas-Boas, condessa de Resende.

“Estamos neste momento a fazer dois tipos de donativos. Um é para tudo o que tenha a ver com o património ligado à Rainha Santa. Isabel, muito baseado em Coimbra, onde viveu e onde passou a parte mais importante da sua vida. E o outro é para entidades que nós identificamos e que necessitem de apoio de dinheiro para as suas atividades”, acrescenta ainda, no rescaldo da missa solene. “Acho que o que é importante é a defesa dos princípios que a Rainha Santa defendeu. A paz e a portugalidade, não sendo ela portuguesa. O respeito pela família e o amor a Portugal.”

A ordem tem um limite de 100 membros e neste momento são cerca de 80 damas, com idades que começam nos 50 e vão para lá dos 80 anos. “A partir dos 83 anos jubilamos as damas. Quer dizer que deixam de ter o encargo de pagar a sua cota. Se quiserem, continuam, mas deixam de ter esse encargo e de participar de uma forma muito ativa naquilo que é pedido. É natural que cada vez vamos jubilando mais pessoas, porque as pessoas vão vivendo mais tempo. E ao jubilar nós estamos a deixar entrar pessoas mais novas.” As damas também são escolhidas pela duquesa de Bragança, o que inclui nomes como Aline Gallasch-Hall de Beuvink, Aura Miguel e também membros de realezas internacionais, como a princesa Christine de Ligne de Orléans e Bragança, a Grã-duquesa Maria Teresa de Luxemburgo, a princesa Margarita da Roménia, a princesa Sophie de Liechtenstein ou a princesa brasileira Maria Gabriela. “Uma das pessoas era a Rainha Fabiola, por exemplo, que não tinha parentesco nenhum com a Casa Real portuguesa, mas era casada com o rei Balduíno, que teve uma defesa da fé muito grande e muito sólida e, portanto, ela foi agraciada. Tive a honra de entrar no mesmo ano em que entrou. Era uma pessoa fantástica”, destaca a Condessa de Resende.

▲ As damas da Real Ordem de Santa Isabel usam luvas brancas, vestido e véu preto

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

As damas reúnem-se em diferentes ocasiões, como as reuniões do conselho, encontros temáticos — como o centenário da morte do Rei D. Carlos, e as cerimónias da Rainha Santa, no dia 4 de julho em Coimbra. “Encontramo-nos bastante. Esta é uma ordem ativa nesse âmbito. E é bom porque as pessoas mais velhas ficam muito satisfeitas com isso, de poder estar ativas e ter as suas opiniões e ao mesmo tempo poderem encontrar-se.”

Os trajes, compostos por vestido preto, véu de renda preto, luvas brancas e a medalha da ordem, foram definidos quando a duquesa de Bragança restaurou a ordem. “Foi buscar a sua inspiração a uma irmandade que se veste desta maneira”, conta a chanceler. “Passámos a ter este véu e vestido preto, que é o mais prático. E temos esta insígnia que tem exatamente a Rainha Santa aqui”, mostra Maria João Villas-Boas. A indumentária fica completa com a elegância das pérolas, item que não é obrigatório, mas um clássico intemporal num evento como este. “É uma coisa feminina. Hoje em dia já não se usa tanto pérolas, não é? Portanto, nestas alturas, olha, vou buscar as pérolas e fazê-las sair.”

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