A premissa agarra logo: um filho decide cortar todos os laços com o pai e a mãe. Ei-lo uma década depois, já sem contacto. Tendo mudado de casa, de número de telefone de país, constrói um muro intransponível entre si e os dois marcos principais do seu passado. É esta a ideia central de O aniversário, de Andrea Bajani (n. 1975), autor italiano que já foi publicado em cerca de vinte e cinco países.
Ao longo do livro, é claro que a fuga é libertação. Durante muitos anos, o vínculo está lá, mas é um vínculo torto, mantido por obrigação. A páginas tantas, o narrador lá percebe que só há paz se não houver pai e mãe. Em especial, pai – esse que mantinha a mãe na sua alçada. Enquanto vai delineando o seu crescimento, o narrador mostra de que forma a mãe funcionava como coadjuvante, semi-pessoa, sombra. Até os livros que lia eram tratados como coisa menor.
“isto é um livro para a tua mãe” sempre significou, nas palavras proferidas pelo meu pai, que um romance não valia nada. (p. 58)
A certa altura começou também ela a dizer “estes são livros para mim”, olhando-se de alguma forma com os olhos do meu pai. Ou seja, mantendo, através da auto-humilhação, apenas a parte do chamado afeto. (p. 59)
Tudo no livro parece autópsia emocional, sendo cada fragmento da relação entre os três visto por uma lente que faz foco na tensão. Relatado em fluxo de consciência, o ambiente familiar aparece de forma quase cirúrgica – cada cena é desenhada de forma subtil, com o leitor a intuir tanto o dito quanto o não-dito. Da mesma forma, o narrador, ao telefonar para casa já depois de se ter mudado, distinguia bem o que era ter a mãe só para si ou tê-la com a mãe ao lado. A violência, por isso, existia também como medo, como hipótese – e não necessariamente como um soco a chegar à cara.
Resignada e neutra, silenciada pela força do marido, a mãe aparece quase como arquétipo de mulher vencida – e de mulher tão habituada à ideia de esposa e de submissa que por vezes se esquece de ser mãe. Com isto, o silêncio – mais do que a ausência de voz – parece ser a própria matéria do livro. A voz da mãe é coisa curta, e a relação faz-se com camadas de medo em cima. A própria saída de cena do filho é mais uma reintrodução do silêncio enquanto matéria – afinal, decide-se pela retirada radical da vida familiar, num movimento quase monástico, numa altura em que os vínculos pareciam diluídos pela repetição de acções. Por exemplo, num telefonema, a mãe parece quase indiferente à possível morte da companheira do narrador.
Título: “O aniversário”
Autor: Andrea Bajani
Tradução: Sofia Ribeiro
Editora: Alfaguara
Páginas: 144
Na forma como a personagem está desenvolvida, tudo é a lassidão do hábito e nada o desafia, nada importa, nada mexe. O filho conta os pequenos gestos de humilhação que, a sós, pintam um quadro, e uma vida inteira vivida sob um medo aprendido, provocado pelas mãos de um homem que está longe de ser um monstro: em vez disso, repete um padrão de autoridade como forma de controlo. O corte do narrador aparece como uma resposta definitiva a uma estrutura doméstica que o sufoca e o obriga, que cria um contacto permanente em momentos em que não há nada para dizer, e a libertação vem não só do pai autoritário mas também do silêncio cúmplice da mãe. E, no que é uma boa decisão do autor, não há um único gesto de redenção (um telefonema, uma carta, uma explicação activa) que acalme os pais. Uma década após o corte, há um reencontro físico, e também aí se vê a distância emocional. Quisesse o autor ser mais amplo, e poderia ter dado corpo a estes elementos na narrativa, sendo para isso obrigado a aumentar o romance em termos de voz – ou seja, a criar-lhe mais vozes que dessem outras perspectivas a quem lê ou a contar a história na terceira pessoa.
Em termos de prosa, a contenção de Bajani é dos elementos mais relevantes do livro. O corte com os pais é delineado com comedimento, fruto de uma disciplina emocional que talvez derive daqueles anos em que teve de se domar, vendo a mãe domar-se – ou, pior, vendo que a mãe parecia ter pouco para domar. E a ausência de drama num gesto tão drástico é fruto de uma série de decisões que permitem cumprir esse propósito: a prosa do autor é límpida, curta, economicista. Não há palha nem capítulos longos nem diálogos. Todo o livro é uma abordagem clínica à interioridade do narrador. Lê-lo é radiografá-lo.
Como o narrador se vai impedindo, sempre que pode, de ser emocionalmente contaminado, a prosa acompanha esta ideia. Ou seja, a forma mimetiza o conteúdo. Ei-lo a montar um enredo sem adornos, de forma quase clínica, sem nunca embelezar a vida pela cedência à nostalgia. Claro que isto, aqui e ali, também terá os seus problemas, uma vez que a contenção também reduz a amplitude do livro. Como o leitor não tem acesso aos estados de alma das outras personagens, e como a acção é mais a impressão de uma delas do que o seu registo asséptico, que só seria permitido por um narrador confiável, ou seja, não-participante, pode sentir-se distante da acção, ou julgar que está em O aniversário mais uma espécie de consideração sobre o trauma do que um romance per se. Lacónico, aqui e ali o narrador parece opaco, ausente, frígido.
Além disso, como o leitor sabe a priori que há um corte entre os filhos e os pais, e como a prosa evita altos e baixos, a narrativa avança sem grandes pontos de tensão. Com isto, o impacto inicial, que leva à leitura do livro, acaba por não ganhar pontos a posteriori. Ainda assim, dentro dos propósitos a que o autor se colocou, o livro cumpre o seu efeito – embora fique claro que podia ter ido além, ter procurado uma coisa mais ampla, tanto do ponto de vista do enredo quanto da densidade psíquica das personagens.