Os anúncios dos álbuns de Taylor Swift acabam por ser representativos daquilo que se passa na vida da cantora, seja o disco em questão uma ilustração da realidade ou, de certa forma, ficcionado dentro da narrativa que pretende para determinado momento na carreira. Pegando nos exemplos recentes, o anterior The Torture Poets Department foi anunciado durante os Grammys de 2024, ali numa paragem entre diferentes fases da The Eras Tour, num momento de vitória. A apresentação do álbum, feita daquela maneira, era uma consagração em cima de uma consagração. Era, também, uma celebração da própria The Eras Tour: não só de números, mas do facto de acontecer, o auto-elogio à revisitação de uma carreira em mais de três horas. Sem surpresas, The Torture Poets Department entrou na “Eras” quando esta chegou à Europa, pouco depois do álbum ser anunciado. Os fãs conheciam as canções como se existissem há anos.
Esta era a realidade de Taylor Swift em 2024, um estado de graça tão grande que podia enfiar o presente no meio da efervescente festa sobre o passado. Não era a primeira vez que o fazia durante a digressão. Em 2023, em dois momentos diferentes, anunciou em concertos duas novas edições das suas “Taylor’s Version” — Speak Now e 1989. Isto importa porque tudo na carreira de Taylor Swift é uma roda em movimento, tudo se interliga e acontece com a ideia de que se algo está a correr bem, pode correr muito melhor. Desde que a The Eras Tour terminou que a cantora só marcou mais pontos, a ausência de anúncios sobre novas entradas no catálogo “Taylor’s Version” foi abafada por finalmente conseguir o que queria com isso: os direitos das próprias canções.
No último 12 de agosto, Taylor Swift foi ao podcast do então namorado Travis Kelce e do irmão, Jason — New Heights— para anunciar o seu 12º álbum, The Life Of A Showgirl. Então namorado porque, entretanto, ficaram noivos. Desde então até este 3 de outubro, data em que as novas canções ficaram disponíveis, The Life Of A Showgirl tornou-se no álbum com mais reservas no Spotify. Mais de cinco milhões de pessoas colocaram o álbum nos favoritos para serem notificados no momento do lançamento. Confirmando o que dizíamos, a vida de Taylor Swift só tem ficado melhor. Aliás, consta que uma das razões para não fazer o próximo Halftime Show do Super Bowl (que vai ficar por conta de Bad Bunny) passa por querer deter os direitos da transmissões. Ora aí está mais um bom problema para se ter.
O 12.º álbum é o primeiro álbum após a The Eras Tour. Contudo, Taylor ainda não está livre dela. Foi pensado e vivido durante as datas europeias em 2024, entre concertos e viagens à Suécia, onde se encontrava com Max Martin e Shellback, produtores com quem havia trabalhado em Red (2012), 1989 (2014) e Reputation (2017). De fora ficou Jack Antonoff, que aparecia nos créditos dos álbuns de Taylor desde 1989. Nas doze canções de The Life Of A Showgirl, Taylor Swift, Max Martin e Shellback surgem nos créditos, como produtores, compositores e letristas, com a exceção de Father Figure, quarto tema no alinhamento, que não é uma versão do tema de George Michael, mas inspira-se nele e sampla-o. Colaborações? Uma, isso já se sabia,: a de Sabrina Carpenter no última tema, o que dá título ao álbum.
No momento em que estamos a ouvir e a escrever sobre o álbum, (ainda) não surgiram mais canções associadas a The Life Of A Showgirl para lá das anunciadas. Algo que contradiz as histórias de lançamentos dos dois álbuns anteriores, Midnights e The Tortured Poets Department, mas confirma o que foi dito sobre este: não haveria surpresas. Apesar disso, este novo lançamento vem na linhagem dos anteriores. Aliás, deve mais a Midnights do que ao antecessor direto, em parte porque Poets Department era um álbum invulgarmente insípido na carreira de Taylor Swift: à parte do contexto em que foi lançado, foi o primeiro em que sentiu que a artista não se desafiava criativamente. Era vítima do cansaço, não da The Eras Tour, mas da própria “existência Taylor Swift”. Vários artistas têm álbuns assim na carreira, faz parte, são aqueles solavancos necessários. Não são bons ou maus álbuns, mas entrepostos. O tempo dirá que tipo de entreposto é The Tortured Poets Department.
The Life Of A Showgirl, pelo contrário, está cheio de vida. Um bom balanço entre Lover e Midnights, como se fosse o álbum — e talvez seja, agora que existe — que não existiu entre os dois: houve outros, Folklore e Evermore, álbuns de pandemia que são uma força por si só e ficarão sempre ali, num lugar próprio, separados do resto. Essa vida que brota não é a vida de digressão. Aceite-se que isso é só narrativa para criar um contexto de forma a que o álbum exista e possa assim haver uma história para contar. Não é um álbum gravado em digressão como os álbuns rock gravados em digressão são, porque a música de Taylor — e, por consequência, a música de The Life Of A Showgirl — é demasiado polida para isso.
O “cheio de vida” é cor. The Life Of A Showgirl não amocha num qualquer derrame sentimental como The Tortured Poets Department, em que as canções pareciam desajustadas da realidade – fruto de tudo na sua vida, naquele momento, estar a acontecer depressa demais. Quando ao quinto tema, Eldest Daughter, canta:
“Everybody’s so punk on the internet
Everyone’s unbothered ’til they’re not
Every joke’s just trolling and memes
Sad as it seems, apathy is hot
Everybody’s cutthroat in the comments
Every single hot take is cold as ice
When you found me, I said I was busy, that was a lie”
Isto não soa como um lamento, mas como um caminho para a elevação.É uma realização que vai crescendo, sem armadilhas. E, a quente, é das canções mais adultas que Taylor Swift escreveu na última década. O tempo — e as audições — dirá se tal análise se confirma.
The Life Of A Showgirl é um álbum com curiosas nuances, capaz de soar maravilhosamente pop, mas sem medo de testar águas em derivações do rock que são novas na carreira de Taylor Swift. O arranque de Opalite parece shoegaze, Wood convidou a I Want You Back dos Jackson 5 para uma canção dos Vampire Weekend, o instrumental de Actually Romantic soa a indie rock norte-americano do início dos 1990s. Os primeiros segundos de Father Figure ouvem-se como uma versão lenta de Fix Up Look Sharp de Dizzee Rascal (inesperado, mas é ao que soa). Embora nunca tenha estagnado criativamente, este tipo de atitude era o que faltava em The Tortured Poets Department e agora aparece revitalizada — como nunca, arriscamos dizer, mas esperemos pelo assentar da poeira para conclusões definitivas. Complexa, mas não complicada.
The Life Of A Showgirl procura ideias, não fica estacionado nas que já estavam no lugar. Taylor Swift foi sempre feliz nesse processo. Percebe-se que o álbum anterior era um álbum medroso, e aqui ela surge livre, selvagem q.b. e dada ao risco, mesmo que controlado. Talvez essa seja a parte “digressão” de The Life Of A Showgirl, permitiu que ficasse mais desenvolta e mais concentrada em si, do que nos “problemas dos seus problemas”. E de uma coisa a outra vai uma grande diferença.
Bom exemplo disso é Honey, canção que rodopia em volta de velhos assuntos de sempre – “o que acham de mim, o que acham de mim?” — só que fá-lo a olhar para o passado, por cima do ombro, como quem está noutra fase da vida. Como quem assume que determinada questão está ultrapassada. Mas se está ultrapassada, porque é que ainda está aqui entre nós? Faz parte do imaginário de Taylor Swift e se estivesse ausente seria estranho. Mais confessional ou mais ficcionada, mais sincera ou mais trabalhada, há uma “ideia” Taylor Swift, há uma construção, há uma artista. E esse lado permanece. Não será a última canção sobre o tema, mas é a canção, neste momento, que o trata com uma cadência adulta.
O final com Sabrina Carpenter, no tema que dá título ao álbum, toca como uma canção de créditos finais. É a expressão derradeira da tónica do disco: The Life Of A Showgirl é um álbum-narrativa, uma história, um processo. E é talvez aí que se revela como um álbum de digressão, não no sentido clássico, de algo que é construído de forma crua e à flor da pele. Antes, algo em movimento, enquanto se olha em retrospetiva sobre o que se fez e se anda a fazer.
Este é um álbum em movimento, que anda um pouco para trás na evolução sonora de Taylor Swift, mas fá-lo para encontrar algo que ficou perdido. E ainda bem que o faz, não sabíamos que havia algo a dizer entre Lover e Midnights. Provavelmente, algo que Taylor Swift percebeu ao revisitar a carreira durante a The Eras Tour, um espaço para explorar a luz pop de Lover com o ritmo dopado e exausto de Midnights. O resultado é The Life Of A Showgirl, que tem o talento de sugerir que é um misto dessas ideias, mas é melhor do que a soma delas. Algo novo e que, ao contrário de The Tortured Poets Department, olha para a frente, entusiasmado e entusiasmante.
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