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Wes Anderson está estagnado, Ducournau é fogo de palha. Jafar Panahi chegou a Cannes e pô-los no lugar

Este artigo tem mais de 1 ano

Na Competição, o iraniano lembrou que não há como os persas para contar uma história: “Un simple accident” é notável, um exame de consciência coletiva.

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Jafar Panahi em Cannes, em carne e osso: quem diria?

Getty Images

Jafar Panahi em Cannes, em carne e osso: quem diria?

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As coisas começam a aquecer em Cannes. Primeiro foi o galego Laxe, depois o pernambucano Kleber. Estão em grande forma. Correu-lhes de feição a primeira metade do concurso. Só que isto não é torneio de caretas com selfie suada. É Liga dos Campeões, meus amigos. O maior festival de cinema do mundo. E a armada persa não brinca.

Jafar Panahi anda pela mesma Croisette das Kristens e das Scarletts e volta a concorrer à Palma de Ouro este ano. Banido longos anos de trabalhar, de existir como cidadão e artista, está hoje autorizado a ter vida de comum mortal e viajar. Como todos os grandes artistas, Panahi parte das coisas simples para chegar às complexas. E Un simple accident lhe chamou, assim, em francês, porque o filme teve ajuda à coprodução da França e do Luxemburgo.

Os desterros no Irão e seus alçapões sinistros parecem cada vez mais roletas russas sem que alguém entenda racionalmente o que se passa. Mehran Tamadon, iraniano há muito banido, já nos tinha em tempos dado a entender o que ninguém, de facto, entende. Tocou a fava a Panahi agora? Curiosamente, este filme parte do acaso. Recorde-se que o cineasta — tal como Mohammad Rasoulof, que ele defendeu com afinco — venceu nos últimos anos distinções de enormíssimo gabarito, Veneza e Berlim deram-lhe Leão e Urso de ouro, prémios que Panahi só recebeu por interpostas mãos, à distância, ora preso, ora em prisão domiciliária e sem passaporte. Mas agora está em Cannes. É um momento histórico. E a presidir ao júri, está uma senhora atriz (Binoche) que filmou com o mais distinto príncipe desta estirpe (Kiarostami).

"Un simple accident", de Jafar Panahi

Panahi trouxe a Cannes a sua versão de A Passageira, de Munk. Depois de um estúpido acidente de estrada com cão vadio atropelado, uma família, pai (Ebrahim Azizi), mulher grávida (Afssaneh Najmabadi) e filha menor adorável (Delmaz Najafi), procuram uma garagem para reparação rápida. Acontece que, durante esta busca, outro homem reconhece no som dos passos do azarado condutor (que manca) aquele que foi o seu torcionário (tal como no choque de A Passageira). O condutor destruiu-lhe a vida no tempo em que o homem esteve encarcerado. E sem desarmar, este segue-o, com a quase certeza de que é ele, e rapta-o, mas ainda assim restam-lhe dúvidas, chamando então outras vítimas que passaram por igual suplício. Um plano de vingança contra o algoz é então posto em marcha pelo grupo. A grande pergunta de Un simple accident é o que fazer com essa vingança.

Os persas têm um dom milenar para contar histórias, uma capacidade superior de inventar narrativas do nada e criar personagens de coisa nenhuma. Nunca ninguém percebeu como o fazem. O dom é inato, é como querer explicar Picasso. É incrível o que Panahi arranca dos seus intérpretes, dos momentos de soap opera mais encarniçados até à cena em que a culpa se torna um momento de extraordinária teatralização, lançando outro dilema: e na vingança, há afinal glória alguma?

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Passemos a Wes Anderson, que até rebenta umas cabeças e manda uns quantos tipos pelos ares (literalmente) no seu novo O Esquema Fenício, já com título em português – chega às salas lusas no final deste maio. Não se estava à espera de tal crueldade do gentleman texano, que belas gotas de sangue neste seu opus 12. Anda ele aflito para se adaptar aos movimentos do mundo? Mas o esforço não basta, o cineasta que se defendia há 20 anos pela estilização afetiva de Os Tenenbaums — Uma Comédia Genial e Um Peixe Fora de Água gerou uma carapaça contra os afetos. E não há meio de se livrar disso.

Benicio del Toro e Mia Threapleton em “O Esquema Fenício”, de Wes Anderson

Nem com Benicio del Toro, aqui magnata ligado ao tráfico de armas, especialista a fintar tentativas de homicídio. Não é mau assunto. Nunca foi. Os aliens e os cogumelos nucleares do anterior Asteroid City também não foram. A questão é que as ideias no cinema de Wes deixaram de valer mesmo quando são boas. Mesmo quando o magnata tenta reatar laços com a filha freira e nada santa (Mia Threapleton, filha de Kate Winslet). Mesmo quando ele quer chegar a roupa ao pelo do irmão que odeia (Benedict Cumberbatch, entrada recente nesta galeria), a golpes de magia com fumaças de Méliès. Um firewall qualquer anda a barrar este cinema das emoções. Não há por aí um vírus que ajude, que contamine o moço e o faça reagir?

Vírus é coisa que agrada a Julia Ducournau, a concurso em Cannes quatro anos depois de Titane, que foi uma Palma de Ouro aflitiva. Este novo chama-se Alpha. É uma alegoria de epidemias (alusão à Sida sobretudo). Com corpos contaminados, em seguida destruídos. A Alpha do título (Mélissa Boros) tem 13 anos, está a descobrir a sexualidade quando a tatuam numa festa em que ela cai inanimada, agulha supostamente infetada. Protege-a a mãe enfermeira (Golshifteh Farahani), transtorna-a a chegada do tio heroinómano que ela já nem reconhece (Tahar Rahim perdeu 20 quilos para o papel, mal empregada dieta).

“Alpha”, de Julia Ducournau

A epidemia que anda no ar transforma os corpos humanos em mármore que depois se volatiliza em pó – boa ideia esta, a dos corpos petrificados, desaproveitada contudo num filme em que se esperava um investimento visual muito mais elaborado. Mas é tudo tão patudo, carrancudo de tom, tão em jeito de apocalipse dos subúrbios… Nisto sai também desamparada a miúda Alpha e a ideia de uma adolescência monstruosa que parecia crescer para a revolta (contra o bullying dos colegas na escola).

Julia Ducournau já explorara o assunto em Grave/Raw (é ainda o seu filme mais estimulante). Neste caso, fica a fazer festas ao enunciado, sem convicção, isto quando não recorre a outras muletas: há um momento em que Alpha faz correr da primeira à última nota The Mercy Seat mas o filme não merece, não está simplesmente à altura da canção de Nick Cave com os Bad Seeds. Pensam que se pode ser “má semente” assim, sem mais nem aquela?

Ao contrário do que o título poderia sugerir, Alpha não arranca nada. Não começa. Não é primeira letra de alfabeto algum. O Libération chamou-lhe “Alpha bête” (Alpha besta). Que queridos sabem ser estes franceses uns para os outros.

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