A certo ponto de Dance Called Memory, o quarto e mais recente álbum dos Nation of Language, percebe-se que a banda de Brooklyn já não está apenas a usar o passado luminoso da synth-pop, que não está apenas a atravessá-lo como quem calcorreia os corredores de um hiper-mercado e vai colocando os produtos que lhe interessam no carrinho; não, eles estão a reescrever esse passado, como alguém que herdasse um edifício abandonado e tomado pelas ervas e partisse paredes para uma nova cozinha, criasse uma sala onde nenhuma existia, dois quartos extra para os miúdos.

Talvez seja por alturas de Now that you’re gone, o quarto tema do disco e uma belíssima canção de perda, bonita como poucas, que nos apercebamos de que qualquer coisa mudou aqui, de que esta é e não é a mesma banda, e que, alguém para ser quem é, tem de deixar de partes do que foi. Estamos por uns instantes a pensar o que tudo aquilo nos recorda, os clássicos da synth-pop mas também os que vieram depois, como os Magnetic Fields em alguns temas. E sensivelmente a meio da canção, enquanto se fuma um cigarro e se olha lânguida ou melancolicamente pela janela, isso já não importa. A minha função é, supostamente, traduzir o que um disco, cada som, palavra, melodia, harmonia, simboliza – mas naquele instante já não importava: é belo e é deles, está aqui e isto é tudo.

Mentira, não é tudo, falta um pormenor importante: Dance Called Memory é um espaço que vai sendo enchido pela tristeza, mas uma tristeza que conforta; pode até partir de um lugar de dor, pode ainda estar a processá-la, mas quando é transformada em música, tudo se torna acolhedor. E isso é um feito.

[o álbum “Dance Called Memory” está disponível no Spotify:]

Se esta ideia vos agrada, não me deem os parabéns pela minha imensa inteligência (quer dizer, deem, nunca é de mais) porque nem fui eu quem criou a música, nem fui eu quem criou a própria descrição, estou só a modos que a plagiar: o parágrafo acima parafraseia uma entrevista do vocalista (e não só) Ian Richard Devaney, quando em 2020 (ano da estreia da banda, com Introduction, Presence), ele disse que queria que os Nation of Language criassem um espaço “in which to ache” (“no qual sentir dor”, algo assim). Eu só acrescentei o pormenor de esse “ache” não magoar, antes nos permitir aninhar.

Em cinco anos, os Nation of Language lançaram 4 discos, o espaço “in which to ache” cresceu e, acima de tudo, tornou-se deles – não foi sempre assim, inicialmente, quando os ouvíamos, pensávamos nas melodias dos Orchestral Manouvres in the Dark, na maquinaria sensual dos New Order, na experimentação de Brian Eno.

Mas estamos quase no fim, na última faixa, Nights of weight, e eis que já não pensamos nos OMD ou nos New Order; os sintetizadores deram lugar às guitarras, a voz é mais frágil e triste do que nunca, ele canta: “Trials await us/ I can’t handle your silence/ Used to be comforting, long ago”. E depois, mesmo a acabar: “Fixing our eyes on the door/ It’s never closed/ I want to know, you know/ I’ll follow not far behind”. E a última palavra que é dita, depois da porta que nunca está fechada, é “Go” e sabemos que algo mais do que o disco acabou aí.

Por aqui se vê que não estamos perante um monólito: temos canções mais expansivas, como a maravilhosa In another life, com synths aos pulos, uma grande linha de baixo e uma bela melodia, mas a synth-pop também é conduzida a um lugar de melancolia, como em Under the water, que começa com Wait, can I stay? e em que a voz parece sempre uma pergunta cuja resposta se adivinha negativa. Os sintetizadores acumulam-se, a melodia encontra lugar dentro de nós e a tristeza aconchega-nos. E ocasionalmente a guitarra tem primazia, como em I’m not ready for the change, que tem laivos de My Bloody Valentine ou Cocteau Twins (e tem um belo baixalhão e é CANÇÃOZORRA).

[o vídeo de “Inept Apollo”:]

Isto não é nem disco de banda estreante nem disco de garoto – Devaney está a meio dos trintas e o que une liricamente o disco, apesar da sua variedade instrumental, é uma espécie de olhar pelo retrovisor, de fazer o balanço do que se viveu, de anotar num caderninho quem entrou e quem saiu das nossas vidas e porquê – e se a nossa memória das pessoas e do que vivemos corresponde ao que realmente aconteceu.

Olhando para o passado da banda, isto representa uma ligeira mudança de direção – não era habitual toda esta emocionalidade incontida, mas ela representa aquilo a que Ian se propôs neste disco: criar música “sintetizada” que soasse distintamente humana e única; e quando ouvimos In Your Head, a penúltima faixa do disco, percebemos onde ele quer chegar: há sintetizadores, beats dançáveis, mas depois a voz, quando chega a ponte, traz a canção para um lugar simultaneamente triste e belo, como um parque no outono. E isto está longe do que nos habituámos com eles, muito longe de On Division St (é uma grande, grande canção, In Your Head, e quando a guitarra entra e a canção sobe e sobe antevemos suor a ser vertido nos concertos).

Não costumava ser propriamente assim: o léxico da banda era composto por linhas de baixo pejadas de força motriz e pads diáfanos enquanto voz e melodia se embrulhavam na manta de um sintetizador — e sabíamos exatamente de onde isto vinha, dos Human League, dos Devo, dos OMD, dos New Order, ou (a acreditar em Ian) dos Gang of Four – uma gramática precisa, mas ainda assim ampla.

Talvez a mudança tenha começado em Strange Disciple (de 2023), quando abriram a porta a um registo mais (à falta de melhor expressão) sombrio. Nesse sentido, Dance Called Memory entra precisamente por essa fresta: e se é definitivamente o disco mais introspetivo e noturno da banda, não deixa de ser fascinante que eles consigam conduzir cada beat ao interior, não dos músculos, mas das sinapses que lidam com as emoções menos positivas ou mais reflexivas e mesmo assim conseguem que isso faça sentido.

[o vídeo de “I’m Not Ready for the Change”:]

O sentido está aqui, no golpe de navalha de Now That You’re Gone, uma canção desde o início de pendor mais gótico que tudo o que haviam feito até aqui. A canção foi inspirada pela morte do padrinho de Devaney, o que o levou a pensar no papel dos pais como cuidadores — e de repente percebe-se o título do álbum não como um gesto estilístico, mas como um programa emocional. A dança da memória não é celebração; é resistência, esforço para ficar (apesar de tudo), uma coreografia de quem aprende a mover-se num espaço onde falta alguém. Como se dança agora que nos falta o parceiro de dança?

Now That You’re Gone, uma tremenda canção, é a peça central do disco, a súmula, a perfeição, a sombra que se espalha pelo resto do álbum, a canção à qual as restantes canções prestam respeito e devoção. É um pequeno monumento de humanidade e merece que Ian receba um abracinho dos fãs.

O espelho oposto de Now That You’re Gone é I’m Not Ready for the Change, mais luminosa (a abertura é um espanto, as vagas de synths e guitarras a acasalarem como duas pessoas que deixam o seu corpo derreter uma na outra como se o tempo parasse e se tornassem um só); é tese e antítese numa só canção: a mudança é inevitável, diz a pulsação, mas é duríssima de lidar. É, talvez, a canção que mais se aproxima do passado da banda: percussões acentuadas, baixo elástico, melodia de encantar.

Mudar é inevitável e tantas vezes doloroso. Os Nation of Language mudaram rumo a uma pop mais reflexiva e liricamente pesada; mas mudar, ou aceitar a mudança, também pode trazer libertação e quando chegamos ao fim de Dance Called Memory sentimos que houve uma purga dos nossos fantasmas e estamos menos pesados.