Joachim Trier especializou-se a descrever a tristeza de conflitos familiares e de estados de solidão que agora ocupam o rosto de Renate Reinsve, atriz que caiu no goto em A Pior Pessoa do Mundo, êxito de estima um pouco por todo o mundo. Nesse filme, em que o mundo girava à volta da personagem dela, fez falta a Renate um ponto de apoio forte no elenco — também por isso Sentimental Value é-lhe superior. É que, desta vez, está na contracena Stellan Skarsgård. O filme faz deles pai e filha, ele um realizador de cinema em pausa criativa, ela atriz de Chekhov a atravessar momento de falta de confiança. A relação de ambos foi dolorosa toda a vida. Um projeto de trabalho comum (financiado pela Netflix, que ironia) abre-se como hipótese de aproximação mas as personagens terão de percorrer longo caminho para perceberem se valeu a pena a tentativa.
Há uma ideia forte por trás do filme, do seu jogo de espelhos a imitar a vida: é a de que o fingimento, uma vez levado a sério, pode por momentos fazer esquecer a realidade, permitindo-nos olhar para ela e redescobri-la sob outra perspetiva. Gustav, assim se chama a personagem interpretada por Skarsgård, sabe que não foi um bom pai para Nora e sua irmã Agnès (Inga Ibsdotter Lilleaas). Colocou-se sempre a si próprio em primeiro lugar, num conforto egocentrista que os cineastas nórdicos, goste-se mais ou menos deles, têm sabido desmascarar em Cannes (pelos filmes de Ruben Östlund, por exemplo).
▲ “Sentimental Value”, de Joachim Trier
Sem tombar nos exageros de quem compara este cinema a Bergman (nem o maior cansaço festivaleiro justifica a idiotia), diga-se que o novo filme de Trier, cauteloso e sem pisar territórios obscuros, está impecavelmente escrito, é um êxito na direção de atores (aos citados junta-se Elle Fanning) e um passo acima do “perfume ligeiro” da obra anterior. “As pessoas que negam as emoções fazem escolhas terríveis”, disse o realizador. Em Cannes, colocou esse lado emocional em evidência.
Stellan Skarsgård é um forte candidato à melhor interpretação e o filme a um prémio de relevo, se não mesmo à Palma de Ouro (porque é de consensos, de agrado maioritário – e os júris dividem-se). A medir pela ovação, aliás, já a ganhou.
Paul Mescal e Josh O’Connor em “The History Of Sound”: “sentimental valium”
Programado no mesmo dia, o filme de Trier roubou grande parte da atenção que o festival dedicou a The History of Sound, do sul-africano Oliver Hermanus. Aqui o tom é outro pois percebe-se cedo que estamos perante personagens que, de facto, já negaram as emoções e não há volta a dar, por cobardia, por indiferença, fizeram a cama em que se deitaram. No caso, dois jovens musicólogos (Paul Mescal e Josh O’Connor), um cantor, outro compositor. Em 1917, recolhem música tradicional folk no Estado americano de Maine. Apaixonam-se, vivem em segredo esse amor consumado – mas aquela época de I Guerra Mundial não é tempo de se sair do armário. E as vidas separam-se, fatalmente, com casamentos pelo meio e muita amargura cozinhada em lume branco, já que nunca os dois homens deixarão de amar-se.
▲ “The History of Sound”, de Oliver Hermanus
À saída da sala, não houve cão nem gato que não dissesse que a história de Lionel e David (assim se chamam as personagens) era uma versão de O Segredo de Brokeback Mountain quando, na verdade, pela delicadeza do trato e dos gestos, parece-nos que Hermanus está mais próximo de fazer a corte a outros romances, a outras formas de folhear o tempo, como no cinema de um Terence Davies, por exemplo. Mas The History of Sound não sustém essa comparação. Às tantas rebentam as comportas, o melodrama toma conta do jogo. O filme contém-se, nas plateias mundo fora vai haver choradeira da grande, quem sabe se coroada a Óscares no próximo ano.
Em Romería, a catalã Carla Simón volta a falar de experiências vividas e a assumir uma linha autobiográfica (não diretamente exposta) de Verão 1993 e de Alcarrás – mas uma vez mais em diminuendo, facto preocupante. Verão 1993 é ainda o seu melhor trabalho. Aqui temos uma espécie de alter-ego da cineasta (Marina/Llúcia Garcia) em viagem à Galiza, à cidade de Vigo, no verão de 2004, ao encontro dos avós paternos que ela nunca conheceu. O pai e a mãe, toxicodependentes, morreram de Sida nos anos 80 do consumo de rock e “cavalo”. Esta é, de facto, a história dos pais biológicos da cineasta, uma ficção emprestada à vida em que a filha adotada vai à procura da verdade.
Tal como nos filmes anteriores, a família é uma estrutura complexa que se vai descascando camada a camada, como uma cebola, entre silêncios, segredos, princípios éticos que deixaram de fazer sentido, mas sem a escapatória que Alcarrás proporcionava, por exemplo, com o mundo do trabalho na quinta. Neste caso, Carla Simón parte de uma estrutura de cinema que se socorre de datas e que está datada. Sente-se no filme o folhear das páginas do seu argumento.
▲ “Romería”, de Carla Simón
Mas voltemos às questões de identidade não assumidas na história da obra de Hermanus, recuperando um filme exibido nos primeiros dias do festival que talvez conte para o júri a nível de interpretações femininas: La petite dernière, realizado pela bem conhecida atriz francesa de origem magrebina Hafsia Herzi (poderemos vê-la em breve nas salas por A Prisioneira de Bordéus, a contracenar com Isabelle Huppert). Adaptação do romance epónimo de Fatima Daas, é a história de uma rapariga de 18 anos, um bocadinho maria-rapaz, em casa de mulheres de origem argelina, mãe, tias, irmãs. Fatima sente-se atraída por outras mulheres face aos conflitos familiares que tal escolha implica para uma jovem muçulmana lésbica. Prende-se de amores por uma rapariga franco-coreana que é outro espelho da imigração em França. La petite dernière é limitado a nível artístico mas está à altura da realidade que retrata, no seu pudor, na história de aprendizagem do amor e do sexo, no seu apelo à tolerância e à inclusão.
Kristen Stewart 1 – Scarlett Johansson 0
No que toca a atrizes-cineastas, Cannes batizou duas, com resultados bem diferentes. Eleanor the Great, sobre uma nonagenária americana, judia (papel de June Squibb), que se muda para Nova Iorque, ao encontro da filha, após a morte da amiga com quem partilhou sete décadas, é um filme discreto sobre uma dor alheia que Scarlett Johansson não consegue sentir nem sintetizar a nível dramático. A atriz falha o seu primeiro passo na realização.
▲ Kristen Stewart em Cannes na estreia de “The Chronology of Water”
Corbis via Getty Images
Já The Chronology of Water, com Imogen Poots no papel principal, percurso da existência torturada de Lidia, traumatizada na infância pós-abusos paternos, é um filme de ganas, frenético, focado numa personagem com queda para a auto-destruição desde a juventude, nas décadas de 60 e 70. Kristen Stewart adaptou com singularidade o livro de memórias de Lidia Yuknavitch. Fez o que quis, como quis, experimentou, fragmentou uma biografia em pedaços. O resultado é surpreendente.