Um jogo de mahjong, um gravador pequeno H. Delty, uma caixa de pic nic, uma ventoinha eléctrica, uma cama de ferro, uma pele de leão, uma mesa de armar pequena (com as iniciais D.O.S.), um centro de mesa com golfinhos, um despertador velho, dois dentes de elefante, um balouço em ferro, uma moldura em prata com o retrato de Pio XII, et etc etc. Do rés do chão ao sótão, da cave ao primeiro andar, o inventário do recheio tem surpresas para todas as perplexidades, ao longo de 21 páginas — incluindo uma cadeira de braços que ajudou a reescrever o guião. Trata-se da longa lista de bens que se encontravam na residência de São Bento e que foram retirados no dia 30 de setembro de 1970, no rescaldo da morte de António de Oliveira Salazar. Mas a montra do antigo regime vai muito para lá das estantes, caixas e baús que povoavam as assoalhadas oficiais reservadas ao seu líder. “O Estado Novo em 101 Objetos” (editora Lua de Papel), da jornalista Fernanda Cachão, alarga esse retrato visual e material. Por aqui cruzam-se o livro de matrícula de meretrizes, o microfone da emissora nacional, o livro de António Ferro, o manual da PIDE, o anúncio ao contracetivo, as ementas da TAP (com caviar, conhaque e corridinho), o Chrysler que permitiu a fuga de Caxias a oito comunistas, ou o edital sobre a moral das praias.

O convite partiu do editor José Prata, inspirado no livro de Roger Moorhouse, “The Third Reich in 100 Objects: A Material History of Nazy Germany”, para um trabalho de investigação, recoleção e escrita, neste vitrinismo do tempo e dos modos do antigo regime, que demorou cinco anos. Para a autora, era fundamental encontrar encontrar objetos da época, que tivessem uma história para contar. Uma história que fosse paradigmática do Estado Novo, “que mostrasse o que foi a ditadura e como era viver naquela ditadura.”, define ao Observador. Essencial também, ao desfiar as origens de cada peça, era escapar a tendências que desvirtuassem este acervo, demasiado leve e efémero ou por outro lado contaminado por julgamentos. “Não queria fazer um livro de memória, fofinho ou giro (como está na moda), nem sectário. Queria que respeitasse as pessoas que viveram a ditadura, que são de algum modo vítimas, pois tanto são as que perderam emprego como as que foram presas ou aquelas que não puderam estudar. Foi uma ditadura longa, se contarmos com o regime militar que saiu do golpe de 28 de maio de 1926 e que antecedeu o Estado Novo: 48 anos.”

A capa da obra, uma edição Lua de Papel

Entre “negas, impossibilidades, erros e atrasado” que marcaram o caminho, como habitual numa empreitada desta natureza, acredita que todos os revezes tiveram um propósito, ciente de que a longevidade do regime analisado representou uma dificuldade extra. Para a editora da revista Domingo, tornou-se claro que teria de fazer uma seleção de objetos que acompanhasse essa linha de tempo e não se concentrasse no início do regime, por exemplo. Ao contrário do que eu durante algum tempo pensei, ‘tenho de encontrar 101 objetos, e pronto’ — a lista não esteve fechada mesmo até ao final. Não só as histórias de alguns objetos excluíram outros – porque repetiam pessoas ou factos – como surgiram durante as pesquisas coisas interessantes, que não podia ignorar.”.

Folheando as mais de 600 páginas de “O Estado Novo em 101 Objetos” é fácil detetar a prevalência de referências como documentos, cartazes, processos, fichas e etc. Também para essa omnipresença há uma boa razão. “O país é pequeno e a ditadura mais longa da Europa Ocidental estava apoiada numa elite muito pequena também e numa extensíssima máquina burocrática, daí se explica a quantidade de objetos no livro que são de papel. Curiosamente, ou talvez não, foi de fora que chegou um dos objetos mais simbólicos das contradições do timoneiro, encomendado à histórica casa que serviu Churchill, Wilde, Chaplin e muitos frequentadores assíduos do número 6 de St. James’s Street, a mais antiga chapelaria do mundo “Personificando a figura do líder, entendido como ‘guia espiritual do povo para as vitorias do seu destino’, como escreveu o ministro Carneiro Pacheco em Retrato do Chefe, publicado pela União nacional, Salazar deveria apresentar-se de acordo com o papel de que estava investido. Em 1940, para a inauguração da Exposição do Mundo Português, mandou fazer o chapéu de feltro que aqui mostramos, à famosa Lock & C. Lad. Hatters, em Londres, apesar de Portugal ter uma forte indústria chapeleira.”

Entre perguntas e respostas rápidas, a autora guia-nos por este conjunto.

Entre estes 101 objetos, qual lhe despertou maior vontade de fazer um outro livro apenas centrado nele e porquê?
O Diário do Governo. Valeria a pena fazer uma recolha e estudar o edifício legislativo do Estado Novo. Mas, provavelmente, não venderia…

Se só pudesse eleger um, qual seria o mais representativo da montra do Estado Novo?
O chapéu de Salazar. Eu não quis ter no livro objetos pessoais dos homens do regime. E esta foi a única exceção. O chapéu mostra um bocadinho do jogo de espelhos onde se projetava a imagem do regime e do seu fundador. Aliás, ao longo do livro aparecem várias contradições – o culto do pobrezinho honrado, dos preceitos morais, em contraste com atos de vaidade e de ostentação, de esbanjamento.

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Salazar com o seu chapéu de feltro made in England © Getty Images

Qual foi o primeiro objeto que tratou para este livro, a ponta do icebergue nesta investigação?
Não houve exatamente um primeiro (ou então já não me lembro). As lições de Salazar, o decálogo, o livro da Maria Lamas foram dos primeiros.

E o último?
Não sei se foi o último, mas foi dos últimos. A máquina de costura da Oliva. Mais uma vez, não queria objetos do quotidiano daquele período histórico; – a maior parte deles não têm a ver com o tipo de regime político. Até descobrir que a máquina de costura que as nossas avós tinham em casa era um exemplo da condição feminina durante a ditadura e mais ainda, um exemplo de empreendedorismo e da forma como o regime encarava as iniciativas empresariais.

Que objeto lhe parecia à primeira vista pouco relevante e acabou por trocar-lhe a voltas e surpreender?
O isqueiro da Cruz Vermelha Portuguesa oferecido aos soldados da Guerra Colonial, no Natal de 1970; – de repente estava a falar sobre a caridade das senhoras do Estado Novo, de jornais, da pobreza, da forma como o governo lidava com as tragédias e catástrofes naturais e de como a elite dominante se perpetuava nas obras do Estado Novo. E tudo isto num texto relativamente pequeno.

O mapa “Portugal não é um país pequeno”

Olhando em retrospetiva, há algum objeto que teria hoje deixado de fora (ou trocado por outro)?
Não, ainda não tive arrependimentos.

Que objetos (três por exemplo) incluiria se tivesse direito a uma brevíssima adenda?
Algo relacionado com a brigada que matou Humberto Delgado, o carimbo da censura e não propriamente a marca que ele deixava (houve vários carimbos de censura no século XX, relacionados, por exemplo, com a censura militar durante as guerras) e o cavalo-marinho, que é um chicote africano usado pela PIDE.

Qual foi o mais difícil de encontrar ou rastrear e porquê?
O carimbo da censura, pela razão apontada acima.

Qual o que mais dúvidas ou hesitações gerou?
Todos geraram muitas dúvidas e hesitações, até serem ultrapassadas.

Qual deles imagina que seria mais estimado pelo Estado Novo? E temido?
O mais estimado e simultaneamente o mais temido, e que escolho também pelo simbolismo: a chave da prisão política (no caso, a de Peniche). Importante para manter presos os opositores ao regime, maioritariamente comunistas. Há pessoas que passaram uma vida a entrar e a sair das prisões. A partir da última década e meia da ditadura também começaram a ser presas com mais frequência pessoas de outras formações políticas como as de extrema-esquerda, mas também os estudantes, católicos progressistas e os opositores à guerra colonial.

O castro do PIDE

E aquele que tinha mais pó quando chegou ao seu encontro?
Talvez a revista Menina e Moça.

Por fim, de todos os objetos do inventário da casa de Salazar, entre balouços, dentes de elefante e copos com a sua própria efígie, quais destacaria como mais curiosos?
A quantidade de imagens do próprio, a qualidade da roupa de cama (seda), coisas exóticas como os dentes de elefante, que menciona, e sobretudo, a cadeira de lona sobre a qual podemos especular se não seria aquela de onde caiu o ditador. E se em vez de a ter atirado das muralhas do forte para o mar, como já se especulou, fantasiosamente, a governanta Maria Jesus levou a cadeira, pura e simplesmente, para o Palacete de São Bento?!…