François Schaar (Daniel Auteuil) é um advogado famoso e mediático que está a representar as famílias de duas meninas que foram barbaramente assassinadas, após terem sido raptadas por um criminoso que fornece crianças a pedófilos. Pouco tempo depois de ter anunciado aos media que abandonou o caso, por estar a sofrer “pressões” que não especifica, o escândalo rebenta: Schaar é detido pela polícia, por ter usado o seu computador para visitar sites de pornografia infantil e recebido imagens da mesma índole por mail, e é revelado que, muitos anos antes, o jurista abusou sexualmente do cunhado, então adolescente.
Este é, em traços largos, o enredo de Um Silêncio, do belga Joachim Lafosse, que decalca em quase todos os aspetos o caso do advogado Victor Hissel, que em 1996 representou em tribunal o advogado das famílias de duas das crianças raptadas e assassinadas por Marc Dutroux, e que em 2008 foi preso sob a acusação de posse de pornografia infantil e de ter frequentado milhares de vezes sites pedófilos. Hissel defendeu-se dizendo que havia sido vítima de abusos sexuais por um familiar próximo na infância. Em 2009, quando aguardava julgamento, o seu filho Romain tentou matá-lo à facada.
[Veja o “trailer” de “Um Silêncio”:]
Lafosse está muito menos interessado no caso criminal do que em explorar o efeito das revelações sobre a família do advogado. Aquele é o cabide em que o realizador pendura a história principal. Passa-se que quer a mulher de Schaar, Astrid (Emmanuelle Devos), quer a do cunhado (que nunca aparece), sabiam de tudo e nunca disseram nada ao longo de 25 anos, e só agora, com a prisão daquele, reagem. Quando ao filho do casal, Raphael (Matthieu Galoux), é apanhado de surpresa quando a mãe lhe conta tudo, e de forma casual, e confessa mais tarde à polícia que, após ter descoberto os sites de pornografia infantil no computador do pai, foi visitá-los no seu.
[Veja uma entrevista com o realizador:]
Rodado com uma câmara discretíssima (um dos acontecimentos mais importantes e chocantes da história, o esfaqueamento de François pelo filho, dá-se fora de campo), um silenciador dramático e um amortecedor emocional, Um Silêncio é a crónica elíptica, sugerida, sussurrada, reservada, de uma devastadora implosão familiar, mas cujas ondas de choque pedem um estetoscópio para ser captadas, de tão subterrâneas. Joachim Lafosse quis rodar um filme de zonas cinzentas e não a preto e branco moral ou com as cores berrantes do sensacionalismo, um filme de observação e de escuta — e não de exibição e explicação.
Só que, e apesar de contar com atores do calibre de Auteuil e Devos, o realizador foi longe demais na estratégia do não-dito, do recato, da elisão, do abafar tudo. Ao ponto de criar uma distância excessiva em relação ao espectador e bloquear qualquer tipo de tensão e vibração, de empatia e antipatia, e até de compreensão do comportamento e da cabeça das personagens (porque é que Astrid sempre encobriu o marido? Como é que este levou a sua avante durante tantos anos?), tão imperscrutáveis que ficam como pontos de interrogação ambulantes. Ao evitar fazer um filme melodramático ou de sobressalto e conflito, Joachim Lafosse drenou Um Silêncio de dramatismo, comoção e impacto. E transformou-o numa coisa fosca e mortiça.