“NÔT”, de Marlene Monteiro Freitas
Culturgest, Lisboa (11 a 14 de setembro), Teatro Municipal do Porto — Rivoli, Porto (19 e 20 de setembro)
Foi recebida entre apupos e bravos quando se estreou no Festival d’Avignon, em França, e este mês sobe finalmente aos palcos nacionais. NÔT é a novíssima criação de Marlene Monteiro Freitas (Jaguar, Bacantes), premiada coreógrafa e bailarina cabo-verdiana há muito radicada em Portugal. Inspirada em As Mil e Uma Noites, obra clássica da literatura árabe que reúne um conjunto de histórias e contos populares, Freitas projeta em Xerazade a figura intemporal da sobrevivente.
▲ Depois de se estrear no Festival de Avignon, Marlene Monteiro Freitas mostra "NÔT" em Lisboa e
Fabian Hammeri
Quem é hoje Xerazade? Quem encarna o soberano assassino, e quem são os prisioneiros? A cenografia, com as suas imponentes grelhas metálicas, convoca de imediato a imagem da prisão — física, mental, simbólica. Mas o espetáculo expande-se para além dessa clausura: fala-nos também de desejo, de transgressão. Não se deve confundir polarização com a natureza de uma obra desafiante e, por vezes, provocadora. NÔT é exatamente isso: um espetáculo para quem tem estômago, que não teme deixar-nos desconfortáveis perante o confronto. É nesse território, capaz de perturbar e fascinar em simultâneo, que Marlene Monteiro Freitas afirma uma força singular na dança contemporânea.
“Adilson”, de Dino D’Santiago
Centro Cultural Belém, Lisboa (12 a 14 de setembro), Theatro Circo, Braga (19 de setembro)
É um dos acontecimentos da rentrée, a primeira ópera do músico Dino D’Santiago, um desafio lançado pela BoCA — Bienal de Arte Contemporânea, que há muito instiga os artistas a atravessar fronteiras e a aventurar-se para além do seu próprio território.
Nesta obra, acompanhamos a jornada de Adilson, um homem negro, nascido em Angola, filho de pais cabo-verdianos, que vive há mais de 40 anos em Portugal, sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. A sua vida decorre entre corredores de espera, prazos empurrados para depois e um emaranhado burocrático que o impede de ser plenamente aceite no país onde sempre viveu.
▲ "Adilson" acompanha a jornada de um homem nascido em Angola, filho de pais cabo-verdianos, que vive há mais de 40 anos em Portugal, sem nunca ter obtido cidadania portuguesa
Mais do que a história de um indivíduo, Adilson encarna milhares que permanecem nas margens do sistema. “Eu não sou português. Eu sou Portugal. Um país à espera”, escuta-se com voz que ultrapassa as fronteiras do palco.
Com libreto de Rui Catalão e direção musical de Martim Sousa Tavares, Adilson é uma ópera em cinco atos dirigida por Dino D’Santiago, marcando a estreia do cantor no universo operático e evocando os cinquenta anos do fim da presença militar portuguesa em África.
“Coro dos Amantes”, de Tiago Rodrigues, Cláudia Gaiolas e Tónan Quito
TBA — Teatro do Bairro Alto, Lisboa (17 a 20 de setembro), Teatro—Cine de Torres Vedras (26 de setembro)
Coro dos Amantes, primeira peça de Tiago Rodrigues, estreou-se na Culturgest em 2007. Concebida como uma narrativa coral, acompanha um jovem casal que enfrenta uma situação de vida ou morte, quando um deles deixa de conseguir respirar. Através de duas vozes, os atores e amantes apresentam ao público versões ligeiramente diferentes dos mesmos acontecimentos.
▲ Cláudia Gaiolas e Tónan Quito são criadores e intérpretes de "Coro dos Amantes", de Tiago Rodrigues
Joana Linda
Mas esta não é uma mera reposição. Aliás, a obra tem um percurso particular: em 2006 surgiu como um fragmento para o espetáculo Urgências, no Teatro Maria Matos, no ano seguinte cresceu com duas novas partes em Duas Metades, na Culturgest, e em 2021 ganhou um novo capítulo, em francês, apresentado no Théâtre de Lorient. Nesta última versão, Rodrigues acrescentou uma “canção” que reflete sobre o tempo e sobre o futuro dos amantes.
Os atores Cláudia Gaiolas e Tónan Quito, que acompanham estas personagens desde a sua criação, revisitam a história com a chegada da nova parte, e interrogam-se: não só sobre o destino do casal em cena, mas também sobre o próprio percurso que partilharam ao longo destes 15 anos.
“Vermelho”, de John Logan, encenação de Carlos Pimenta
Teatro Carlos Alberto, Porto (18 a 28 de setembro)
Nova Iorque, algures entre 1958 e 1959. O restaurante nova-iorquino Four Seasons encomenda ao pintor Mark Rothko uma série de murais. Para cumprir o trabalho, Rothko contrata um jovem assistente, Ken. O que inicialmente parece ser apenas uma relação profissional evolui para um intenso e profundo diálogo entre mestre e discípulo, com reflexões fundamentais sobre a arte e a criação. O acontecimento inspirou Vermelho, peça do norte-americano John Logan que se estreou em 2009 e foi distinguida com vários prémios de teatro.
▲ No contexto da apresentação de "Vermelho", o Teatro Carlos Alberto, no Porto, recebe o colóquio "O silêncio é tão exato: arte e resistência" a 26 de setembro
Agora, chega à cena ao Teatro Carlos Alberto, no Porto, numa encenação de Carlos Pimenta, através do Ensemble – Sociedade de Actores. A obra devolve ao público as mesmas interrogações que inquietam as personagens de Vermelho: “Deve a arte ser um mero objeto de divertimento e decoração, ou, pelo contrário, proporcionar o encontro do homem consigo próprio e com o mistério da existência?”
“Só Mais Uma Gaivota”, de Inês Barahona e Miguel Fragata
Centro Cultural Belém, Lisboa (18 a 28 de setembro)
“O Konstantin Gavrilovitch matou-se com um tiro”, assim termina A Gaivota, de Anton Tchékhov. Depois desceu o pano e o público aplaudiu os jovens que estavam a terminar o curso de teatro. Só Mais Uma Gaivota, a mais recente criação da Formiga Atómica, é uma peça que dialoga com o texto de Tchékhov, inspirada própria experiência de Miguel Fragata, que regressa aos colegas e às histórias do curso de teatro de 2005.
▲ No final de 2026, a versão francesa do espetáculo, "Encore Une Mouette", vai estrear em Lyon, França, no Théâtre du Point du Jour
Só Mais Uma Gaivota mistura ficção e realidade para imaginar a continuação do IV ato de Tchékhov. A peça acompanha artistas que, tal como os personagens de Konstantin Gavrilovitch, enfrentam dúvidas e alimentam sonhos sobre o futuro profissional, transformando memórias, personagens e vidas num retrato poético e reflexivo sobre a passagem do tempo e o percurso artístico.
“May B“, de Maguy Marin
Teatro Viriato, Viseu (19 de setembro)
Em 1981, Maguy Marin, então uma jovem coreógrafa, escreveu a Samuel Beckett pedindo permissão para adaptar a sua obra. O dramaturgo irlandês não só aceitou como quis reunir-se com Marin para discutir o projeto. May B tornou-se um marco da dança contemporânea, atravessando gerações com a mesma força desde a sua estreia. Inspirada no universo de Samuel Beckett, a peça da hoje aclamada coreógrafa francesa traduz para o corpo a inquietação das personagens de Beckett, sempre em busca de uma quietude impossível. Através de uma linguagem teatral abrupta, cruza o ridículo com a violência, o desejo com a espera, transformando situações angustiantes em metáforas sobre a fragilidade e a complexidade da condição humana.
▲ Depois da récita única em Viseu este mês, "May B" vai voltar em novembro (9) para mais uma data única no Teatro das Figuras, em Faro, no âmbito do MOMI - Festival Internacional de Teatro Físico
Os dez bailarinos parecem quase irreconhecíveis como humanos: os rostos cobertos de argila, os movimentos reduzidos a gestos repetitivos, a fala transformada em grunhidos e suspiros ritmados. Evocam uma síntese de todas as personagens de Beckett, formando uma comunidade de almas abandonadas. Quatro décadas depois, May B mantém-se como uma obra de referência no panorama europeu. Depois da récita única em Viseu este mês, regressa em novembro (9) para mais uma data única no Teatro das Figuras, em Faro, no âmbito do MOMI — Festival Internacional de Teatro Físico.
“Suplicantes”, de Sara Barros Leitão
Teatro Aveirense, Aveiro (27 e 28 de setembro)
Depois de Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa e Guião para um país possível, a atriz e encenadora Sara Barros Leitão mergulhou na tragédia grega de Ésquilo, em que cinquenta mulheres, forçadas a casar com primos contra a sua vontade, embarcam num barco fugindo do Egito, atravessam o Mar Mediterrâneo e chegam às praias da Grécia, onde solicitam asilo.
▲ "Suplicantes" é a mais recente criação de Sara Barros Leitão depois de "Guião para um país possível", em 2024
Suplicantes é uma reescrita dessa fuga a um destino fatídico, numa obra que tem ecos da atualidade. Como se lê na sinopse do espetáculo: “Uma travessia de barco repleto de pessoas que fogem de um destino fatídico que determinado país lhes dá, a sua viagem pelo mar mediterrâneo e o pedido de asilo num país do sul da Europa, poderia ser o oráculo de uma notícia de um qualquer telejornal dos nossos dias”. Com texto e encenação de Sara Barros Leitão, o elenco é composto por Lígia Roque, Ricardo Vaz Trindade, Sandro Feliciano.