Não é um rio é o segundo livro de Selva Almada (Argentina, 1973) publicado em Portugal, seguindo-se a Raparigas Mortas (D. Quixote, 2017). Aquando da sua primeira publicação, El viento que arrasa, em 2012, a autora foi largamente elogiada, tendo o romance recebido o First Book Award no Festival Internacional do Livro de Edimburgo, em 2019. Já este Não é um rio recebeu o prémio ILA — Letteratura 2023 (Itália) e foi finalista do IV Prémio Bienal de Romance Mario Vargas Llosa (2021), do Prémio Fundación Medifé Filba 2021 (Argentina) e do Prémio Booker Internacional (2024). Depois de lido, embora a novela tenha os seus méritos, fica uma sensação de coisa pouca ou de coisa que não chegou a ser bem concluída. Afinal, as fragilidades da novela estão ali escancaradas – não por incapacidade da autora, mas porque a estratégia falha no estabelecimento de um vínculo com o leitor.

É bem verdade que o economicismo da prosa de Almada tem sido elogiado, mas, ao ler, não consigo deixar de pensar e de sentir que escrever assim é seguir o caminho mais fácil. Ao longo da leitura, não se encontra um enredo ou um fio narrativo claro a ser seguido. As personagens também não são densas ou compactas, o que faz com que, aqui e ali, pareçam fantoches, ferramentas para conduzir a um efeito, e não gente real. Em vez dessa coesão, há pontos de contacto, fragmentos que, num momento ou noutro, são atirados para a tela, tentando compor uma imagem, mas tudo é visto ao longe, o que leva a crer que a autora tenha abdicado do esforço de produzir uma coisa calibrada. A estrutura cambaleia, não parece haver perguntas nem respostas, tudo é sugestão. No meio disto, mais do que de texto, parece que a novela se faz de ausência de texto, cabendo ao leitor descortinar, entender esses vazios. O problema é que, com o texto à frente, tudo sabe a resumo, tudo sabe a preguiça, e o intuito de secar a prosa é de tal forma escancarado que a prosa sabe a coisa infértil. Os diálogos, demasiado curtos, demasiado rápidos, parecem mais meta-diálogos do que gente a falar. E mesmo as acções parecem mais meta-acções do que gente a viver.


Título: “Não é um rio”
Autora: Selva Almada
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: D. Quixote

Páginas: 136

Em Não é um rio, Enero e El Negro, dois amigos, levam Tilo, o filho de um terceiro amigo, entretanto morto, de barco a pescar no rio Paraná. A viagem, aparentemente trivial, vai aos poucos sugerindo momentos de culpa, de raivas não resolvidas ou de coisas por resolver. A forma verbal sugerindo em vez de revelando não é um pormenor: com uma narrativa quase minimalista, o não dito pesa mais do que o que é exposto, preto no branco. Observa-se o silêncio constante entre as personagens, e, ainda que a autora tente que a sugestão sirva para as compor, a verdade é que o leitor não consegue atar-se a nenhuma delas. Não é que seja necessário pegar num conflito e mostrá-lo como um espectáculo, ou sequer dar a papa toda a quem lê, mas é necessário, e aqui a autora falha, que cada personagem tenha corpo suficiente para se fazer sentir do outro lado, para que o leitor se importe – e, portanto, atente no que lê e em quem lê. Com tanta distância, a autora abdica do elo de empatia que podia criar com o leitor. O tom é, assim, quase poético, sugerindo-se, quase como numa pintura, uma certa reverberação íntima, mas ficam a faltar consequências no texto e o impacto nos leitores.

Nisto, a própria natureza cumpre um papel de personagem, mas também isso parece desviar a atenção das personagem humanas. O rio, a mata à volta e os animais não são pano de fundo. Em vez disso, funcionam como entidade mística que põe a tónica nos estados emocionais dos dois homens e do rapaz. Pelo meio, há uma espiritualidade pagã a dar corpo à narrativa, com os elementos naturais a guardar e a sussurrar as violências do passado.

Ao optar por estruturar a narrativa nos vazios e nos silêncios, a autora perdeu a hipótese de criar personagens que digam alguma coisa ao leitor, que lhe ganhem a empatia. Assim, a novela funciona mais como jogo de meta-linguagem, não reproduzindo a vida, não a sugerindo de uma forma válida ou compacta. Isto faz com que a própria estrutura, por parecer mera matemática, sirva mais como puzzle do que como estratégia de criação de uma relação dialógica com quem lê – ainda que o leitor tenha sempre de lá estar a tentar encontrar e preencher os tais vazios.

A escrita de Selva Almada é seca, e às vezes quer-se sumo. Escrita no presente do indicativo, a novela vai tendo laivos de didascálias o tempo todo. Vivendo da insinuação, do sub-texto, não consegue mais do que um jogo de meta-representação. Ainda assim, a prosa é elegante, e o livro funciona para quem prefere o jogo da ficção à vida na ficção.

A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.