Lisboa, 1962. No “país triste e cinzento” há murmúrios de liberdade. A revolta académica sai à rua, a universidade e o meio intelectual alimentam a resistência política. A resposta, na forma da perseguição e repressão violenta do Estado Novo, não refreia os ânimos, pelo contrário. A revolução só se faria doze anos mais tarde, mas os seus primeiros sinais davam-se em cafés e tertúlias de estudantes, gente para quem o ar do tempo já então se tornava cada vez mais irrespirável.
Foi nesta milieu que, entre 1963 e 1968, José Cardoso Pires ambientou Lavagante, pequena novela sobre um “encontro desabitado”, um romance ambíguo entre Cecília, uma sedutora estudante universitária, e Daniel, médico de simpatias democráticas. Foi também este o conto que António-Pedro Vasconcelos elegeu para o que viria a ser o seu derradeiro projeto: uma adaptação livre da obra de Cardoso Pires.
Vasconcelos viria a morrer em março de 2024, mas deixou pronto argumento e algum trabalho de pré-produção, que foi continuado pelo produtor Paulo Branco e concretizado pelo realizador e diretor de fotografia Mário Barroso, 78 anos, amigo e companheiro de geração do cineasta de O Lugar do Morto e com o aval de Teresa Schmidt, viúva de Vasconcelos. “Só li o argumento no dia em que o Paulo me telefonou, dizendo ‘acho que devias ser tu, eras amigo dele’. Aceitei claro”, começa por explicar Barroso ao Observador.
[o trailer de “Lavagante”:]
Lavagante, o filme final que chega, enfim, às salas esta quinta-feira, a tempo de marcar o centenário de Cardoso Pires, é uma junção de três vozes em três tempos diferentes: a de um autor que escreve, de um argumentista que adapta e de um realizador que, por fim, filma, procurando respeitar a essência da intenção de ambos.
O melodrama central acompanha, como no livro, o romance de Cecília (Júlia Palha) e Daniel (Francisco Froes), com personagens na periferia como Zé (Nuno Lopes), jornalista e amigo deste último, e Salaviza (Diogo Infante) inspetor da PIDE e espécie de “protetor” fixado na jovem, que conhece desde os 14 anos e de quem se acerca na esperança de um dia a ter como sua posse. “O que é que quer de mim?”, pergunta Cecília numa sequência tardia da obra; “Tudo”, responde Salaviza.
Diretor de fotografia e realizador esporádico, com currículo extenso quer em Portugal quer em França, onde vive há mais de cinco décadas, Mário Barroso sublinha que “o argumento é o do António-Pedro, no essencial está lá tudo”. Reconhece, no entanto, a necessidade e o desafio (pessoal e profissional), de adaptar o trabalho às suas sensibilidades enquanto cineasta. “Só o consegui fazer porque o Paulo Branco me deu a segurança de dizer ‘o realizador agora és tu, é o teu filme. Adaptei o projeto à minha sensibilidade, respeitando sempre o espírito e a ideia do António-Pedro”, diz.
Princípio norteador dessa “ideia” são as constantes referências e citações artísticas que balizam e comentam o drama do filme. Uma particular sequência-chave – “uma ideia belíssima”, diz Barroso – acontece no primeiro ato, quando as personagens assistem a Tosca, ópera de Giacomo Puccini e que antecipa os acontecimentos que daí em diante se vão desenrolar no filme.
▲ Central à conceção da cidade como lugar de memória é a opção estética pelo preto-e-branco, uma espécie de claustrofobia assumida desde cedo pelo realizador e que informou todo o desenho de luz do filme
“O António era uma pessoa profundamente culta, sempre foi um homem de citações, com uma memória prodigiosa para o cinema e para a literatura. A versão dele talvez fosse mais cultural, enquanto que eu procurei retirar um bocadinho algumas dessas citações, pura e simplesmente por não ter a mesma sensibilidade que ele tinha”, explica Mario Barroso.
Essas citações permanecem, contudo, numa Lisboa que é também inventada pela memória fílmica – a influência de um certo cinema americano e europeu dos anos 40, 50 e 60 é clara – e na construção de uma personagem, Cecília, que deve algo aos arquétipos de femme fatale do noir, mas também às personagens femininas de Ingmar Bergman (o realizador assume Harriet Andersson em Monika e o Desejo como grande citação direta em Lavagante).
Mário Barroso, que já tinha trabalhado com a atriz em 2020 no seu Ordem Moral, defende os talentos da Júlia Palha perante um meio que descreve como hostil a um certo tipo de ator televisivo. “Há este preconceito um bocado imbecil, e que não é só português, de que uma mulher bonita, loira e de olhos azuis é necessariamente estúpida e incompetente. Nunca vi uma telenovela portuguesa, mas de que é que as pessoas vivem se não fizerem essa marmelada? A Júlia foi de uma disponibilidade e de uma paciência tremenda, percebeu inteiramente a minha intenção e acho que é uma atriz muito capaz, tive uma belíssima experiência com ela”.
Também central à conceção da cidade como lugar de memória é a opção estética pelo preto-e-branco, uma espécie de claustrofobia assumida desde cedo pelo realizador e que informou todo o desenho de luz do filme. “Não ia filmar a cores e depois carregar num botão e mudar a imagem como se faz no telemóvel. Quis iluminar o filme logo de início para o preto-e-branco, que a imagem correspondesse aos filmes americanos dos anos 40 e 50, os da nouvelle vague…”, explica.
▲ Mário Barroso sublinha que “o argumento é o do António-Pedro, no essencial está lá tudo”
A ideia foi apoiada pelo produtor do filme, Paulo Branco, a quem Barroso sublinha a “grande sensibilidade” para perceber a intenção do realizador. Ao mesmo tempo, não esconde que houve ainda uma “razão suplementar” que levou a que a opção pelo preto-e-branco fosse tomada, e que diz respeito a um posicionamento ideológico e ao comunicar de um estado de espírito de uma época na história recente do país.
“Saí de Portugal há muitos anos, mas os meus anos ‘conscientes’, digamos assim, entre os 15 e os 20, que passei aqui, foram muito difíceis. A ideia do ‘país cinzento’ é um cliché e uma banalidade, o país tinha o mesmo sol e a mesma cor. O cinzento, para mim, era a tristeza. Tinha uma vida normal, tinha namoradas, ia à praia e ao cinema… mas havia sempre um receio e um incómodo permanentes, sobretudo para pessoas que, como eu, se comprometeram desde cedo com a militância política”, diz.
Desses anos, o cineasta recorda a pobreza extrema que se via nas ruas e que, apesar de não ter vivido diretamente, cedo deixaram a sua impressão. “Venho de uma família privilegiada, o meu pai era médico e a minha mãe engenheira, e na Rua Nova da Piedade, onde morávamos, éramos praticamente os únicos a ter sapatos”.
Para o realizador, “as gerações atuais não podem imaginar” os anos da ditadura, cada vez mais distante na consciência popular. Esse “não imaginar” foi precisamente o motor para António-Pedro Vasconcelos partir para a adaptação, e para Mário Barroso a concretizar, numa tentativa de alertar para o que alguns ainda viveram e não querem que se esqueça.
“O António estava convencido de que os mais jovens não têm a consciência do que se passou durante 48 anos em Portugal, o quão duro foi para a esmagadora maioria das pessoas, e o argumento que escreveu tinha um lado quase pedagógico, uma vontade de explicar o que foi o salazarismo. Era algo de que falávamos e uma preocupação que partilho, e cada vez mais com o rumo que as coisas estão a tomar. Faz-me muita confusão que as gerações mais novas sintam esta ‘atração pelo abismo’.”