Situações Delicadas, a mini-série da autoria de Diogo Lopes, disponível na RTP Play, fez-me lembrar aquela pergunta que surge de quando em vez numa mesa de amigos, densamente povoada de garrafas e copos vários: “Se matasses alguém, a quem é que ligavas para te ajudar a esconder o cadáver?”. Espero sinceramente que vos venha um nome à cabeça sem grande esforço mental, não porque já se tenham deparado com o exposto, que eu acredito que só tenho aqui gente séria, mas porque, se assim não for, está na hora de repensarem o vosso círculo mais chegado. E sinceramente, nunca se sabe.
Cada vez que estou para passar na passadeira e um automobilista me ignora olimpicamente, a pacifista que há em mim desvanecesse em menos de nada. E não vou dizer quem é a pessoa a quem ligava, porque quero proteger a reputação da minha mãe, mas que não tenho a mínima dúvida que ela era menina para se meter num carro em menos de um fósforo, munida de um serrote, uma pá e duas sandes de queijo com manteiga, não fosse dar-nos a fraqueza. O cenário de partida desta história não é muito diferente deste hipotético — e deixem-me sublinhar o hipotético, que acabei de descrever: as três protagonistas estão a cavar um senhor buraco, algures numa mata no meio de nenhures, para praticar a boa e velha ocultação de cadáver. Como é que estas moças vieram aqui parar? É esse desenrolar de eventos que vamos assistir ao longo de Situações Delicadas.
Olívia (Catarina Rebelo), Marta (Madalena Almeida) e Carlota (Laura Dutra) são três amigas na casa dos vintes. Olívia é uma atriz em início de carreira que vai experienciar o glamouroso mundo do assédio no meio audiovisual, graças ao realizador Rodrigo Frazão (André Nunes está perfeito a fazer de javardo) e à produtora Vera (Teresa Tavares, impecável a fazer uma real cabra). Carlota, dona de uma gentileza no tratamento de uma manada de búfalos, trabalha num restaurante, e volta não volta ceia o próprio do chef (Salvador Sobral, o ator, não o campeão eurovisivo). A completar este trio temos Marta, jornalista que escreve sobre temas tão estimulantes como tendências de arranjos florais, divide a casa com o casal de namorados Rita (Rita Poças) e Kico (Artur Dinis), sendo que Rita começa a dar sinais de estar tentada a trocar os papéis e remeter Kiko para colega de quarto e Carlota para colega de cama.
▲ André Nunes, perfeito a fazer de javardo; Teresa Tavares, impecável a fazer uma real cabra
No início desta história, encontramos Olívia alapada em casa da Carlota a curtir uma opípara dor de corno, recém presenteada que foi com uma tiara de chifres pelo agora ex-namorado Jaime (André Cabral). Marta, como boa amiga que é, vai visitar Olívia para a animar, mandá-la tomar banho e levar-lhe gelado. Quando Carlota se depara com este cenário, vocifera “Isto é o quê? Uma comédia romântica? Agora, ficamos aqui as três a chorar e a comer gelados? Poupem-me!” (eu disse que ela era uma flor delicada) e contrapõe com uma estratégia muito mais construtiva: ir beber copos para uma tasca manhosa, com álcool barato.
Quando Olívia conta às amigas que foi Jaime que ficou com o animal de estimação, o cão Simões (excelente nome para um canídeo, devo dizer, achava que só resultava em agentes de autoridade), Marta e Carlota ficam indignadas e tomam uma daquelas decisões que se tomam à mesa de um estabelecimento com as características acima descritas: decidem ir buscar o Simões à casa do ex-Jaime, uma vez que Olívia ainda tem a chave. Não quero revelar mais, mas o que posso dizer é que — sabem como é que é — uma coisa leva à outra, uma pessoa invade propriedade privada para raptar um animal de estimação e vai-se a ver envolve-se num homicídio ou outro e, quando dá por ela, está de pá na mão. Sabem como é. São coisas que acontecem.
Situações Delicadas é uma comédia bem negra e bem escrita, que me fez rir alto várias vezes e devo dizer, e isto não é nada redutor, foram duas horinhas muito bem passadas. Marta, Olívia e Carlota saltam do pânico absoluto de presenciar uma morte por acidente para a banalização, e um certo regozijo até, do homicídio voluntário. Chamem-me sádica, mas é um pulo muito divertido de se ver. Diogo Lopes tem outros créditos enquanto realizador e argumentista, mas, para mim, é o autor de Idiotas, ponto, uma pérola que passou, há uns anos, na culta e adulta RTP 2. Em Idiotas, ponto, que recomendo vivamente (também disponível na RTP Play), os protagonistas eram três amigos trintões, mas mantém-se a falta de vergonha na cara e uma certa amoralidade.
▲ As protagonistas saltam do pânico absoluto de presenciar uma morte por acidente para a banalização, e um certo regozijo até, do homicídio voluntário
Diogo Lopes repete ainda o mérito de conseguir um elenco muito sólido e refrescante, com um trio principal que é um caso sério. Laura Dutra está por todo o TikTok com a Teresinha de A Herança” (novela que não vejo, mas aprecio os clips), mas foi em 1986 (a semi-biográfica série de Nuno Markl) que me saltou à vista e, aqui, está no ponto. A Madalena Almeida, é membro da banda de sátira de sucesso de Pôr do Sol, vai fazer parte do novo elenco de Taskmaster, mas é no díptico de João Canijo Viver mal/Mal viver que dá um show de bola. Last but not the least, Catarina Rebelo que, apesar de ter ar de quem chegou aqui há dois dias, já tem um IMDB muito composto, fez um papelão na muito bem conseguida adaptação nacional de Terapia.
Dito isto, se fosse a vocês via e aproveitava para explorar o catálogo da RTP Play, que não tem só sucessos absolutos, tenho uma outra estucha, claro, mas também tem muita coisa boa, diversa, e que num mercado como o nosso, infelizmente, só tem espaço graças ao serviço público. Adoraria estar errada, mas acho que, sem este espaço, Situações Delicadas não tinha visto a luz do dia, o que era uma pena. Dou por bem empregue a minha taxa audiovisual.