Os seguidores desde os primeiros tempos lembrar-se-ão do pequeno primeiro estúdio, ali mesmo no Páteo Bagatela, onde se lançou a solo depois de partilhar um espaço com três outras joalheiras, já lá vão 12 anos. Depois, a loja fechou portas e o atelier instalou-se no Restelo. Cinco anos depois, Juliana Bezerra volta à casa de partida, agora com mais espaço, montra desafogada e um universo pensado ao detalhe. “Tem uma luz maravilhosa”, gaba a anfitriã em dia de inauguração oficial. Treze anos depois da lançar a marca, mantém a timidez original no contacto com a imprensa apesar da explosão inegável da marca e da legião de fiéis, cúmplices de todos os dias e drops. “Mostra o crescimento mas é mais que isso, está do jeito que queria. Estava na hora certa. A marca ainda é muito eu.”, descreve Ju, como é carinhosamente chamada pelos próximos e pela squad que acorre em peso.
Não foi planeado ao detalhe mas é “sempre em setembro” que se dão as mudanças de montra. Agora com porta aberta para a Rua da Artilharia 1 e para o interior do Páteo, renovou uma morada onde até aqui funcionou um “spa meio suspeito”, ri-se. Um número de porta que esteve sempre debaixo de olho, mesmo quando a mudança para a zona ocidental da cidade se impôs, afastando-a do centro. “Quando saí do Páteo e virei nesta esquina sempre disse que se esta loja estivesse livre, eu nunca teria saído daqui, porque fui muito feliz aqui, foi aqui que a marca cresceu e a localização é fabulosa. Fiquei sempre com esta ideia. As pessoas faziam um esforço para ir até ao Restelo, não é uma zona muito comercial. Um dia vim jantar ao La Campania [mesmo em frente] e vi o espaço para arrendar. Não, tinha que ser meu. E foi!”
Rita Mongiardim, da Skike Design volta a intervir na arquitetura de interiores e identidade do estúdio, entre as referências contemporâneas e a recoleção de peças vintage, que ajudam a reconstruir este gabinete de curiosidades bezerrianas. O mostruário principal é um exemplar dos anos 40 do século passado, enquanto o balcão de atendimento terá cumprido as funções de cómoda ou de louceiro em outras vidas. “Aqui há outras necessidades e posso ter uma casa mais arrumadinha, que não é tão oficina, cheia de pormenores. Sou um pouco acumuladora, fui trazendo coisas de casal do atelier, ou compramos juntas.”, descreve Juliana. “Este chão foi a minha primeira paixão, depois toda a textura das paredes, os nichos, o pé direito alto, esta ideia mais teatral com o cortinado”.
Com uma paleta cromática inspirada na luz de Lisboa, e com tons exclusivos criados especialmente para este espaço, o ambiente recria um mood marshmellow. Detalhes como os candeeiros Carolina Andrade ou os espelhos Maria Castel-Branco foram feitos de propósito para o projeto. A estante ondulante (num reaproveitamento da versão anterior) e a finalização porosa parecem ajustar-se às idiossincrasias das criações de Juliana. Essa evolução, de resto, está patente no painel de tela que dá as boas vindas no coração do espaço, e que resume rascunhos de trabalho ao longo dos cinco anos em que funcionou no Restelo. “É giro ver como o meu trabalho mudou de um para outro. Fiquei muito mais figurativa. Nem nos apercebemos”. A peça é a encarnação que se segue ao painel de azulejo Viúva Lamego do atelier do Restelo.
Bezerra admite que tem trabalhado muito nas suas peças a partir de casa, mas este novo destino terá um recanto com todas as condições para deitar mãos à obra, uma dimensão nem sempre fácil de conciliar com o negócio puro e duro. “A parte criativa cada vez se torna mais difícil por falta de tempo, porque além de criadora sou empresária, são lados que não se combinam. Mas continuo a adorar.” Quanto ao processo criativo, continua a partir de muitas leituras e visionamentos diversos. Só depois, é que ruma à bancada. “Aquilo já está em mim e as peças saem com facilidade. Às vezes faço rascunho mas a diferença do papel é muito grande, até porque trabalho muito com textura. A bancada é a minha parte favorita, se pudesse vivia ali.”
Numa análise mais fina do perfil do público, acredita que a exigência subiu de nível e que o maior desafio é conseguir acompanhar a velocidade com que procuram coisas novas. A esta urgência pelo inédito soma-se a preponderância de alguns clássicos da marca, tão requisitados quanto rentáveis. “Tenho peças com seis, sete anos, que não consigo tirar, são as que se vendem, estão sempre no top dez. Tem coisas que sei que tenho que manter porque não vivemos do ar.” Peças como o anel Ma Vie, os brincos Flor de Arroz ou o colar Como Antigamente figuram entre os prediletos, para não falar do valor estimativo. “Quando estava grávida, a obstetra tinha um colar desses enquanto me fazia o parto. Fico feliz porque são peças de que gosto”.
No recheio dos mostruários, incluindo velhos contadores repletos de gavetinhas, os resistentes estão espalhados por diferentes locais, enquanto a nova coleção está isolada — com um total de 63 peças criadas em prata e prata com banho de ouro, “Delírio” é uma ode à fantasia. As criações organizam-se por tipologia para facilitar as buscas das clientes e convidar a um trajeto pela dimensão lúdica e pelo “surrealismo cor de rosa” da criadora, entre rabos de sereia, referências de Dali, Gala e Schiaparelli, cabeças com flores, patinhos corais e uma vibe Maria Antonieta.
Com a nova morada a requisitar a sua presença de forma mais regular, a loja no Restelo estará aberta até o dia 30 de setembro e, depois disso, irá encerrar temporariamente. Na Rua da Artilharia 1, funciona entre as 11h00 e as 15h00 e entre as 15h30 e as 19h00. Encerra aos domingos e segundas.