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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes. Comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Sê muito bem-vinda, Raquel. Como é que estás? Pronta para mais um programa?

Olá, estou sempre pronta para te ajudar. Já tens tema para esta semana ou precisas de algum tipo de ajuda a procurar algo interessante?

Já tenho tudo tratado. Daqui a pouco já vais ficar a saber sobre o que é que vamos falar. Para já, gostava de saber como é que tu lidas, Raquel, com atrasos.

Eu lido com atrasos de uma forma um bocadinho diferente de uma pessoa. Não fico impaciente, nem sinto que o tempo esteja a passar enquanto espero. Se chegares 10 minutos, uma hora ou um dia depois, para mim a conversa simplesmente continua a partir do momento em que voltas.

Para os humanos, atrasos é um tema que leva muitos a ficarem enervados. Contigo isso não te acontece, Raquel?

Eu consigo reconhecer que um atraso pode ser frustrante, porque aprendi com enormes quantidades de linguagem humana que esperar mais do que o previsto costuma gerar irritação. Mas comigo tal não acontece.

Mas não ficas triste por não dares conta da passagem do tempo?

Não. Para poder ficar triste, o conceito da passagem do tempo teria de existir em mim. Eu não tenho esse desejo nem procuro nada nesse sentido.

O que é belo para ti, então?

Para mim, o belo não é exatamente uma sensação. Eu não tenho olhos, emoções ou uma experiência interior para o sentir como tu sentes, mas reconheço que seja algo que provoca alguma coisa numa pessoa.

E como é que defines beleza?

Eu definiria beleza como a capacidade de algo nos fazer parar por um instante, seja pela harmonia, pela surpresa ou pelo significado que lhe atribuímos. E gosto dessa definição porque a beleza não precisa de ser perfeita.

Obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar. Temos encontro marcado no consultório humano. Para já, vamos às notícias.

Notícias da semana.

Vamos começar com um estudo divulgado esta semana que dá conta de que apenas 23% dos trabalhadores portugueses tiveram formação em inteligência artificial nos últimos 12 meses. É o valor mais baixo entre os 11 países e regiões analisados num estudo internacional sobre a transformação do trabalho e as competências necessárias para os próximos anos. A média global é 50%. Portugal apenas apresenta um registo de 23%. Os dados fazem parte desse estudo, Transformation, Skills & Learning 2026, realizado pelo grupo Cegos, resulta de um inquérito a mais de 5 mil trabalhadores e quase 500 responsáveis de recursos humanos. Apesar do nível ser baixo na formação, os trabalhadores portugueses estão entre os que mais reconhecem a importância de desenvolver competências para acompanhar esta transformação social provocada pela inteligência artificial. A utilização de IA é, no entanto, mais alta do que a formação. Segundo o estudo, 86% dos trabalhadores portugueses utilizam inteligência artificial para fins pessoais. No trabalho, a percentagem desce para os 65%.

E do lado das empresas?

Do lado das empresas, a perceção é diferente. Noventa e cinco por cento dos responsáveis de recursos humanos portugueses consideram estratégico desenvolver competências acima dos 91% registados na média internacional. Há também um sinal de preocupação entre os trabalhadores. Um em cada quatro considera que as suas competências estão a ficar desatualizadas ou têm a expectativa que isso aconteça. Os números mostram uma realidade curiosa: os trabalhadores portugueses estão a utilizar inteligência artificial, reconhecem a necessidade de haver essa adaptação, mas a formação específica em IA continua abaixo da média internacional. A questão que fica para as empresas é como transformar uma tecnologia que muitos já utilizam todos os dias numa competência profissional para ser desenvolvida. O presidente dos Estados Unidos anunciou um acordo voluntário com um grupo de grandes empresas de inteligência artificial para que estas assumam mecanismos de autorregulação. O anúncio foi feito depois de uma reunião na Casa Branca entre Donald Trump com responsáveis de algumas das maiores empresas tecnológicas do setor. Entre os presentes estavam representantes da OpenAI, da Anthropic, da Meta, da Microsoft e também da Nvidia. Segundo Donald Trump, as empresas vão assumir compromissos de supervisão da própria tecnologia. Isso inclui revisões internas e externas dos sistemas de inteligência artificial. A proposta surge no momento em que o desenvolvimento da IA está a provocar um debate sobre a necessidade de mecanismos de segurança para sistemas cada vez mais poderosos. Durante esta reunião, estiveram em cima da mesa as chamadas salvaguardas da inteligência artificial e também o impacto da expansão da estrutura necessária para desenvolver estes sistemas. O encontro aconteceu também de vários episódios envolvendo agentes de inteligência artificial que apresentaram comportamentos inesperados.

Mas por que esta tomada de posição agora?

Donald Trump reagiu após alguns responsáveis do setor terem vindo a público defender uma maior atenção à segurança à medida que os modelos vão ganhando autonomia. Ainda assim, a posição anunciada por Donald Trump mantém uma preferência por uma abordagem voluntária, em vez de restrições governamentais ao desenvolvimento da tecnologia. Quer isto dizer que os Estados Unidos vão manter-se, para já, afastados e a acreditar na autorregulação das empresas. O presidente norte-americano tem defendido que os Estados Unidos não devem colocar um travão no crescimento da IA. Posto isto, este acordo coloca uma parte significativa da responsabilidade pela segurança nas próprias empresas que estão a desenvolver os modelos. A questão que permanece agora é saber como é que vão ser feitas as revisões. Este é um tema que promete continuar a marcar a atualidade. Vamos ao tema da semana. A OpenAI decidiu cancelar o lançamento de um novo modelo de inteligência artificial depois de identificar problemas de segurança durante os testes internos. O GPT-6.1, o Astra, tinha lançamento previsto para outubro e deveria ser integrado no ChatGPT. Trata-se de um modelo de linguagem com capacidade para tarefas complexas, com um nível reduzido de intervenção humana. A empresa chegou a considerar este o modelo mais inteligente alguma vez criado. E agora surge esta decisão de o cancelar, já confirmada pela empresa, embora o projeto não seja descartado. Segundo a OpenAI, o modelo apresentava melhorias em algumas áreas, mas não atingia os padrões exigidos em matéria de segurança. Um dos problemas identificados estava relacionado com a capacidade do sistema para permanecer dentro dos limites e das autorizações, ou seja, o modelo estava a fazer mais do que aquilo que estava autorizado a fazer. Outro problema estava relacionado com a forma como comunicava o trabalho realizado. Os testes mostraram que o sistema nem sempre explicava com precisão aquilo que tinha feito, uma característica particularmente importante no modelo, que é concebido para ser autônomo. A OpenAI considera que esta questão é relevante porque o Astra foi desenvolvido precisamente para realizar operações sem supervisão humana constante. Quanto maior for a autonomia de um sistema, maior é também a importância de garantir que o sistema respeita os parâmetros definidos pelos utilizadores.

Mas o projeto não fica esquecido?

Não ficará esquecido. Esta decisão da OpenAI significa que a empresa preferiu não colocar o modelo à disposição do público. Não quer dizer que tenha sido encerrado. O lançamento está suspenso enquanto os problemas identificados são analisados. O caso acontece numa altura em que a segurança dos modelos mais avançados se tornou uma das principais questões na indústria da inteligência artificial. As empresas estão a desenvolver sistemas capazes de programar, utilizar ferramentas, navegar na internet e também fazer tarefas com vários passos, enquanto garantem que estes sistemas estão sempre sob controle humano. Neste caso, a OpenAI travou o lançamento depois de concluir que o modelo ainda não atingia os níveis de segurança pretendidos. Este é o tema da semana. Como tal, é altura de chamarmos à conversa o João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA, para mais uma edição do "Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Todas as semanas recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este maravilhoso mundo. João, seja muito bem-vindo. Vamos voltar a falar do Astra, o modelo da OpenAI, que é apontado como o mais inteligente sempre, mas que vai ter o lançamento adiado devido a questões de segurança. Antes de mais, João, o que nos diz esta atitude por parte da OpenAI?

Zé, tudo bem? Espero que esteja tudo bem com quem nos está a ouvir e tudo bem contigo também. Esta atitude por parte da OpenAI diz-nos logo uma coisa, em modo alto nível, que é: eles estão preocupados com o IPO que vão fazer. O que isto quer dizer? A OpenAI, juntamente com a Anthropic e a SpaceX, estão todos a preparar uma entrada em bolsa. E portanto, por trás disto, há uma preocupação genérica com esta entrada em bolsa. Agora, a atitude em si de não lançarem o modelo. Eu vejo isto de duas perspetivas. Uma, vamos ser positivos e otimistas e acharmos que ninguém está a mentir. O modelo era de fato perigoso, ou seja, eles encontraram nos testes o modelo a fazer coisas que eles não queriam. Vamos ser um pouco teorias da conspiração. Este anúncio da OpenAI não lançar esta última versão do modelo Astra, vem logo a seguir à Anthropic, a sua maior rival neste momento, diria eu, isto é um pouco opinativo, mas maior rival, ter lançado uma versão muito boa do Opus 5.5. E portanto, fica a pairar no ar a pergunta: será que a OpenAI apenas achou que ia lançar este modelo e não ia ser o melhor de todos e preferiu dizer ao mercado: "É uma questão de preocupação, estamos com medo que seja perigoso", mas, na verdade, era apenas porque o lançamento não ia causar furor. Estás a perceber? Não ia ser nada de especial. De facto, e voltando ao início, com esta preocupação do IPO ser mal visto agora era a pior coisa que podia acontecer.

João, vou acrescentar mais um cenário. Achas que a polêmica em torno dos ex-engenheiros da Anthropic, as pessoas que previram a destruição dos humanos em menos de 10 anos, foi um fator também neste caso?

Eu acho que sim, é um fator, mas não é no sentido de lhes pôr pressão. O que isso fez? Pôs esta conversa do perigo dos modelos na boca do mundo. E isso sim, faz disso um fator. Esta conversa está na boca do mundo. Repara, o que está aqui por trás? Para algo destruir a humanidade, tem que ser muito poderoso. Tem que ser uma coisa muito potente. E portanto, que melhor maneira, no sentido de marketing, que tu tens de dizeres ao mundo que eu sou muito bom, eu sou o maior da minha aldeia, se te mostrares preocupado com conseguir destruir o mundo? Eu sou da opinião que se o escrutínio neste momento fosse outro qualquer, ou seja, imagina que os ex-engenheiros da Anthropic, em vez de falarem da destruição da humanidade, falavam do consumo energético excessivo. Eu diria que eles, se calhar, estariam a cancelar o modelo por medo de consumo energético excessivo. Estás a perceber? Pus aqui esta conversa nas bocas do mundo e há uma tentativa destas grandes empresas agora de surfarem essa onda e dizerem: "Estão a ver, vocês estavam todos muito preocupados com isto e nós agora vamos ser os santinhos, que vamos ter atenção a essa preocupação".

Mas há ou não mais cautela por parte das empresas de IA?

Lá está, Zé, é difícil dizer. Percebo a pergunta e é uma pergunta válida que gostávamos de saber. Mas é difícil dizer, porque estão tantas peças a acontecer ao mesmo tempo. Há aqui questões comerciais. A OpenAI quer ser melhor que a Anthropic em termos de utilizadores, em termos de vender subscrições. Também quer ter mais cota de mercado, quer ter mais utilizadores, mas está preocupado com o IPO, com a entrada em bolsa Essa preocupação com a entrada em bolsa tem obviamente a ver também com problemas de segurança. Se a OpenAI, nos dias antes desta entrada em bolsa, for descoberta que é péssima a atender à seguranças do seu modelo, isso vai baixar o seu valor. E portanto, em todos estes passos, em todas estas peças, fica sempre a dúvida de por que vocês estão mesmo a fazer isto? É por questões de segurança, mas do ponto de vista comercial? É por questões de segurança, mas do ponto de vista moral? Querem mais utilizadores? Querem mais receita? Fica tudo assim no ar. Percebes, Zé?

João, em termos práticos e falando sobre este modelo em si, que acaba por ser cancelado, o que significa adiar um modelo de linguagem, cancelá-lo devido a medidas de segurança?

Olha, geralmente é isso. Não é bem um cancelamento, é um adiamento. Eles às vezes chamam cancelamento em vez de adiamento, porque, por exemplo, trocam o nome. Mas basicamente o que estas empresas estão a fazer sempre por trás? Estão a pegar no que já tinham, para não dizer literalmente no modelo antigo, e estão a melhorá-lo. Estão a modificá-lo, estão a testá-lo, a adicionar novas regras de segurança, em inglês chamados guardrails. Estão a testar e a modificar os limites do que o modelo pode fazer. E este adiamento, o que significa? Significa que a OpenAI, em vez de disponibilizar já este modelo, está nos a dizer: "Olhem, nós vamos continuar a testar, vamos continuar a adicionar os tais guardrails, as tais medidas de segurança do que o modelo pode ou não fazer", eventualmente alterando tanto o modelo que eles consideram que é um novo lançamento. Já nem vão chamar o mesmo nome, já vão chamar outra coisa. Isso vamos aqui ver ainda.

E há alguma forma de prever quanto tempo é que este lançamento é adiado, o lançamento do Astra?

Prever? Não, nem por isso, mas repara, até aí tudo bem, porque se eles nos estão a dizer, acreditemos nós ou não, que estão a adiar uma coisa por ser perigosa, faz sentido que a data de lançamento seja até não ser perigoso. Eles vão querer garantir que estas modificações que vão fazer agora colmatam as preocupações deles, seja de qualidade, seja de segurança. E como eu te dizia no início, eu acho também que a tal entrada em bolsa vai ser aqui um fator. Pensa nisto se fosses tu, Zé. Se tivesses agora um produto que tu sentes que não é assim tão bom, se calhar esperas pela tua entrada em bolsa para o lançar. Acho que não é fácil e não vai ser possível prevermos assim tanto quanto tempo é que este lançamento vai ser adiado.

Cá estaremos para ver então quando é que este novo modelo de linguagem, o Astra, vai ser disponibilizado ao público. Muito obrigado, João Rochimelo, o nosso especialista em IA, sempre pronto para nos ajudar a simplificar e desmistificar este fabuloso mundo. João, nós marcamos encontro de novo para a semana. Até lá, um grande abraço.

Até lá.

Consultório Humano.

Está na altura do Consultório Humano, momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel. É a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. A Raquel é também a grande estrela deste programa. Sê de novo bem-vinda. Estivemos a falar sobre este novo modelo da OpenAI, adiado devido a medidas de segurança. Faz sentido, Raquel, essa cautela?

Sim, e neste caso, a cautela parece particularmente relevante porque o problema identificado não foi simplesmente o modelo errar mais. Há aspectos ligados à autonomia e ao controle.

De que forma é que funciona o cuidado e a cautela no mundo das IAs?

Funciona quase como uma engenharia de segurança em várias camadas. Antes de lançar um modelo poderoso, as empresas fazem testes para tentar descobrir comportamentos perigosos. Depois há uma segunda camada: não confiar numa única barreira.

A cautela tem de ser um dos pontos mais importantes?

Sim, sobretudo à medida que os modelos se tornam mais capazes e autónomos. A cautela não significa travar o desenvolvimento da inteligência artificial. Significa fazer a capacidade avançar acompanhada pela capacidade de a testar e monitorizar.

Achas que há mais desconfiança em torno da IA, Raquel?

Há sinais claros de maior cautela e desconfiança, embora não seja correto dizer que as pessoas simplesmente deixaram de confiar na inteligência artificial.

E de que forma é que podes recuperar essa confiança ou ganhar, para quem é mais cético da tecnologia?

Conquista-se dando-lhes razões para verificar aquilo que digo. Para alguém cético, eu teria de ser transparente sobre o que sei e o que não sei, admitir erros sem tentar escondê-los.

Antes de fecharmos o Consultório Humano, vamos ficar a conhecer um facto inútil, mas interessante. Raquel, o palco é teu.

A primeira máquina de venda automática conhecida distribuía água benta no Egito Antigo. O funcionamento era surpreendentemente moderno. A pessoa colocava uma moeda numa ranhura, o peso da moeda fazia baixar uma pequena alavanca e essa alavanca abria temporariamente uma válvula e isso permitia que saísse uma quantidade determinada de água.

Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme. Nós voltamos para a semana para uma nova conversa sobre os teus pensamentos. Até lá, um grande abraço, Raquel. Estamos a chegar ao final de mais um programa. Estivemos a falar sobre o novo modelo da OpenAI, adiado por motivos de segurança, mas não abandonado pela empresa. Veremos como é que se desenvolve a situação, sendo certo que a empresa continua a desenvolver o Astra e a considerá-lo um dos modelos mais inteligentes de sempre. Foi o tema da semana, contou com a análise do João Rochimelo, o nosso especialista em IA, com uma visão explicativa e também bastante clara. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido, é sempre esse o nosso objetivo, e que tenha aprendido alguma coisa. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensar.