Depois de As Malditas ter sido publicado, em 2022, pela BCF Editores, a Quetzal publica, com tradução de Margarida Amado Acosta, Tese sobre uma domesticação, de Camila Sosa Villada. O romance, de fôlego, costura-se através de uma prosa escorreita e de uma dose considerável de humor e ironia.
Nascida em Córdoba, Sosa Villada tem-se consolidado, nos últimos anos, na literatura latino-americana, trazendo para a cena literária exemplos de vidas trans e marginalizadas. A prosa é incisiva e na narrativa nada parece estar ao acaso, a começar pelo título: a ideia de domesticação vem aliada não apenas a um pretenso controlo do corpo, mas também — e principalmente — a normais sociais vigentes que procurem controlar ou engavetar desejos ou identidades, limando as arestas do que é subjectivo. Assim, o que parece uma história de personagens acaba por ter uma dimensão de crítica, já que não dá para ler sem se entender os substratos sociais, nem sem colocar as personagens numa determinada estrutura social e institucional – ou à sua margem.
Partindo de uma actriz travesti de grande sucesso, Sosa Villada explora estruturas familiares e sociais. Há uma vida aparentemente estável, com um marido gay, e uma criança seropositiva adoptada por ambos, e essa estabilidade parece contrastar com a vida prévia, boémia, desregrada, até desestruturada. Partindo deste núcleo, a autora explora pactos invisíveis, ao mesmo tempo que um cerne que já parece pronto para a implosão. Nisto, tem graça a forma como explora os não-ditos entre o seio familiar, os desfasamentos, praticamente nivelando as experiências familiares, independentemente das peças.
A relação da protagonista com os pais traz uma carga emocional fortíssima à narrativa, uma vez que estes se perdem no amor pela filha: não sabem compreendê-lo, não sabem entregá-lo. Há ambivalência no trato, e tudo se soergue a partir do corpo, do estranhamento que provoca, pondo em causa o que os três sentem que devia ser claro e incondicional. As próprias raízes familiares já vêm mancas: os familiares são rudes e de vistas curtas, a mãe verbaliza a sua dificuldade em amar a filha, e de nenhum lado vem esforço por compreendê-la. Assim que possível, rompe-se o vínculo, e depois chega uma vida de ruas escuras, pejadas de perigo, sem alicerces, sem segurança.
Título: “Tese sobre uma domesticação”
Autora: Camila Sosa Villada
Editora: Quetzal
Tradução: Margarida Amado Acosta
Páginas: 232
Claro que todo o romance traz um quê de ironia, com vários elementos que forçam uma leitura com estranheza, tal é o inesperado, desde o marido gay ao sucesso estrondoso da actriz, venerada por homens e mulheres em simultâneo. O casamento, que parece surgir como domesticação ou submissão a uma convenção, sabe a fórmula, a corte de asas, intuindo-se várias vezes como gaiola, não como ninho. Ora, essa rede familiar parece escapar-lhe, e o desajustamento sexual em pouco ajuda. Assim, ainda que tenha estabilidade em casa e um certo glamour no trabalho, parece não conseguir a acalmia de quem tem tudo na vida – carreira, dinheiro, família, sucesso, admiração pública –, ficando numa inquietude permanente, e sendo por isso apresentada como um animal selvagem em processo de domesticação que vê travados os seus instintos. Ora, tendo ela nascido escapando da norma, e tendo depois vivido a afrontá-la, a estabilidade parece-lhe quase anti-natura, impondo-lhe um cinzentismo interior. Além disto, tudo aparenta ter carga emocional, que ainda por cima vem com decisões que a sublinham. Exemplo disso é a relação que mantém com o homem que a salvou, em criança, de uma violação colectiva. A partir daí, resolveu compensá-lo todos os anos com sexo, independentemente de quão bêbedo ou sujo estava – e até da vontade dele.
São 27 pequenos capítulos e salta à vista o virtuosismo e a versatilidade da prosa. Tudo é escrito na terceira pessoa, exceptuando-se dois monólogos. O tom agarra o leitor, que é sempre posto em cena, que vê a maquilhagem e o desmaquilhante ao mesmo tempo. Mesmo nos esforços pela inclusão, a exclusão grita; e mesmo quando a exclusão grita há um grito pela inclusão, mas que não deixa de causar repúdio. A voz literária é desabrida, frontal, e diz sempre ao que vem, nunca cedendo a sentimentalismos ou eufemismos ou frases bonitas – e a sua verdadeira beleza é essa. A vida aparece como coisa crua, e a estética faz-lhe jus. Uma infância sem amor é descrita como uma coisa dura que deriva num coração de pedra, e que faz mossa a vida inteira. A prosa é económica, sem gorduras, toda músculo, transformando, por vezes, os pequenos “quês” do dia-a-dia em literatura, com brutalidade explícita, plena e bela.
Ora, esta estratégia cria tensão narrativa: a autora não procura a lágrima fácil ou a indignação, a empatia dada numa bandeja; em vez disso, conta de forma clara – mostra – e o leitor depara-se com a vida sem muletas que o levem às conclusões, aos sentimentos. As personagens – desde a protagonista aos amigos, amantes, colegas – trazem densidade e subjectividade, aparecendo em pleno com contradições e fragilidades, e a unir tudo isto há a sociedade quase como personagem colectiva, a sussurrar durante o romance todo, como quem impõe limites ou normas.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico