Sergei Loznitsa já tinha mostrado no seu documentário The Trial a que ponto a justiça rimou com o absurdo nos tempos da União Soviética de Estaline. Nesse julgamento, economistas e engenheiros com as mais altas responsabilidades no país comunista foram acusados de planear um golpe de estado contra Estaline e condenados por histórias ridículas. Uma farsa grotesca. Loznitsa, sobretudo nos seus momentos de ficção, já explorou essa farsa com resultados irregulares.

Em Two Prosecutors, que é uma ficção baseada em documentos e factos, a personagem de Kornev (Alexander Kuznetsov), um procurador obstinado, começa a visitar presos políticos na cadeia e a investigar as ações pouco ortodoxas do NKVD, a polícia secreta do regime (anterior ao KGB). Patriota, Kornev acredita que se deve bater pelo que julga ser certo.

Só que o filme passa-se em 1937, a meio das purgas estalinistas. Com uma cara de pau que por vezes recorda Jacques Tati, o herói bate-se pela causa, chega a ir a Moscovo expor o seu caso a altas figuras do Estado. E o jurista recém-diplomado não tarda a tornar-se uma roda dentada a girar em sentido oposto ao da máquina que o criou. Falamos de um tempo de censura, repressão, perseguição aos intelectuais, tortura e condenações sumárias. Mas o que este filme mostra acima de tudo é a monstruosa estrutura burocrática.

Loznitsa baseou-se na biografia e no romance homónimo do físico e preso político Georgy Demidov, detido em 1937. Passou 14 anos num gulag. “Depois disso”, contou o cineasta ucraniano ao Observador esta tarde, “escreveu as suas memórias mas o KGB aprendeu todos os manuscritos. Morreu em 1987. Numa viu uma única palavra sua publicada. Após o colapso da União Soviética, a sua filha conseguiu, após dura luta burocrática, reaver os documentos. Em 2008 foi finalmente publicado na Rússia uma parte resumida dos seus escritos. Mas só há muito pouco tempo foi conhecida a totalidade da obra, em seis volumes, mais de 80 anos depois. Interesso-me a fundo pela história da União Soviética e considero os escritos de Demidov fulcrais para descrever a grande escala daquele sistema totalitário.”

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Loznitsa filmou Two Prosecutors como um filme dos anos 30, em formato 4:3, com o rigor de enquadramentos que lhe conhecemos dos seus documentários e muita sobriedade nas interpretações, gerando uma atmosfera claustrofóbica e sombria. O filme fica a dever muito à performance e à expressividade de Kuznetsov, ator revelado em Leto, de Kirill Serebrennikov.

Também se perguntou a Loznitsa se este filme é um espelho da Rússia de hoje. Resposta contundente: “A ligação entre passado e presente é direta. É a mesma máquina. Os três advogados que tentaram defender Alexei Navalny foram interrogados em janeiro deste ano e continuam na prisão”. Há uma cena do filme passada num comboio que foi baseada no excerto de um romance de Nikolai Gogol. “No sentido que Gogol dava ao humor”, concluiu o cineasta, “acho que até podemos considerar Two Prosecutors uma comédia. Mas uma daquelas muito negras.”

Perante o bom filme de Loznitsa, ficou para segundo plano Sound of Falling, longa-metragem da cineasta alemã Mascha Schilinski, de 40 anos. Foi por aqui que começou o concurso. O ponto de partida é ambicioso e coral, com recurso a voz-off, até resvalar para a afetação. Schilinski filma personagens como fantasmas: a saber, quatro mulheres de diferentes gerações de uma mesma família de trabalhadores rurais, num leque temporal de um século, sem uma relação de causa-efeito visível na narrativa. É um filme que se vai forjando por evocações, um tanto como As Virgens Suicidas de Sofia Coppola, com uma variação de texturas em tom pastel e uma narrativa assumidamente muito mais fragmentada. Houve quem o colocasse nos píncaros: exageros de início de festival.