Dos compositores diz-se que nunca morrem verdadeiramente enquanto alguém ainda ouvir uma das suas canções, mas no caso de Billy Joel, não morrer parece ser algo que estava predestinado: de outra forma, como se explica que tenha sobrevivido a duas tentativas de suicídio, uma bancarrota por via de fraude do seu gestor, três divórcios e várias fases de alcoolismo? Com Billy Joel, fica-se com a ideia, ao ver And So It Goes, o documentário da HBO em dois episódios — cujo primeiro já está disponível e o segundo se estreia no sábado dia 26 — que enquanto houver um piano para tocar, ele vai durar. Ou por outra: enquanto o mundo continuar a cantar Piano Man, ele vai cá ficar.
Billy Joel passou por muitas fases e é possível que a relação de cada um de nós com a sua música dependa da fase em que o apanhámos. Isto não é incomum: tendo nascido a meio da década de 75, conheci Elton John na sua fase ultra-pop, das Nikitas e dos vídeos exuberantes para a MTV. Mas nessa altura eu já ouvia os Clash, desmereci Elton, e só muito mais tarde descobri que nos anos 70 ele fizera discos gloriosos. Uma boa parte deste documentário é passado com Billy Joel a dizer que não é semelhante a Elton, mas há paralelos: ambos se apaixonaram cedo pelo rock’n’roll ao piano, ambos eram herdeiros da canção clássica à Tin Pan Alley, ambos foram durante um tempo baladeiros e depois tiveram uma fase ultra-pop nos anos 80, antes de se dedicaram a concertos de estádio – isto enquanto lutavam contra os seus vícios e traumas.
[o trailer de “Billy Joel: And So It Goes”:]
Isto significa que, na prática, só conheço algumas canções da fase de baladeiro ao piano de Billy Joel e depois os êxitos dos anos 80, que me esforcei por esquecer – era música que por norma se qualificava como M.O.R. (middle of the road, ou seja, sem personalidade, feita para agradar) ou A.O.R. (adult oriented rock, ou seja, música de guitarras que fingia ter vivacidade, mas que era chata). Nunca me tinha ocorrido, até ver o documentário, quão bom músico e letrista Billy Joel é – e quão próximo ele está das pessoas, seja a falar de um coração quebrado, do Vietname ou de uma amizade. Assistir a Bruce Springsteen a citar versos de Joel altera-nos a perspetiva – compreendemos o porquê de tanta gente se rever naquelas canções: elas refletem os dilemas das pessoas comuns.
Essa é, passe a expressão, a magia da arte: transformar em algo belo (ou que um sem número de pessoas acha belo, mesmo que eu continue a achar a música aborrecida) algo que nasce do trauma – que como todos os traumas que valem a pena, é familiar e remonta à infância, e que se não explica tudo explica pelo menos uma grande parte.
Joel nasceu numa terra minúscula e com um ano mudou-se com os pais e a irmã para Long Island. A mãe cantava em operetas às quais o pai também estava ligado – o pai que era um pianista excecional. A mãe de Billy pô-lo a ter aulas de piano clássico desde os 4 anos, mas o pai, apesar de ser pianista, não elogiava nem encorajava a aprendizagem do filho, que desde cedo se mostrou um sobredotado. Quando Billy descobriu o rock, resolveu uma vez aplicá-lo a um trecho clássico: o pai desceu as escadas e deu-lhe um chapadão de tal tamanho que Billy desmaiou.
▲ Billy Joel passou por muitas fases e é possível que a relação de cada um de nós com a sua música dependa da fase em que o apanhámos
Quando Billy tinha 8 anos, o pai saiu de casa e ele não o viu durante décadas – até o descobrir e ficar a saber que tinha um meio-irmão muito mais novo. Foi por este irmão mais novo que descobriu que o pai vinha de uma família rica alemã e judia, que havia sido delapidada de tudo (ao ponto de a fábrica têxtil ter sido usada pelos nazis para fazer os famosos pijamas às riscas usadas nos campos de concentração). Alguma família conseguiu fugir à guerra, o pai combateu ao lado dos americanos e ajudou a libertar um campo de concentração, mas isso marcou-o ao ponto de não conseguir estabelecer uma relação com o filho.
É difícil não ver o apego de Billy Joel como uma tentativa de se aproximar do pai e se a sua dedicação ao instrumento foi em parte uma bênção (encontrou o seu lugar, teve sucesso), mas por outro lado também serviu de motivo à tragédia pessoal de Joel: pôr a música à frente de tudo, esquecendo mulheres e (pelo menos) a sua primeira criança, entregando a sua vida a discos e digressões sucessivas sempre à procura de um sucesso que parece um precário substituto do amor que lhe faltou – como se não bastasse o desaparecimento do pai, a mãe revelou-se maníaco-depressiva.
Aos 14 anos, Joel queria ser como os Beatles. Tinha uma banda e trocou-a por outra, os Hassles, porque lhe ofereceram um Hammond. Não por prestígio, nem por fama: porque era pobre. Porque precisava de um instrumento. Porque queria pagar as contas.
▲ Assistir a Bruce Springsteen a citar versos de Joel altera-nos a perspetiva – compreendemos o porquê de tanta gente se rever naquelas canções: elas refletem os dilemas das pessoas comuns
O baterista dos Hassles, Jon, ficou como uma espécie de irmão – mas Joel envolveu-se com a mulher de Jon e ela, sem saber o que fazer, foi-se embora. Joel ficou sozinho, sem amigo nem namorada, a mastigar numa sanduíche de culpa – é aí que surgem as tentativas de suicídio. Depois voltou para casa da mãe, pediu ajuda e começou a escrever a partir do escuro do quarto da infância. E nasceu Cold Spring Harbor, o disco que ele próprio detestou porque alguma coisa correu mal nas gravações – como sempre, aliás.
Elizabeth, a ex-mulher de Jon voltou à sua vida e ele partiu para a Califórnia com ela. Jon perdoou-o. Começou a tocar com outro nome em clubes poeirentos. Foi ali, entre bebidas e pianos desafinados, que escreveu Piano Man. E foi ali que Clive Davis, da Columbia Records, o descobriu, porque ouviu Captain Jack na rádio.
O que se segue é o comum na história das pessoas que alcançaram sucesso: gravou Piano Man em 1973 e foi um êxito, mas o dinheiro ia para Artie Ritt, que detinha os direitos de autor das suas canções. Enquanto isso, a malta da elite artística, as Joni Mitchells e os Neil Youngs, olhavam-no de lado, tal como os críticos: não era cool o suficiente. Não fazia parte daquela seita de deuses de Woodstock. Era só um tipo que nascera no Bronx com um piano, uma mãe incontrolável e um pai ausente.
▲ Há uma sucessão de êxitos, discos falhados, casamentos que falham, alcoolismo, redenção, constante re-invenção musical (o que me surpreendeu), mas aquilo que mais impressiona no documentário é o quão normal Billy Joel parece
Houve discos falhados, recusas (não aceitou trabalhar com George Martin, o génio dos Beatles, porque este queria trocar a banda de Joel) até que finalmente surge o grande êxito de massas com The Stranger e dois Grammys com Just the Way You Are. E o Carnegie Hall esgotado três noites seguidas. Finalmente.
Há uma sucessão de êxitos, discos falhados, casamentos que falham, alcoolismo, redenção, constante re-invenção musical (o que me surpreendeu), mas aquilo que mais impressiona no documentário é o quão normal Billy Joel parece: não é exatamente um gajo que se comporte como uma diva, não há hotéis destruídos nem quilos de coca, até as suas bebedeiras eram passadas sozinho num bar a tocar ao piano.
Parece ser um tipo verdadeiramente sofrido, com um desassossego existencial que não o larga, profundamente marcado pela ausência do pai e que se entregou à única coisa que sabia fazer e que foi, por turnos, salvação e destruição. Quando sai um documentário de música, por norma quem os vê são os fãs – este é um daqueles raros casos em que, gostemos ou não da música, vale a pena assistir a estas quatro horas — sim, são quatro horas —, porque o que aqui vemos é um homem, meio destruído, ainda não recomposto dos seus traumas, a aceitar a culpa dos seus pecados e ainda à procura daquele pedacinho de paz com que sonha desde pequeno.