Um livro que reúne textos do curador Delfim Sardo sobre cerca de 20 artistas com quem trabalhou, como Julião Sarmento, Alberto Carneiro e Helena Almeida, será lançado no mercado livreiro a 11 de setembro, pela editora Tinta da China.
Intitulado “Uivar à Lua”, o livro reúne textos datados entre 2013 e 2025, numa segunda reunião de escritos que sucede ao conjunto publicado sob o título “Visão em apneia” (Athena, 2012), entretanto esgotado, indica uma nota introdutória do autor.
Delfim Sardo, historiador de arte, professor e curador, que entre 2020 e 2025 foi administrador do Centro Cultural de Belém (CCB), onde já tinha dirigido o antigo Centro de Exposições, descreve o conjunto como “exercícios híbridos, que se situam num limbo entre a reflexão crítica, a História da Arte e o mero fascínio à procura de um eco estético”.
“Escrever sobre arte é como uivar à lua, porque é inútil e talvez mesmo fútil, mas há sempre a esperança de que algum eco responda, também ele perdido numa mesma atração”, considera, sobre os textos criados quase todos para catálogos de exposições, ou em resposta a convites de artistas e curadores.
Lourdes Castro, Espacialistas e Gonçalo M. Tavares, Berlinde De Bruyckere, Luísa Cunha, Michael Biberstein, António Bolota, Beatriz Milhazes, Daniel Malhão, Gabriela Albergaria e Gordon Matta-Clark são outros dos artistas em foco, num universo dedicado às artes visuais a que se juntam dois outros textos, em jeito de exceção, sobre arquitetos, o ateliê Aires Mateus e João Luís Carrilho da Graça.
Os ensaios de “Uivar à Lua” partem de relações de cumplicidade, “frequentemente inseparáveis das opções curatoriais que os enformaram, e são, por isso, muito físicos, influenciados pela convivência com os autores e com as obras, mesmo quando foram escritos já na sua ausência”.
A capa de “Uivar à Lua”, de Delfim Sardo (Tinta da China)
Foi o caso — refere Delfim Sardo, no livro — de Julião Sarmento (1948-2021), Helena Almeida (1934-2018), Lourdes Castro (1930-2022), cujo texto foi escrito para uma conferência na Madeira, de onde a artista era natural, e Michael Biberstein (1948-2013).
“Foram os mais difíceis de escrever, porque nunca puderam ser enviados a quem eram dedicados, como cartas que ficaram resposta”, lamenta Delfim Sardo, nascido em Aveiro, em 1962, professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, doutorado em arte contemporânea pela Universidade de Coimbra.
No entanto, todos os textos que reúne neste novo livro tentam compreender os processos criativos dos artistas, mesmo quando divergem na forma como falam sobre o seu próprio trabalho: “Na certeza de que, em última instância, são só mais uma forma de produzir discurso à volta de uma produção visual, sofrendo sempre da limitação das minhas próprias referências”, explicita o autor.
“O que os artistas fazem nos ateliês onde trabalham é assunto deles. É-o umas vezes, porque outras passa a ser assunto nosso, no momento em que transformam a sua ocupação do ateliê naquilo que nos decidem mostrar”, reflete Delfim Sardo a dado momento, a propósito da obra de António Bolota, que no início dos anos 2000 tinha um estúdio num prédio de habitação do século XIX, “devoluto e luxuoso”, no número 211 da Avenida da Liberdade, em Lisboa.
Sobre este caso em especial, o curador recorda que, “por razões da sua vida pessoal (da sua atividade como engenheiro e construtor), [António Bolota] pôde ocupar esse prédio enquanto esperava por uma operação imobiliária, mantê-lo e convidar outros artistas para aí se instalarem”, como Francisco Tropa, João Queiroz e Pedro Barateiro, entre outros, “apresentando regularmente o seu trabalho e mantendo uma comunidade viva e dinâmica”.
O projeto conhecido por Avenida 211 “ampliou-se, constituindo-se, também, a partir de 2008 num lugar essencial da afirmação da música contemporânea em Lisboa, em noites organizadas pela Associação Filho Único, e que cruzavam experiências musicais muito diversas, desde a música improvisada à música africana do universo pop”, relata sobre o caso do ateliê que acabou por marcar a história da cena artística da capital.
Mais do que um artista, António Bolota acabou por tornar-se um dinamizador cultural que fundou ou ajudou a concretizar vários outros espaços expositivos independentes em Lisboa, ao abrir os vários andares do edifício à participação de outros artistas, músicos e projetos curatoriais durante quase uma década de forma gratuita.
O livro, com 356 páginas, organiza-se por ordem alfabética do primeiro nome dos artistas a quem se dedica, honrando as relações de proximidade, nomadamente com Gustavo Sumpta, José Pedro Croft, Juan Araujo, Rodrigo Andrade, Rui Sanches, João Onofre, Sara Bichão e Silvestre Pestana.
Delfim Sardo, que escreve regularmente sobre arte e arquitetura, foi curador da representação oficial portuguesa na Bienal de Veneza 1999, cocomissário da representação portuguesa na Bienal de Veneza de Arquitetura, em 2010, curador-geral da Trienal de Arquitetura de Lisboa, no mesmo ano, consultor da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1997 e 2003, e diretor do Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém de 2003 a 2006, onde regressou em 2020, como vogal da administração, depois de ter sido assessor da Culturgest para as Artes Visuais.