Eduardo Gageiro estará para sempre ligado ao 25 de Abril de 1974, mas o seu trabalho vai mais além do que esse acontecimento que marcou a história de Portugal. Ao longo de várias décadas de trabalho, captou a essência do país, registou ataques terroristas, retratou muitas personalidades e marcou a cultura visual portuguesa.
Foi através da fotografia que Eduardo Gageiro enriqueceu a cultura visual portuguesa e o seu trabalho dá, a quem o vê, uma perspetiva histórica. Nos momentos-chave dos últimos (mais de) 50 anos, a câmara esteve sempre presente – com um olhar atento, humano, implacável e artístico.
Em 1962, na sequência da fotografia “Viúva da Nazaré”, que foi capa d’O Século Ilustrado e lhe valeu vários prémios pelos cinco continentes, é preso pela PIDE. A fotografia, que mostrava uma senhora de idade, vestida de negro, numa posição vulnerável por estar a trabalhar com pescadores para ter o que comer, foi considerada um incómodo pelo Estado Novo. Gageiro é libertado após pressão de correspondentes da Associated Press junto do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício.
Onde estava a notícia, estava Eduardo Gageiro e no dia 5 de setembro de 1972 não foi excepção. Durante os Jogos Olímpicos de Munique, torna-se num dos poucos fotojornalistas a retratar os terroristas do grupo Setembro Negro, que sequestraram de helicóptero e assassinaram 11 atletas israelitas e um polícia.
De todos os prémios que recebeu — e foram muitos — o mais importante foi o World Press Photo, em 1975. Com uma fotografia do General António Spinola, Eduardo Gageiro foi o primeiro português a conquistar o mais importante prémio de fotojornalismo.
Os inúmeros retratos que fez também marcaram a sua carreira. Dos mais aos menos conhecidos, recordamos a imagem de Raul Solnado a espreitar de um bueiro na ponte sobre o rio Tejo, José Régio na cama, Amália Rodrigues à porta de um carro em Alfama, António Ramalho Eanes a observar com um óculo um dos relógios de bolso da sua coleção ou Sophia de Mello Breyner na janela a escrever.
Eduardo Gageiro morreu na madrugada desta quarta-feira, 4 de junho, em Lisboa, aos 90 anos. Deixa para a História um espólio de décadas de trabalho que retrata, de forma fiel, as realidades políticas, sociais e culturais de Portugal antes e depois da revolução do 25 de Abril de 1974.
Reveja as melhores fotografias que o Eduardo Gageiro fez ao longo da carreira na fotogaleria acima.