O diretor de fotografia Eduardo Serra morreu aos 81 anos, anunciou a Academia Portuguesa de Cinema. De acordo com fonte próxima da família, Eduardo Serra morreu no passado dia 19, terça-feira. O local não foi indicado.

Eduardo Serra é o mais internacional dos diretores portugueses de fotografia, tendo sido nomeado duas vezes para os Óscares, pelos filmes As Asas do Amor, de Iain Softley, e Rapariga com Brinco de Pérola, de Peter Webber, que lhe garantiu o prémio BAFTA da Academia Britânica de Cinema.

A carreira internacional de Eduardo Serra teve início em França, onde se fixou em 1963, na sequência da perseguição de que foi alvo por participar em protestos contra a ditadura, recorda a Academia Portuguesa de Cinema, que anunciou a morte do diretor de fotografia nas redes sociais, na noite de quinta-feira.

Entre os filmes que marcaram o seu percurso contam-se Harry Potter e os Talismãs da Morte, Partes 1 e 2, Diamantes de Sangue, de Edward Zwick, Belle du Seigneur, de Glenio Bonder, e A Primise, de Patrice Leconte.

No cinema português, assinou a fotografia de obras como Sem Sombra de Pecado e A Mulher do Próximo, de José Fonseca e Costa, O Processo do Rei, de João Mário Grilo, Amor e Dedinhos de Pé, de Luís Filipe Rocha, e O Delfim, de Fernando Lopes.

“Figura de referência maior no cinema mundial”, Eduardo Serra “levou consigo a visão de um artista português que soube dialogar com cineastas de várias geografias, do cinema de autor europeu às grandes produções internacionais”, conclui a mensagem da Academia Portuguesa de Cinema.

“O que tento é criar sentido com as imagens. É importante compreender quais são os elementos dramáticos. O que vou iluminar, as imagens que vou criar [sobre o trabalho de outros] devem levar o público a entender o argumento. Não me interessa fazer uma coisa que seja bonita”, afirmou Eduardo Serra numa entrevista ao jornal Público, em 2009.

Quando teve reconhecimento público, Eduardo Serra contava mais de trinta anos de carreira atrás das câmaras, aplicando a filosofia de que uma boa fotografia em cinema é aquela que “ajuda à compreensão do filme, que acrescenta emoção à história, que a torna mais legível”, afirmou em 2004 ao Jornal de Letras.

Ouça aqui o comentário de Bruno Vieira Amaral sobre a obra de Eduardo Serra. 

Morte Eduardo Serra. Academia Portuguesa de Cinema fala em “figura de referência maior no cinema mundial”

Eduardo Serra nasceu a 2 de outubro de 1943, em Lisboa, filho único de uma família de origens modestas, que vivia perto do Instituto Superior Técnico — “o símbolo da ascensão social” -, onde ingressou num curso de engenharia.

Estudante universitário, nunca chegaria a terminar o curso, já embrenhado nas atividades dos cineclubes de Lisboa e, embora de forma discreta, nas lutas académicas de 1962.

Ao jornal Público contou que chegou a juntar-se ao Partido Comunista Português, mas nunca foi “um bom militante” e em 1963 partiu para Paris. “Houve razões políticas e militares que tornaram urgente a minha partida”, disse ao Expresso em 2004.

Em Paris, tentou entrar no Instituto de Estudos Superiores Cinematográficos, mas acabou por se formar na Escola Nacional de Fotografia e Cinematografia, onde obteve os primeiros estudos em direção de fotografia. Também fez igualmente o curso de História de Arte e Arqueologia na Sorbonne.

A primeira década profissional no cinema foi como assistente de câmara em algumas dezenas de produções, trabalhando com Alain Cavalier, Patrice Leconte, François Leterrier, alguns dos realizadores com os quais voltaria a colaborar como diretor de fotografia.

Com dupla nacionalidade, portuguesa e francesa, fazendo de Paris a sua casa, Eduardo Serra regressaria a Portugal já depois da revolução de 25 de Abril de 1974 para filmar, num dos raros momentos enquanto realizador, a curta-metragem Un Anniversaire (1975).

No passado mês de julho, a propósito de uma retrospetiva dedicada a Eduardo Serra, a Cinemateca Portuguesa escrevia que este filme “celebra o primeiro ano do 25 de Abril e, em particular, acompanha as primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte, a partir das experiências dos trabalhadores agrícolas de três aldeias do distrito de Beja”.

A estreia de Eduardo Serra como diretor de fotografia em Portugal deu-se pela mão de José Fonseca e Costa, em 1982, com o filme Sem Sombra de Pecado.

“Do ponto de vista cinematográfico, não devo nada a Portugal. Devo muito ao Fonseca e Costa, mas nada a Portugal. Era um filme a que, no estado em que estava a minha carreira, eu ainda não teria acesso. Ele apostou em mim e isso foi decisivo para a minha carreira, mesmo em França”, contou ao jornal Público em 2002.

Eduardo Serra ganhou prestígio internacional sobretudo em França, de onde fez a ponte com Londres e, do outro lado do Atlântico, com Hollywood, sublinhando, ainda assim, prudência na escolha dos projetos.

“Não quero entrar no sistema de fazer filmes para ganhar a vida. Só quero fazer filmes que possa ver como espectador”, disse na mesma entrevista ao Público em 2002.

Trabalhou sobretudo com os franceses Claude Chabrol e Patrice Leconte, com os quais fez mais de uma dezena de filmes, mas também com os britânicos Michael Winterbottom e Iain Softley e os norte-americanos M. Night Shyamalan ou Edward Zwick.

Em 1998 esteve nomeado para os Óscares com Asas do Amor, de Iain Softley, num ano em que Titanic, de James Cameron, arrasou a concorrência com onze estatuetas. No Reino Unido, Serra venceu o BAFTA de melhor direção de fotografia.

Em 2004, voltaria a ser nomeado para os Óscares pela fotografia de Rapariga com Brinco de Pérola, de Peter Webber. Apesar de não ter ganho, não faltaram elogios à forma como recriou os ambientes da época setecentista de Delft (Países Baixos) e a luz dos quadros do neerlandês Johannes Vermeer.

Numa conferência de imprensa em Lisboa, em 2004, Eduardo Serra relativizava o reconhecimento e as nomeações para os Óscares: “Têm um valor simbólico único, facilitam a vida e dão um crédito indiscutível nos Estados Unidos e no Reino Unido”.

A verdade é que, na década seguinte, juntaria ao currículo a participação num ‘blockbuster’ de entretenimento, os dois últimos filmes da saga Harry Potter, realizados por David Yates.

“Chego a casa, telefonam-me [e perguntam], ‘Queres fazer os dois últimos Harry Potter por um orçamento de 450 milhões de dólares’? Tecnicamente há tudo, todas as gruas, todas as técnicas, seja o que for é utilizado, temos todos os brinquedos”, recordou Eduardo Serra, em 2010 à agência Lusa.

Depois desses filmes, Eduardo Serra ainda trabalhou com Glenio Bonder em Belle du Seigneur (2012) e A primise (2013), de Patrice Leconte.

Em 2014, foi distinguido com prémios de carreira pela Sociedade de Diretores de Fotografia dos Estados Unidos e pela Academia Portuguesa de Cinema.

Foi ainda agraciado com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique (2004), pelo então presidente da República Jorge Sampaio, e com o grau de Grande-Oficial, da mesma ordem, em 2017, pelo chefe de Estado Marcelo Rebelo de Sousa.

Eduardo Serra era ainda membro honorário da Associação de Imagem Portuguesa, segundo a qual um diretor de fotografia é “responsável pela qualidade artística e técnica da imagem do filme”.

Este ano, a Cinemateca Portuguesa lembrou que Eduardo Serra “foi o mais internacional dos diretores de fotografia portugueses”. Na retrospetiva que lhe dedicou foram mostrados “três filmes raros” em que “deixou de lado a direção de fotografia para se sentar na cadeira de realizador”: Un Anniversaire (1975), Rink-Hockey – Le Hockey sur Roulettes (1982) e Cinéma portugais – Un Mode d’Emploi (1990).

Marcelo lembra carreira sem paralelo entre os diretores de fotografia portugueses

O Presidente da República manifestou pesar pela morte de Eduardo Serra, lembrando uma “carreira internacional que não tem paralelo entre os diretores de fotografia portugueses” e o contributo para o cinema a nível internacional.

Numa nota oficial, Marcelo Rebelo de Sousa recorda também o diretor de fotografia português pela sua ação, em Paris, na “militância oposicionista e envolvimento nas lutas académicas”, bem como o seu trabalho com “muitos realizadores franceses” e em blockbusters (sucessos de bilheteira).

“A sua carreira internacional não tem paralelo entre os diretores de fotografia portugueses, não apenas na extensão e variedade da filmografia, mas também nas distinções (um BAFTA, duas nomeações para os Óscares)”, enfatiza o Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa lembra ainda que, “não sendo o único português com sucesso em Hollywood”, Eduardo Serra “foi quem mais decisivamente contribuiu para a luz e a imagem” nos filmes em que trabalhou, salientando, em particular, o papel no filme ‘Rapariga do Brinco de Pérola’.

O chefe de Estado lembra a colaboração também com cineastas portugueses, como Fernando Lopes ou José Fonseca e Costa, e manifesta à família do diretor de fotografia o “pesar e reconhecimento dos portugueses”.

Governo lamenta morte de quem “iluminou plateias” na Europa e Hollywood

O Governo lamentou esta sexta “profundamente” a morte de Eduardo Serra, “o mais internacional dos diretores de fotografia portugueses”, elogiando a “sua carreira ímpar”.

“Ao longo de uma carreira ímpar, iluminou plateias do cinema europeu e de Hollywood com sensibilidade, rigor e elegância”, escreveu a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, na rede social X.

A governante acrescentou que “a sua visão artística, reconhecida por nomeações aos Óscares, BAFTA e pela Ordem do Infante D. Henrique, deixa um legado duradouro”.

João Mário Grilo recorda “um artista muito talentoso”

O realizador João Mário Grilo lamentou a morte do diretor de fotografia Eduardo Serra, descrevendo-o como “um artista muito talentoso”, com quem fez uma “aliança decisiva” no filme “O Processo do Rei” (1989).

O desaparecimento do Eduardo Serra “é uma tristeza muito grande”, reagiu João Mário Grilo, contactado pela agência Lusa, aplaudindo a iniciativa da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, por lhe ter dedicado uma retrospetiva em julho.

“Não há como não lamentar a perda de um artista. Não era apenas um técnico, era um artista muito talentoso que, infelizmente, trabalhou em muito poucos filmes portugueses” referiu o cineasta sobre Eduardo Serra.

João Mário Grilo trabalhou com Eduardo Serra apenas uma vez, no filme “O Processo do Rei” (1989), inspirado no processo que levou à destituição do rei português Afonso VI, intentado pela mulher, Maria de Saboia.

“Hipotequei quase nove anos de trabalho por causa da pesquisa para este filme. Portanto foi uma aliança verdadeiramente decisiva [com Eduardo Serra] porque a imagem e a fotografia tinham uma importância equivalente à da palavra”, recordou o realizador à Lusa.

“A minha cumplicidade com Eduardo Serra foi construir visualmente o século XVII português, um trabalho muito complexo porque a Lisboa da época desapareceu com o terramoto de 1755. Houve todo um trabalho de arqueologia e ligação entre vários espaços do país. A inteligência e sensibilidade dele foram essenciais para construir essa atmosfera, dando a ideia de que o filme todo se passava num Paço da Ribeira desaparecido”, lembrou.

O cineasta evocou ainda o “trabalho exaustivo” que ambos realizaram em torno da pintura nesse filme: “Para nós, a pintura era um modo de perceber o tema central do filme, sobre a majestade do rei. Temos muitos anos de República e não percebemos hoje o que é o conceito de majestade. Foi esse conceito que conduziu os destinos da Europa durante largos séculos e a única forma de o perceber é através da pintura”.

“Houve todo um trabalho de cumplicidade e de construção da arquitetura do filme que passou pela luz e enquadramento. Ele foi uma grande companhia na preparação do filme, com uma rodagem muito difícil e longa, por ser de época”, disse o realizador que lamentou não ter voltado a trabalhar com Eduardo Serra no filme “Os Olhos da Ásia” (1996), “devido a um desiderato com a produção”.

“Foi o único diretor de fotografia com quem trabalhei que era capaz de explicar em cada plano a razão da luz que estava a fazer. Era uma pessoa bastante consciente de que a luz não é só o que se põe lá, mas o que se pensa mentalmente”, apontou ainda João Mário Grilo.