Lisboa, 1940. Num dia incógnito, em pleno ano fatídico para a Europa, a capital portuguesa revela-se em imagens raras. A multidão, captada pela câmara, mostra a azáfama de uma cidade que também se tornara personagem no conflito bélico iniciado um ano antes: a Segunda Guerra Mundial. É nas ruas, em locais tão reconhecíveis como o Chiado e a Praça de D. Pedro IV, mais conhecida por Rossio, que muitos refugiados encontram rota de passagem e fuga. Sob a aparente neutralidade portuguesa, Lisboa surge como cidade livre, mas enigmática, assumindo um papel decisivo para quem procurava escapar aos horrores da guerra.
Esta viagem ao passado é feita através das imagens perdidas de Eugen Schüfftan (1893-1977), lendário diretor de fotografia de Metropolis (1927), que para trás deixara a Alemanha nazi rumo aos Estados Unidos da América. Num período temporalmente indefinido, encontra-se em Lisboa, de câmara na mão. Regressamos agora a estas mesmas imagens, trabalhadas e remontadas pelo artista português Daniel Blaufuks, que não só as redescobriu nos arquivos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), como a partir delas criou o filme-concerto Naquele Dia em Lisboa, apresentado agora numa versão expandida a que se junta o músico inglês Matthew Herbert para criar uma banda sonora original, e que será apresentada ao vivo – primeiro no Theatro Circo, em Braga, a 27 de setembro, e depois na Culturgest, em Lisboa, no dia 30.
▲ Regressamos agora a estas mesmas imagens, trabalhadas e remontadas pelo artista português Daniel Blaufuks, que não só as redescobriu nos arquivos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), como a partir delas criou o filme-concerto "Naquele Dia em Lisboa"
É também a partir destas imagens, condensadas e desaceleradas, que se abre não apenas uma janela para o passado, mas também um espelho do presente. Refletem-se nelas o papel de Lisboa durante a guerra, já bastante estudado, e as tensões da Europa de hoje. Da capital repleta de refugiados e espiões, emerge um diálogo com a crise migratória atual e com o regresso dos conflitos ao velho continente. “É um filme do passado, mas que me parece tão premente quanto urgente hoje”, afirma Blaufuks ao Observador. Cabe ao espetador criar a sua própria narrativa, acrescenta o artista, mas é por certo no cruzamento inusitado de imagens que reside o fascínio que as mesmas podem ter na contemporaneidade.
Uma descoberta de arquivo
Foi nos primeiros anos do novo milénio que Daniel Blaufuks tropeçou nas bobines esquecidas de Schüfftan. “Estava a fazer pesquisa no ANIM quando me falaram destas imagens. Eram umas latas, até então nunca usadas, identificadas como ‘Lisbon, Text Film’”, recorda. Sem qualquer descrição ou contexto sobre a sua origem, a película despertou-lhe desde logo curiosidade. Blaufuks começa por usá-las no seu filme documental Sob Céus Estranhos, onde traça uma história sobre os judeus que passaram por Lisboa durante a guerra – alguns, como os seus avós de origem polaca, que acabaram por se fixar em Portugal.
Alguns anos volvidos, voltou a olhar para as imagens deste diretor de fotografia, premiado com um Óscar em 1962, pela melhor fotografia no filme The Hustler. “Durante muito tempo estiveram no meu computador, até que, na pandemia, voltei a interessar-me por elas”, explica. As notícias sobre os sucessivos períodos de confinamento e a crise dos refugiados fizeram ecoar novamente o seu poder. Uma primeira versão curta do projeto, com música de Marco Franco, foi apresentada em 2023 e agora, no âmbito da iniciativa Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura, surge a sua versão expandida.
▲ “É um filme do passado, mas que me parece tão premente quanto urgente hoje”, afirma Blaufuks ao Observador
Em ambas, o filme foi sujeito a um processo de remontagem e coloração, incluindo ainda a voz do ator alemão Bruno Ganz, que lê testemunhos de fugitivos de passagem por Lisboa no caminho para o exílio. Entre os textos escolhidos por Blaufuks estão nomes como Arthur Koestler, Hermann Grab, Hans Sahl, Karl O. Paetel, Erika Mann, Alfred Döblin, Heinrich Mann, Hertha Pauli e Balder Olden – autores que, ao longo da sua investigação, descobriu terem feito referência à capital portuguesa.
Num desses textos, recordam-se palavras de Alfred Döblin, ele próprio refugiado: “O cantinho da posta-restante em Lisboa, Portugal, a mais remota região da Europa, tornou-se no ponto de encontro trágico para muita gente neste ano funesto de 1940, que pôs a nu a leviandade e a inconsciência de uma vida aparentemente tranquila na Europa. Povos inteiros foram escravizados e famílias separadas. A Europa estava a pagar pelos seus pecados e pelos seus erros. E nós, refugiados e filhos desta Europa, nós estávamos aqui em Lisboa e esperávamos pela boia de salvação que alguém nos lançaria do outro lado do oceano.”
O entrelaçar de imagens e som
“Ao longo dos anos pesquisei muito sobre a história da cidade neste período e fui reunindo alguns destes excertos. Há bastante informação sobre o papel de Lisboa como refúgio de espiões, mas também textos de autores que escreveram sobre a sua passagem por Lisboa, alguns hoje bastante esquecidos”, sintetiza. Entre essas palavras, persiste o fascínio pelas descrições de uma Lisboa perdida no tempo, que para Blaufuks adensa o mistério em torno das imagens de Schüfftan. “A verdade é que, ainda hoje, continuamos sem saber por que motivo as filmou, em que circunstâncias esteve em Lisboa com material para registo e, sobretudo, porque não as levou consigo”, sublinha.
▲ Ao Observador, Herbert explica a importância dos sons recolhidos pela diretora de som Armanda Carvalho: “Ela esteve nos mesmos locais e gravou os elétricos a passar, passos das pessoas, a água das fontes"
Ao magnetismo das imagens de Schüfftan, revisitadas por Blaufuks, junta-se agora a composição sonora de Matthew Herbert, igualmente seduzido pela narrativa. O músico e produtor britânico propôs-se a criar uma atmosfera imersiva que dá voz às ruas, aos gestos e aos fantasmas desse dia suspenso. “A primeira vez que vi estas imagens tive a sensação de estar perante um filme de ficção científica”, recorda ao Observador. “É uma versão alien de Lisboa, da qual pouco sabemos. Nada sabemos sobre as pessoas que vemos nem sobre o que faziam ali. Mas é precisamente por isso que podemos criar um objeto poético, onde o contexto da guerra está presente, sem estar diretamente inscrito naquelas imagens”, realça.
A desaceleração imposta pela montagem de Blaufuks permitiu a Herbert explorar contrastes entre silêncio e dramatização, criando um espaço para imaginar vozes e sons a partir dos gestos, do andar ou do vestuário das pessoas. “Podemos projetar neles a nossa imaginação e entrar nesse espectro mais humano”, acrescenta. O olhar poético de Blaufuks acompanha esta leitura: “Vemos uma mulher parada no meio da multidão que parece encarar a câmara (ou é a câmara de que a procura?), ou ainda a forma como Schüfftan coloca a câmara num elétrico a contornar o Rossio. Há aí um mecanismo inventado por ele que nos deixa, mais uma vez, a pensar sobre o objetivo ou aquilo que realmente queria filmar”.
Já na criação sonora, procura-se a humanidade nestes rostos anónimos. Ao Observador, Herbert explica a importância dos sons recolhidos pela diretora de som Armanda Carvalho: “Ela esteve nos mesmos locais e gravou os elétricos a passar, passos das pessoas, a água das fontes. Foi a partir dessa junção de sons que compus a banda sonora, mantendo essa ligação humana que me fascinou desde o início”.
Aprender com os mecanismos do passado
Ao contrário das imagens que se podem encontrar de Lisboa neste período, bastante controladas pelo regime do Estado Novo, o olhar livre de Schüfftan continua a intrigar os dois artistas. “O mistério destas filmagens é essencial, assim como a possibilidade de olhar para a Europa de hoje e sentir que enfrentamos desafios semelhantes”, reflete Blaufuks. A história não se repete, diz, mas os mecanismos mantêm-se. “Não vale a pena comparar épocas, mas podemos aprender com esses mecanismos.”
▲ “O mistério destas filmagens é essencial, assim como a possibilidade de olhar para a Europa de hoje e sentir que enfrentamos desafios semelhantes”, reflete Blaufuks
“Vivemos tempos acirrados, perigosos, em que parece não haver meio-termo. Há um regresso de extremismos e fascismos. É preciso recentralizar a discussão e lembrarmo-nos de que somos, antes de tudo, seres humanos”, defende. Ver hoje estas imagens é também pensar o papel de Lisboa e da Europa no conflito que terminaria em 1945, mas cujas consequências ainda se fazem sentir.
“Em 2025, a história fala tanto dos refugiados judeus da Segunda Guerra como das migrações posteriores, dos portugueses em França durante a ditadura, ou dos que hoje fogem de guerras em busca de uma nova vida na Europa.” Acima de tudo, este filme-concerto propõe-se como uma experiência visual e sonora sob o signo da empatia. “Vale a pena olhar para estas histórias, para estas pessoas e para aquilo que tiveram de enfrentar”, conclui Blaufuks.