“Uma figura esbelta, alta, de olhos azuis”— a descrição não é de uma qualquer pessoa, mas de Matt Bellamy, vocalista dos Muse. Quem a faz é uma voz humana, saída dos headphones de Francisco. “A descrição está superdetalhada”, diz este festivaleiro para quem o concerto do NOS Alive será o quarto dos Muse a que assistirá. Porém, este é o primeiro que Francisco acompanhará com o auxílio da Guia-NOS, app desenvolvida pela NOS Inovação para pessoas cegas, em parceria com a Access Lab, e que esteve em fase experimental no Alive.
Francisco, 33 anos, tem uma doença degenerativa da retina. Aos 17 anos começou a perder gradualmente a visão. Para ele, este projeto é “fantástico”: “É um longo caminho para que isto deixe de ser exceção”, diz, seguro de que a comunidade de pessoas com baixa visão tem de se chegar à frente para fazer ouvir a sua voz. Mariana, irmã que costuma acompanhar Francisco nestes espetáculos, também está entusiasmada com a experiência. “É bem melhor do que tu a fazer descrições”, brinca Francisco e os dois riem-se até que soa o início de Unravelling.
Entrando de mansinho, mentirosa, o novo single dos Muse explode no refrão, num misto de metal orquestral com nu metal, mas com mais néones à mistura. “A app está a explicar o jogo de luzes de palco e o que cada um tem vestido”, vai reportando Francisco. Enquanto Matt Bellamy enverga um casaco de cabedal com o desenho de um esqueleto e Dominic Howard veste uma camisa cava, Christopher Wolstenholme aparece com a camisola número 21 da seleção portuguesa de futebol. A atuação desta noite também é para Diogo J e a ovação é imediata.
▲ “A app permite-me contemplar pormenores que já não via há muitos anos”, diz-nos Francisco, um dos festivaleiros que testou a esta nova forma de viver um concerto. Na foto, Aliu Baio, porta-voz da experiência piloto
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Bastam apenas dois toques no telemóvel, continua Francisco, para que a Guia-NOS seja ativada. Apontando o ecrã para o que se passa à sua volta, consegue perceber o movimento das pessoas. Consegue perceber quem tem cabelos brancos ou um piercing no nariz. Percebe que o recinto está cheio, mas, ao contrário do que tantas vezes lhe aconteceu, hoje sente-se seguro por estar a “ver” os Muse – e é o próprio que usa o verbo “ver”, com um sentido de humor inato – numa área protegida, junto à régie. “Não estou preocupado com empurrões nem em me perder”, frisa, para lembrar as muitas pessoas com baixa visão que têm “medo de ir ao teatro, ao cinema ou a festivais”: “Temos que dar condições para que as pessoas se sintam incluídas e para que não sintam medo. É um direito que têm”.
Os Muse, como que concordando que o direito ao entretenimento deve ser para todos e deve ser servido sem contenção, resolvem mandar foguetes para o ar logo à terceira canção. Hysteria deixa a multidão assim mesmo, em histeria, num crescendo épico que se prolonga até Stockholm Syndrome, ambas faixas contemporâneas do disco Absolution (2003). Os foguetes voltariam em Psycho, com o baixo de Christopher Wolstenholme a iluminar-se com luzes led pelo braço fora, dado confirmado pela aplicação de Francisco. Na áudio descrição ouve-se ainda que “os músicos estão enérgicos, portanto estão a suar”.
▲ O baixista Christopher Wolstenholme esteve em palco com a camisola número 21 da seleção portuguesa de futebol. A atuação desta noite também foi para Diogo J e a ovação foi imediata
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“A app permite-me contemplar pormenores que já não via há muitos anos”, diz Francisco, ele que, a certo ponto do concerto, se tornou também nosso áudio guia. Estando a seu lado, percebemos certos detalhes que os nossos olhos não conseguiram tocar, como por exemplo a aliança de Matt Bellamy a brilhar no escuro, durante Madness, ou o seu pescoço a ficar vermelho com a intensidade com que interpretou Compliance, tema que acabou com uma chuva de serpentinas. Francisco, de auriculares nos ouvimos, mostrou-nos outras formas de olhar e, de repente, pessoas cegas e não cegas estavam a reaprender a ver umas com as outras.
Fechámos então os olhos para sentirmos como a galopada de Time is Running Out nos abanou o tecido das calças. Quando o baixo foi aos graves, o peito tremeu. Quando as baquetas de Dominic Howard se puseram furiosas na bateria, o nosso queixo rangeu. O corpo respondia à música e o corpo de Francisco ia balançando: ora com mais vigor, como em Knights of Cydonia – que teve Christopher Wolstenholme a fazer uma introdução na harmónica, a partir de Man With a Harmonica de Ennio Morricone – ora como se fosse uma borboleta a esvoaçar, como aconteceu em Unintended, tema de 1999 que nos levou até ao primeiro álbum de Muse, Showbiz, quando o trio britânico tinha como clara influência os Radiohead.
▲ A atuação no NOS Alive foi o 17.º concerto dos Muse em Portugal
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Houve muitos saltos temporais ao longo da hora e meia de concerto. Tempo para ir a Won’t Stand Down, de Will of the People (2022), e para Plug in Baby, de Origin of Symmetry (2011). Tempo ainda para um remix de The 2nd Law: Isolated System, cortesia do DJ e produtor Dan Lancaster, que acompanhou a banda nos sintetizadores, e que transformou momentaneamente o concerto num DJ set de techno. Domenic Howard acompanhou-o nessa pista de dança. “Os dois músicos interagem intensamente”, ouvia-se na aplicação.
Com Starlight, os Muse despediram-se do público português pela décima sétima vez na sua carreira. Lançaram novamente fogo de artifício, desta vez com explosões grandiosas, tão grandiosas que chegaram à retina de Francisco através de feixes de luz. “O que a aplicação me está a dizer, dá-me a certeza daquilo que estou a ver”: a certeza de que o futuro pode e deve ser mais nítido e seguro para todos.