O duelo de gerações. Os Campeonatos do Mundo de desportos aquáticos aproximam-se do fim, mas, no que à natação diz respeito, havia ainda tempo para um dos duelos mais aguardados desta edição e, quiçá, dos últimos anos: Katie Ledecky e Summer McIntosh iam enfrentar-se em busca do ouro nos 800 metros livres. À primeira vista, a norte-americana de 28 anos podia ser considerada a favorita, dado que tem dominado a prova nos últimos anos. Ledecky é tetracampeã olímpica e chegou a este sábado como hexacampeã mundial na distância, mas tinha pela frente um desafio frente à única nadadora que a derrotou nos 800 livres nos últimos 13 anos. Tudo aconteceu em fevereiro de 2024, na Flórida, quando McIntosh, com apenas 17 anos, bateu a norte-americana em quase seis segundos e pulverizou o recorde do Canadá, “roubando-lhe” ainda o recorde do mundo nos 400 livres, em junho deste ano.

Katie Ledecky chegava à final com o melhor tempo das eliminatórias (8.14,62 minutos), onde fez menos cinco segundos que Summer McIntosh (8.19,88), que fez a terceira melhor marca e, por isso, saiu da pista três, ao lado da norte-americana. Pelo meio – ou, se quisermos, na pista cinco – estava ainda a australiana Lani Pallister (8.17,06), que era outra das candidatas às medalhas. Esta foi a primeira e única prova em que Ledecky e McIntosh nadaram uma contra a outra, dado que a norte-americana já tinha competido nos 1.500 livres (ouro), na estafeta 4×200 livres (prata) e nos 400 livres (bronze). Noutro prisma, a canadiana queria fazer história em Singapura e tornar-se na primeira nadadora a conquistar cinco ouros numa edição dos Mundiais, já depois de ter vencido as provas de 400 livres, 200 estilos e 200 mariposa (com recorde dos Mundiais e da América). No domingo terá ainda de competir nos 400 estilos.

Fred Vergnoux, técnico francês de 52 anos, é um dos obreiros do sucesso de Summer McIntosh, com quem trabalha desde este ano, depois de ter deixado Espanha e Mireia Belmonte, em 2021. “Em novembro conversei com o diretor técnico do Canadá. Ele disse-me que a Summer estava interessada em fazer algo em altura. Conversei com ela e com o seu treinador no Mundial de piscina curta em Budapeste. Voltámos a conversar em janeiro. Ao terminar, ela disse-me que foram as três melhores semanas de treino que já teve na vida. Algumas semanas depois, ela nadou os 800 livres em 8.09, a cinco segundos do recorde mundial. Foi aí que ela me disse que tinha tomado a decisão de nadar essa prova no Mundial e que queria continuar a treinar comigo. Ela estava um pouco sozinha na Flórida porque tinha de ir para a universidade no ano seguinte, os mais velhos tinham-se ido embora e decidiu dar esse passo. E assim começámos”, começou por dizer o francês em entrevista ao La Vanguardia.

“Não nos conhecíamos pessoalmente, mas uma vez enviei-lhe um vídeo da Mireia a desejar-lhe boa sorte. Ela conhecia a Mireia e conhecia-me a mim. Sabia como a Mireia tinha subido nos 800 e nos 1.500. Ambas fizeram algo diferente, porque normalmente os nadadores descem metros, não sobem. E ela fez como a Mireia. Ela está num bom grupo, com profissionais que incentivam as raparigas. Se juntarmos pessoas boas, o nível sobe, naturalmente. Alimentam-se mutuamente. A diferença é que ela nunca falha nos treinos. Nunca vi uma dedicação como a dela. Entendeu o conceito de que todas as sessões são importantes. Tem esse foco em cada ação, mas fora da piscina é uma profissional com sonhos, alimentação, recuperação, fisioterapia… Nunca vi tanta dedicação. Ela pode melhorar nos 400 estilos, por exemplo, o subaquático. Pode baixar dos dois minutos nos 200 mariposa ou dos oito minutos nos 800. A Mireia foi a primeira a baixar dos dois minutos na mariposa em piscina curta e a Summer pode fazê-lo em piscina longa. E pode nadar os 1.500 e superar a Ledecky, que é a melhor da história”, completou o treinador.

Estavam assim reunidos todos os ingredientes para uma final de titãs, entre duas nadadoras norte-americanas que têm dez anos de diferença. Para além do duelo de gerações e de Pallister, a chinesa Bingjie Li, recordista da Ásia, prometia intrometer-se na luta pelo pódio. Na saída, Ledecky começou ligeiramente melhor que McIntosh, que demorou mias um décimo de segundo a reagir. Aos 100 metros, a norte-americana já estava confortavelmente na liderança, com a canadiana e a australiana a trocarem no segundo lugar. A nadar sempre acima do recorde do mundo e com parciais no segundo 30, Katie chegou aos 300 metros com 33 centésimos de vantagem para Summer. A meio da prova, o trio da frente continuava acima do recorde, com Ledecky a conservar uma vantagem de 18 centésimos.

Na segunda metade, Pallister continuou a pressionar as norte-americanas e chegou inclusivamente a subir ao primeiro lugar aos 540 metros. Com o ritmo ligeiramente mais baixo, as três igualaram-se e chegaram aos últimos 100 metros separadas por quatro décimos. McIntosh assumiu a liderança na penúltima viragem, mas Ledecky recuperou a posição aos 750 metros e, no sprint final, Pallister ainda recuperou, McIntosh quebrou e Katie Ledecky colecionou mais uma medalha de ouro, com direito a recorde dos Campeonatos do Mundo – dez anos depois – e a quarta melhor marca de sempre (8.05,62). Leni Pallister surpreendeu e ficou com a prata, a 36 centésimos, com recorde da Oceânia, e Summer McIntosh falhou, pela primeira vez, o ouro em Singapura, assegurando o bronze com 1.67 segundos a mais. Destaque ainda para a italiana Simona Quadarella, que nadou em quarto em 8.12,81 e quebrou o recorde da Europa, com a quinta melhor marca de todos os tempos.

Ledecky continua a superar-se e venceu pelo sétimo ano consecutivo o ouro nos 800 livres, chegando às 23 medalhas de ouro em Campeonatos do Mundo. Para além disso, a norte-americana tem ainda seis pratas e um bronze, totalizando agora 30 conquistas no segundo maior palco da natação. Só Michael Phelps, com 33 medalhas (26 ouros, seis pratas e um bronze) bate Katie em Mundiais em toda a história da modalidade. A partir deste sábado, a norte-americana, que é a recordista do mundo nos 800 e nos 1.500, tem 40 medalhas de ouro: 23 em Mundiais, nove em Jogos Olímpicos e oito no Campeonato Pan-Pacífico.