O primeiro dia de uma nova era, o segundo jogo numa noite de estreia. Depois de um primeiro teste na parte matinal no Olival frente ao Feirense, com um triunfo por 2-1 com golos de Danny Namaso e Rodrigo Mora, o FC Porto fazia a primeira apresentação da nova versão aos sócios diante do Twente no Estádio do Dragão, naquele que era também um momento para Francesco Farioli mostrar aquilo que está a trabalhar neste início de era nos azuis e brancos. Depois de um passagem sem sucesso de Vítor Bruno e de uma aposta falhada em Martín Anselmi, era no italiano que recaía a missão de resgatar uma identidade perdida no clube.

“Tem um percurso explosivo, com sucesso, rendimento e visão”: Villas-Boas explica opção Farioli numa era de “alterações profundas”

“Sou muito apaixonado, gosto de ser alguém muito ativo no banco. Com uma mentalidade forte, com níveis  altos de intensidade porque pagamos o preço de tudo o que fazemos a este nível e não podemos deixar nada para trás. O caminho que temos de fazer é longo, acreditamos que vamos jogar mais do que 50 jogos, o que significa ir longe nas várias competições. Temos de começar a partir do dia 11 com união e espírito. Há uma palavra portuguesa que é mentalidade, temos de ter isso. Acredito que o lugar onde estás representa o maior desafio de sempre. Ao olhar para o futuro é preciso estar muito bem conectado com o presidente”, tinha referido Farioli no momento de apresentação, que foi também a única vez que falou publicamente.

“É normal que quando abordamos um nova época haja o desejo de ver coisas novas, uma nova forma de jogar. No final, cada treinador representa uma forma de pensar. Não me compete, nem é do meu interesse julgar o que foi feito antes. O clube tomou a decisão, é por isso que estou aqui, e faz parte do nosso percurso estarmos sempre a ser avaliados. Foi a primeira vez que não mostrei um único vídeo sobre a forma de fazer as coisas porque o presidente já sabia. Foi uma conversa de futebol e chegar a acordo. Acredito que a equipa deve ter posse de bola, controlar o jogo. Depois, com diferentes ligas e treinadores, uma das melhores partes da vida de treinador é ter uma ideia clara. Mais do que impor a ideia, é fazer com que os jogadores acreditem no que queremos fazer. É importante ter margem de adaptação. Verão muitas coisas iguais, mas haverá margem de adaptação. Isso que fará a diferença”, acrescentou no mesmo momento o italiano.

O FC Porto terá de jogar mais mas, para já, a meio do processo de pré-temporada, mostrou alguns bons apontamentos. Victor Froholdt mostrou que vai ser uma grande mais valia para a equipa no meio-campo, Samu voltou aos golos, Borja Sainz também esteve muito ativo no ataque. No entanto, a chave da reviravolta estava no banco, com William Gomes a entrar em campo, a ter um remate à trave que originou o empate de Samu e a ganhar a grande penalidade que converteu para o 2-1 final em cima do minuto 90. Principal dor de cabeça? O centro decisivo, entre uma estreia nervosa de Prpic e alguns erros de palmatória de Nehuén Pérez. Maior dúvida de todas? O que será a figura do 10 nos dragões, entre um Gabri Veiga que esteve bem até ser expulso e um Rodrigo Mora que terá de adaptar-se a uma nova ideia de jogo dos portistas.

Farioli apostou numa equipa que não repetiu qualquer jogador que tinha iniciado a partida com o Feirense, num 4x3x3 mais clássico já a integrar algumas das caras novas na equipa: Diogo Costa na baliza; Martim Fernandes e Zaidu nas laterais (Francisco Moura lesionou-se no estágio na Áustria) com Dominik Prpic a fazer dupla com Nehuén Pérez; Alan Varela como médio mais defensivo tendo Victor Froholdt como interior mais pela direita e Gabri Veiga no lado esquerdo; Pepê e Borja Sainz nas alas mas com permissão para entrar em diagonais para dentro no apoio a Samu. Os momentos de pressão alta marcaram os primeiros minutos, uma bola ao poste dos neerlandeses na sequência de um corte defeituoso de Prpic e um desvio inadvertido de Nehuén Pérez deixou o primeiro sinal de perigo (9′) mas a melhor versão não iria demorar a chegar.

Com ideias e princípios mais definidos, tendo Froholdt e Gabri Veiga como motores de uma equipa talhada para jogar em posse mas que lida bem com a bola no adversário a explorar depois saídas rápidas (o Twente chegaria ao intervalo com mais posse de bola), o FC Porto foi criando vários lances de potencial perigo na frente. Uns sem concretização, outros com remates por cima, outros sem o último passe, sempre a mostrar a facilidade de chegar à baliza contrária quando a equipa consegue ser rápida, agressiva e pragmática na hora de abordar as ações ofensivas. Pepê teve um tiro perigoso por cima, Gabri Veiga atirou ao poste de fora da área na sequência de um grande trabalho individual mas o golo continuava sem aparecer antes de um final de primeira parte com focos de tensão entre jogadores e duas expulsões com vermelho direto de Gabri Veiga e Naci Ünüvar, que se embrulharam em campo antes de mais episódios de confusão junto ao túnel.

Com menos um jogador, Farioli decidiu apostar nos mesmos jogadores para o início da segunda parte, tendo Pepê mais por dentro para equilibrar forças no meio-campo sem perder largura com os movimentos de Borja Sainz nos dois flancos em apoio a Samu. No entanto, foi o Twente que lidou melhor com a inferioridade em campo, chegando mesmo à vantagem na sequência de um lance que começou num pontapé de baliza, teve mais uma interceção falhada por Nenhuén Pérez e terminou com um grande remate de pé esquerdo em arco de Mitchell van Bergen descaído na direita para o 1-0 (51′). O Dragão mostrava os primeiros sinais de alguma impaciência perante a entrada do FC Porto em campo e a forma como nasceu o golo do conjunto neerlandês, com Farioli a olhar sem expressão para dentro de campo a pensar no que poderia mudar no jogo.

Quando mexeu, foi em dose tripla: Eustáquio, William Gomes e Rodrigo Mora, que tinham atuado de manhã com o Feirense, foram lançados para a última meia hora à procura de outra frescura que permitisse aos azuis e brancos evitarem pelo menos a derrota no primeiro ensaio para os adeptos. Não demorou a ter a melhor resposta: William Gomes, descaído sobre a direita, fez a diagonal para o meio, rematou à trave e Samu fez o empate de cabeça na recarga depois de mais um lance iniciado em Eustáquio antes do festejo de homenagem a recordar Diogo Jota (65′). A ação decisiva do brasileiro não ficaria por aí, conseguindo depois ganhar uma grande penalidade nos últimos minutos quando o jogo estava com menos motivos de interesse para assumir a possibilidade de dar a vitória aos dragões e não falhar o 2-1 final em cima do minuto 90.