No chão, um quadrado amarelo que divide o elenco de diferentes objetos, distribuídos pelos quatro traços florescentes. A acompanhar a cenografia, uma plataforma em xadrez e mais uns três traços no centro, em azul néon. Esta cor delimita uma porta que faz a ligação com um conjunto de histórias que duram uma fração de segundo. É a partir de uma voz off – que acompanha toda a peça – que as construções coreográficas vão sendo desenvolvidas pelos intérpretes, sempre naquele quadrado. O amarelo. King Size chega-nos pela voz de Sónia Baptista.
É no escuro cerrado do palco que apenas a voz se afirma. Os corpos chegam a seguir. Mas é quando uma ventoinha ligada a um holograma começa a funcionar que uma mensagem de outro mundo se ouve e a interpretação começa. Esta mensagem é de um deus. E este deus não parecer ser das pessoas. Não se chama “Deus” e é uma figura que não segue a normatividade: é um deus em forma de poodle – uma espécie canina, domesticada, reconhecida por uma estética aprimorada, efeminizada, “antagónica de estereótipos de masculinidade normativa associada a outras espécies caninas”, acrescenta a coreógrafa que também integra o espetáculo, juntamente com com Ana Libório, Crista Alfaiate, Maria Abrantes e Joana Levi
Já a porta azul, essa “transforma”. Estabelece as passagens de uma queerização, das cenas e da celebração da resistência queer. Sobre esse processo de passagem, King Size nasce de um desejo: trabalhar as questões da performatividade e da masculinidade.
“Existe uma ideia generalizada de que o que é performativo é a feminilidade, porque as pessoas que se identificam com mulheres acrescentam coisas. Estão sempre a acrescentar atributos, maneiras de estar, maneiras de falar, maquilhagem, purpurinas, o cabelo, o vestuário… enfim, é tudo muito mais histriónico e expansivo, colorido”, explica.
Já a masculinidade é entendida como “o estado natural”, aquele que, tal como a coreógrafa refere, é lido como “o modelo sobre qual tudo o resto se rege em relação a um estar masculino”. Mas nada do que se torna normativo pode ser lei.
Os papeis de género, assim como a reflexão social e política, são temas centrais no entendimento de uma peça que parte do cómico, do “excesso” performativo, para nos lembrar que a “masculinidade também é uma coisa que se aprende, que se adquire e que é imposta”. Segue regras. Uma delas é o despojar, “tiram-se expressões faciais, tiram-se cores, é um estado mais sóbrio e que, na verdade, também é uma construção social”, vai explicando Sónia à medida que nos faz viajar no tempo até à Revolução Francesa, no século XVIII.
“Também se identificava como homem quem colocava perucas, quem se maquilhava, quem usava plumas”, avança. Foi após surgir o movimento “A grande renunciação masculina”, que tudo mudou. A representação, a vestimenta, o estar. É exatamente isto que Sónia Baptista tenta virar do avesso. As ideias, os preconceitos: “Nenhum campo destes nos representa”, diz.
Centrando-se nas figuras que encarnam os mitos masculinos, “é preciso afirmar que todos os nossos estados são construções sociais e que não nascemos assim naturalmente, porque nascemos numa sociedade com imposições”, reconhece, lamentando viver numa sociedade que, em 2025, ainda tem de falar, lutar e reivindicar todas as liberdades que a peça representa.
Se em objetos artísticos anteriores a coreógrafa recorria à invisibilidade como uma estratégia de proteção de quem se sabe alvo fácil e sistemático da opressão dos outros, neste momento teatral que sobe a palco, o cão queer, híbrido, que rompe com noções hierárquicas de pureza e com os binários de género, em momento algum se quer esconder. Não quer ser colocado em caixas quadradas, fechadas, compartimentadas. Tal como o quadrado amarelo: “Vivemos crises muito graves e sérias, em termos sociais políticos, e acho que a dificuldade de visitar as caixas uns dos outros, de compreender, de sentir empatia com outros modos, de ser e viver, com esta rejeição da liberdade para se poder ser o que se quer é muito problemático. A peça trata esta tentativa de criar empatia em relação à vida e à liberdade”.
Os jogos de palavras que se revestem no xadrez pautam o movimento. Umas vezes com o poodle no rosto, outras sem, quem está ao microfone assume o camp, não se rege por ideias de “naturalidade”, mas valoriza o artifício, a ironia, a teatralidade, e celebra a resistência queer.
Mesmo que King Size não seja entendida como uma estreia, deveria de ser. Não só por assumir a sala Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, entre os dias 6 e 15 de junho, mas também porque ao longo da edição de 2025 do Festival Dias da Dança (DDD) resistiu em cena tanto quanto podia. Até a um apagão, que lhe retirou dias de ensaio, de testes, de aconchegos aqui e ali.
Se podia existir noutros registos e dispositivos? Talvez. Mas tal como a coreógrafa menciona, apesar de se presenciar um boot camp e um lipstick, este não é show drag. É uma peça com uma dramaturgia completamente teatral, apresentada numa sala que evoca uma história muito profunda — a do bailarino Valentim de Barros. “Mantido num hospital psiquiátrico por causa da sua sexualidade, durante toda a sua vida, tudo isto não nos deixa esquecer o silenciamento, o apagamento e a tentativa de resistir. Valentim era uma pessoa que só queria ser, fazer a sua arte e viver”, termina Sónia Baptista.
E hoje? Assim como o poodle, queremos sobreviver. Se a coreógrafa não se recorda do “antigamente”, mesmo tendo nascido numa altura onde a liberdade não existia – 1973 — há uma coisa que não esquece (nem quer esquecer): “Luto, porque gostava muito de não morrer sem liberdade, e tenho pensado muito nisto todos os dias”.
Voltamos ao quadrado amarelo. Ainda com as mesmas dimensões, insere agora vários objetos. Monta-se um concerto que recorda harmonias que praticamente todas as pessoas reconhecem: The Final Countdown, dos Europe. “E quem somos agora?” Ouve-se. Os intérpretes cruzam a porta. Tudo escurece até que o deus – que não é Deus – reaparece. Uma luz inunda o palco fazendo-se ouvir uma expressão — “my all religion”—, repetindo-se uma e outra vez com um objetivo único, o mesmo que talvez acolhe esta peça: redefinir as relações entre natureza, género e sexo.
“King Size” entra em cena nesta sexta-feira, dia 6 de junho, prolongando-se até dia 15, entre diferentes horários (16h-19h-20h-21h). A peça é dirigida a maiores de 16 anos.