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Mário Soares é um homem quebrado. Ainda sonha com a vitória nas eleições presidenciais, mas as sondagens são aterradoras. Chamam-lhe incoerente, oportunista, mau político. A característica pessoal que mais lhe atribuem é ser mentiroso. Não passa dos 8% nas intenções de voto e o staff dele tem nas mãos uma sondagem interna ainda pior, de apenas 6%.
Há que tomar medidas de fundo, que têm a ver com a política de austeridade, ou seja, a redução de consumos, com o aumento da produção, a substituição de importações e o incremento das exportações e com o aumento da poupança.
O país não lhe perdoa o duro programa de austeridade que teve de aplicar enquanto primeiro-ministro. A ambição de ser presidente da República, que mantém desde o início da década, está seriamente comprometida. O círculo de conselheiros mais próximos, que junta algumas das cabeças mais brilhantes da política, discute formas de o tentar convencer a desistir. Recorda Isabel Soares, filha de Mário Soares.
As sondagens davam-no 8%. E houve muita gente a aconselhá-lo a desistir, a dizer: "Não vais conseguir nunca, é um disparate, é melhor não concorreres".
Os conselheiros ensaiam argumentos para justificar a desistência. Por exemplo, Soares já deu muito ao país. Ou então, Soares já passou por muitas provações. Todos insistem: mesmo que abandone a corrida, a História vai fazer-lhe justiça. Não tem de se sujeitar a uma derrota humilhante. Mário Soares escreve um diário, onde não esconde o estado de profundo desalento em que se encontra. Sente-se irritado e desanimado, sem um plano para recuperar. Esta semana já foi duas vezes ao cinema, num desejo assumido de fugir da realidade. É ele quem o escreve naquelas páginas. As probabilidades de vitória são quase nulas. A perspectiva muito razoável de não passar à segunda volta é muito dura. Chega mesmo a confessar: está a perder o controlo. Um candidato improvável à direita, três candidatos à esquerda e todos com hipóteses reais de vencer. Durante longos meses, quatro figuras vão medir forças pela sucessão do general António Ramalho Eanes e um deles será o primeiro civil eleito presidente da República desde o 25 de abril de 1974. Os portugueses estão prestes a assistir à eleição presidencial que redefiniu a esquerda e que relançou a direita. A única que até hoje foi disputada a duas voltas. Aquela que dividiu verdadeiramente o país ao meio e que acabou decidida pela margem mais curta da História. Esta é a história das eleições presidenciais de 1986, a campanha mais espetacular de sempre. Uma campanha feita de reviravoltas, de traições, de combate político e de conspiração, muita conspiração. Esta é a eleição mais louca de sempre. Uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Urién. Episódio um: apostámos no cavalo errado.
Há momentos que mudam a história. Este é um deles. A gama elétrica Kia mostra que existem outros caminhos mais conscientes, sustentáveis, mais inteligentes, com autonomia superior a 600 km. Afinal, o próximo destino nunca deve ter limites. Kia, movement that inspires.
Freitas do Amaral começa o ano de 1985 com uma garantia: não vai ser candidato à presidência da República. Disse-o numa entrevista ao semanário Expresso, sem qualquer margem para segundas ou terceiras leituras, mas nunca deixou de pensar na hipótese. Aliás, nem era uma ideia assim tão estranha. Afinal, Sá Carneiro tinha-o desafiado logo em 1980, mas Freitas recusou.
Analisámos as consequências políticas desta tragédia nacional e tomámos também medidas imediatas relacionadas com as suas consequências mais diretas.
Francisco Pinto Balsemão, que sucedeu a Sá Carneiro como primeiro-ministro depois da tragédia de Camarate, até chegou a sugerir que, se as coisas entre os dois corressem bem no segundo governo da AD, seria Freitas o candidato da direita. Só que as coisas não correram nada bem.
O ex-presidente do CDS encontra-se demissionário do cargo de vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, aguardando que seja assinado pelo Presidente da República o decreto de exoneração sob proposta do Primeiro-Ministro.
Freitas do Amaral, que era vice-primeiro-ministro, rompeu com Pinto Balsemão e abandonou mesmo a política. O primeiro líder e fundador do CDS passou os últimos anos a fazer aquilo que verdadeiramente gosta A dar aulas de Direito na faculdade e a viajar com a mulher, Maria José, e os quatro filhos. Mas é claro que nunca deixou de pensar em Belém. Afinal, Freitas é um político e todos os políticos têm ambições. Os amigos incentivam-no a avançar para a sucessão de Eanes. E ele não consegue esconder que até acha alguma graça às reuniões e almoços conspirativos que vai mantendo. Até as crises na coluna, de que já sofre há bastante tempo, apesar de ter apenas 43 anos, estão menos intensas. Mas Freitas é tudo menos ingênuo. Sabe que sem o apoio do PSD, as hipóteses de ganhar são praticamente nulas. E à direita, não falta gente com vontade de avançar. O Partido Social-Democrata chega a ter oito possíveis candidatos ao mesmo tempo, quatro militares e quatro civis. Ou melhor, oito, mais um. O desejo de apoiar Mário Soares continua bem vivo para alguns barões e notáveis do partido. E Balsemão, que nunca perdoou Freitas pela ruptura em 1982, é um deles. Só que toda a gente sabe que existem algumas regras elementares em política. Regra número um: os vazios ocupam-se sempre. Regra número dois: as coisas mudam muito rapidamente. Dez de abril de 1985. Freitas vai de carro com a mulher e os quatro filhos. Regressam de Guimarães, onde passaram a Semana Santa. Sintoniza o rádio do Volkswagen na Antena um. É 13:00, ainda não almoçaram e têm pelo menos sete horas de caminho até Cascais. Há uma notícia que lhe capta de imediato a atenção. O general Firmino Miguel, o candidato com que PSD e CDS sonhavam e que os jornais davam como certo nas eleições presidenciais, comunica ao país que está fora da corrida.
O general Firmino Miguel anunciou hoje que não vai ser candidato à Presidência da República. O general era dado como um dos nomes mais fortes para receber o apoio da direita na corrida a Belém.
Freitas escuta em silêncio, mas a cabeça fervilha. Começa rapidamente a juntar as peças. Nenhum militar que se leva a sério vai aceitar ser segunda escolha. Logo, a alternativa da direita terá de ser um civil. Depois, também terá de ser alguém conhecido dos portugueses. Concede que existem uns poucos com esse perfil, mas todos demasiado envolvidos na luta político-partidária dos últimos anos. E, por fim, tem de ser uma pessoa relativamente independente. Enquanto conduz, percebe uma coisa com perfeita clareza: o jogo tinha acabado de mudar. Não há ninguém em melhores condições para avançar do que ele. Sabe que, antes de tomar qualquer decisão definitiva, vai ter de ouvir os mais próximos. Não bastam as palmadinhas nas costas que foi recebendo ao longo dos últimos meses e tem plena consciência de que muitos, sobretudo a família, vão dizer-lhe para não avançar. O filho Domingos Amaral será um deles, recorda o próprio, 40 anos depois.
Eu tinha uma visão sobre a política que ficou muito marcada pelo acidente de Camarate e acho que o meu pai ficou muito desiludido com isso e não se sentia feliz na política. Então quando ele começou a querer voltar e a candidatar-se, eu disse: "Não sei se vai ser boa ideia, porque a política nunca lhe deu grande felicidade. Isto eu acho que não é por aí." E ele: "Tu és muito cético". E eu: "Não, está bem". No caso dos meus irmãos e da minha mãe, não. A minha mãe talvez também tivesse tido ali umas hesitações, porque também sentia um bocadinho como eu, que iria ser muito difícil.
E a primeira dificuldade vai ser tirar um rival do caminho. Já é noite cerrada quando, um a um, os homens vão chegando ao Palacete de São Bento. Mário Soares ainda é primeiro-ministro, mas já só tem uma coisa na cabeça: perceber como é que vai chegar a presidente da República dali a dois anos. No final de 1984, recebe religiosamente, todas as semanas, para jantar, alguns dos conselheiros mais próximos, como António Barreto, Vasco Polido Valente, Alfredo Barroso ou António Campos. Nunca estão mais do que cinco ou seis pessoas à mesa, os suficientes para lançar as bases da candidatura presidencial. Ser presidente não lhe é uma ideia estranha. Nas eleições anteriores, chegou a ter a tentação de enfrentar Ramalho Eanes. Só não o fez porque os amigos e camaradas do partido o travaram. Agora é diferente. Eanes está prestes a deixar o Palácio de Belém e Soares sente que já cumpriu o papel como primeiro-ministro. Mas há um enorme problema: não está bem a ver o estado da desgraça em que caiu. Como primeiro-ministro, executou o exigente programa negociado com o FMI. Há uma inflação galopante. Os trabalhadores usam bandeiras negras como símbolo de fome e pobreza Para a esquerda, Soares é um traidor. Para uma parte da direita, é um político incompetente e ultrapassado. E tudo na estratégia dele está prestes a ruir. Peça por peça. Maria de Lourdes Pintasilgo entra no gabinete de Ramalho Eanes. Foi convocada de urgência pelo próprio presidente da República. Em setembro de 1984, o plano de Pintasilgo de concorrer a Belém é, como o de Soares, um segredo muito mal guardado. A ideia nasceu no verão, durante um almoço no restaurante Dragão de Alfama, com apenas mais quatro pessoas. Mas, como tudo o que acontece na política que se vai fazendo nos corredores da capital, estas movimentações tinham chegado aos ouvidos do presidente da República. No gabinete de Eanes, o ambiente é estranho. Depois dos cumprimentos de circunstância, o presidente permanece em silêncio. Não quer ser ele a dizer o que acha que tem de ser dito sobre as ambições da primeira e única mulher a ocupar o cargo de chefe de governo em Portugal.
A minha nomeação provocou um grande interesse em países muito diferentes, pelo próprio fato de ser mulher.
Melo Antunes e João Botequilha, conselheiros do presidente, tomam a iniciativa. Passam longos minutos a tentar convencer Pintasilgo a não avançar com a candidatura. Chegam a dizer que é inaceitável que ela, que chegara à primeira-ministra por iniciativa de Ramalho Eanes, se candidate à revelia do presidente. Apesar de magoada, Pintasilgo não cede. Não serão aqueles homens a travá-la. Dias depois dessa primeira reunião, Eanes convida-a para jantar. Agora, é ele a conduzir a conversa. Dramatiza. Diz-lhe que nunca terá possibilidades de vencer, que vai dividir o movimento ianista e que se arrisca a entregar a presidência aos adversários dele. Pintasilgo não consegue compreender aquela resistência. Afinal, poucos no país se podem orgulhar de ter um percurso sequer parecido ao dela. Tem 54 anos, formou-se em Engenharia Química Industrial, quando tirar um curso estava ao alcance de poucas mulheres. É católica progressista, pioneira na luta pela emancipação feminina, embaixadora e a primeira mulher a liderar um governo.
Que governo somos? Como nos podemos então definir? Deu-nos o Presidente da República a bússola que guiará esta marcha.
Não importa o que Eanes pense sobre as hipóteses que ela tem de vencer. Mantém-se irredutível. Mas o presidente não desiste. Três meses depois, em dezembro de 1984, Eanes volta a convocá-la. Está a ficar irritado com a teimosia de Pintasilgo. Acha tudo aquilo suicida. E desta vez, tem um recado claro para lhe dar. Com os avanços que está a fazer, começa a perder margem de manobra para recuar na candidatura. É aí que Pintasilgo percebe duas coisas: quem está a perder margem de manobra é o próprio presidente da República, e não ela. E se continuar à espera do apoio de Eanes, nunca será candidata. Por isso, está disposta a avançar, mesmo contra as reservas do homem com quem trabalha diariamente na Presidência da República como conselheira. E mesmo sabendo que o Partido Renovador Democrático, que está a organizar-se à sombra e com o incentivo do presidente, não deve aceitar apoiá-la. Rodrigo Sousa e Castro, amigo de Eanes, antigo porta-voz do Conselho da Revolução e diretor da campanha de Pintasilgo, confirma as resistências que a antiga primeira-ministra foi encontrando junto do círculo do presidente.
Nessa altura, o partido, que era o PRD, Partido Renovador Democrático, já tinha uma certa influência junto do general. Havia uma grande pressão sobre o general para que a candidatura da Pintasilgo não fosse para frente. O presidente do PRD era o Hermínio Martinho, eu dava-me bem com ele. Não éramos amigos, e eu percebia muito bem que as suas características pessoais eram completamente antagônicas de aceitar uma mulher na presidência, assim à riva de gente. Mesmo à riva de gente, pecador de todos também.
O que Pintasilgo espera é que o presidente mantenha, pelo menos, a neutralidade e não apoie mais ninguém. Será o suficiente para que consiga arrastar uma grande parte dos eleitores que estão com Eanes. O resto será com ela. Só que não é isso que está nos planos do general. 16 de abril de 1985. Os dois homens que se preparam para almoçar juntos no Hotel Sheraton, em Lisboa, tornaram-se amigos por intermédio de Francisco Sá Carneiro. Agora, anos depois, estão no caminho um do outro. Ambos estão a ser pressionados para se candidatar em Belém, e nenhum dos dois afasta completamente essa hipótese. Mas há uma coisa que se torna rapidamente evidente: não há lugar para duas candidaturas do mesmo espaço político E um deles terá de desistir. Ali, àquela mesa e naquela tarde, vão fechar um acordo que será decisivo para as contas da direita. Na verdade, Freitas já se tinha antecipado à concorrência. A casa onde mora, na Quinta da Marinha, é um rodopio de gente a entrar e a sair discretamente para estudar as hipóteses de candidatura. E assim que percebe que Daniel Proença de Carvalho, antigo ministro da Comunicação Social e ex-presidente da RTP, está a fazer o mesmo, Freitas decide que é tempo de agir. Não só o convida para almoçar, como ainda tem uma aliança para lhe propor. Freitas será candidato à Presidência da República, se Proença de Carvalho aceitar ser o diretor dessa campanha.
Nós fomos almoçar, sem agenda, propriamente. E ele explicou que estava firmemente disponível para fazer uma campanha para a presidência, que achava que tinha condições para isso, pela sua experiência política, pelo que tinha feito, pela sua ligação a Sá Carneiro, a colaboração que ele tinha tido na AD, tinha todas as condições. Sabia que havia muitos sectores também que me apoiavam e que eu também, evidentemente, tinha bastantes apoios e portanto que era importante para ele também, porque não era uma coisa favorável que houvesse uma divisão neste espectro político. E, portanto, como é que eu via a coisa, se estava disponível ou não estava disponível. E eu confesso que não tive muito tempo para pensar. Achei: "Muito bem, então está aqui alguém que quer avançar". Praticamente logo naquele almoço eu decidi. Acho que nem pedi tempo para pensar. E portanto, ok, você avança e eu estou disponível. E ele disse: "Mas queria que você me ajudasse na campanha".
Com o acordo fechado, só fica mesmo a faltar uma peça fundamental: convencer o PSD a patrocinar aquela aventura. Mas isso estava prestes a tornar-se mais fácil do que poderia parecer à partida. O telefone toca. A voz inconfundível de Aníbal Cavaco Silva apanha Diogo Freitas do Amaral de surpresa. Tinham sido colegas no governo de Sá Carneiro. Almoçaram juntos um par de vezes. Davam-se bem, mas não eram amigos, muito menos confidentes. Cavaco pede-lhe um encontro. Freitas aceita, longe de saber que assunto em comum teriam para tratar. No dia seguinte, encontram-se no edifício do IMAVIS, um dos centros comerciais mais badalados de Lisboa, onde Freitas partilha o escritório com o sogro. Cavaco Silva senta-se e vai direto ao assunto. Com o governo do Bloco Central, que junta PS e PSD ainda em funções, alguns dirigentes social-democratas admitem apoiar Mário Soares na campanha presidencial. Cavaco considera indispensável que o PSD tenha uma candidatura própria. E acha Diogo Freitas do Amaral o homem certo para o desafio. E não é o único. Garante que Eurico de Melo, antigo ministro da Administração Interna de Sá Carneiro e um peso pesado do partido, pensa da mesma maneira. Vão apoiá-lo independentemente da posição oficial do PSD. Freitas fica surpreendido. Assume que está em fase de reflexão, agradece muito o incentivo e despede-se de Cavaco Silva. A seguir, liga à mulher e diz-lhe que ela não vai acreditar no que tem para lhe contar. Quando acaba de relatar a conversa que teve com o antigo ministro das Finanças de Sá Carneiro, Maria José responde: "Isso, de facto, muda muita coisa."
Não aceitaria que o governo PS/PSD sucedesse o que ocorreu na última fase do governo AD: ser corroído por dentro, em combustão lenta e inevitável.
Mesmo à frente de um governo de Bloco Central a desfazer-se, Soares continua à espera do apoio dos sociais-democratas nas presidenciais. A aritmética é simples: com os votos do PS e do PSD, os dois partidos do centrão, a vitória está mais do que garantida. Um dos conselheiros mais entusiastas chega a dizer-lhe que será simples. Aquela eleição é um mero passeio pela Avenida da Liberdade. Mas essa estratégia começa agora a ruir. Carlos Mota Pinto, o vice-primeiro-ministro de quem se tinha tornado amigo, demite-se do governo e da liderança do PSD. E, meses mais tarde, morre subitamente. Aníbal Cavaco Silva nunca se desviou um milímetro da versão que tem dos acontecimentos. Até hoje, garante que foi à Figueira da Foz apenas para fazer a rodagem do Citroën BX acabado de comprar. Talvez dizer umas palavras no congresso do PSD, que se realizava na cidade, e defender o apoio à candidatura presidencial de Freitas do Amaral, mas mais nada. Só que depois, para usar as palavras do próprio, foi envolvido numa teia de acontecimentos provocada pelo destino. Na realidade, talvez não tenha sido bem assim. Afastado do governo desde a morte de Sá Carneiro, Cavaco Silva nunca deixou de fazer política.
E a razão porque me vou neste momento acurar o meu silêncio, é precisamente porque sou um social-democrata desde a primeira hora e penso que neste momento há aspetos demasiado graves, talvez para o futuro do PSD como grande partido português, para que eu continue calado.
Criticou cirurgicamente os executivos de Balsemão e da dupla Soares/Mota Pinto. Teve aulas de dicção e de colocação de voz com a atriz Glória de Matos. Somou apoios e capital político no PSD, onde a Nova Esperança, uma corrente interna protagonizada por Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Santana Lopes e José Miguel Judice, conspirava cada vez mais para derrubar o Bloco Central. Só falta mesmo o momento certo para avançar. A inesperada morte de Mota Pinto, a poucos dias do Congresso do PSD, precipita tudo o resto. As primeiras impressões sobre o desempenho impressionante de Cavaco no Congresso da Figueira da Foz chegam a Freitas do Amaral por telefone. Está mais uma vez em Guimarães a passar um fim de semana com a mãe e com a mulher. Perto da hora do jantar, é o próprio Cavaco Silva quem lhe telefona. Quer avisá-lo de que será candidato à liderança do PSD e que não se preocupe com as notícias que vai ouvir. Foi obrigado a recuar no apoio à candidatura presidencial dele, mas só para garantir que vai mesmo vencer as eleições internas. Não mudou de ideias. Assim que for eleito no Congresso, forçará a escolha do nome do fundador do CDS.
A primeira indicação sobre as intenções dos congressistas foi dada pela votação das moções. Cavaco Silva venceu João Salgueiro, embora por escassa maioria.
Freitas nem quer acreditar. A vitória surpreendente de Cavaco na Figueira significa que passa a ter o apoio do maior partido à direita. O mais difícil, o que parecia quase impossível, está feito. E melhor ainda, Mário Soares não conseguiu antecipar nada do que estava prestes a acontecer. Soares achava que estava tudo combinado. Um dia antes do Congresso do PSD, jantou com João Salgueiro em Lisboa. O ex-ministro das Finanças era candidato à liderança do partido. Salgueiro deu duas garantias: vai ganhar as eleições internas por uma larga margem e vai apoiar a continuidade do Bloco Central. Com isso, Soares terá o apoio do PSD na corrida a Belém. A história é recordada por alguém que também estava nesse jantar. António Campos, o homem de confiança de Soares na campanha de 1986.
O João Salgueiro tinha-nos garantido que ganhava o congresso com 80%. Eu chego à Figueira, ainda me integro com uma delegação do PS para assistir ao discurso do Cavaco. Eu telefono ao Mário Soares a dizer: "Olha que afinal não foi o Salgueiro que ganhou isto, foi o Cavaco". E o Mário Soares diz: "Ó pá, eu não conheço esse Cavaco de parte nenhuma, pá".
Alfredo Barroso, sobrinho de Mário Soares, secretário de Estado da Presidência no Bloco Central e peça nuclear na campanha de 1986, explica como tudo mudou quando os quatro cavaleiros do apocalipse entraram em jogo.
Nós dávamos como adquirido que quem ganharia o congresso era o João Salgueiro, o que até seria uma boa aposta para o PSD. Mas tudo isso desmoronou. Aqueles quatro cavaleiros do apocalipse, como eu lhes chamava, Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Santana Lopes e o José Miguel Judice, tiveram uma importância fundamental em virar esse congresso e em pôr o Cavaco.
Mário Soares tinha apostado no cavalo errado. A vitória de Cavaco provoca um efeito dominó. O PSD rompe o Bloco Central. O governo cai.
45 minutos durou a audiência do chefe de Estado ao primeiro-ministro. Mário Soares, à saída, recusou comentar o encontro de Belém. Mais tarde, a presidência divulgou uma nota sobre a audiência, onde se fazia o ponto da situação. Mário Soares deu conhecimento ao presidente da República de que vai divulgar, após o telejornal, a atitude que decidiu tomar.
Soares demite-se e Anes marca eleições antecipadas para outubro. E nessas eleições surge uma novidade, o PRD, o novo partido abençoado pelo próprio presidente da República. A contragosto, quase arrastado, Almeida Santos é o candidato socialista nessas eleições legislativas desastrosas para o PS. Cavaco Silva vence. Almeida Santos é humilhado. Mas não há qualquer ilusão. O grande derrotado é mesmo Mário Soares, que já está a preparar a candidatura presidencial. O país quis castigá-lo. Pior, o próprio partido parece ter desistido dele. Confessa isso mesmo nas páginas do diário que vai mantendo. Queixa-se de que ninguém acredita nele. Diz que o staff mais próximo foge em bicos dos pés assim que o vê e assume que vai ter uma derrota pesada nas eleições presidenciais. Chega a escrever que não lhe falta vontade de desistir, mas que não pode fazê-lo. Seria uma fraqueza que ninguém entenderia. Lê-se no diário: "O trágico não é perder uma eleição, o trágico é abandonar". Alfredo Barroso recorda o estado de desânimo do tio.
Já não me lembro quem foi que o convenceu a fazer uma coisa de rua e quando lá chegou não havia ninguém. Eu por acaso não fui, sequer. E ele quando chegou a Lisboa, a casa, disse-me para eu ir lá a casa. E ele estava mesmo abatido. Já estava de roupão e disse: "Bem, pá, isto está muito mal, mas eu tenho que perder com a maior dignidade possível".
Para piorar tudo, a direita está unida em torno de Freitas do Amaral. E à esquerda, há uma candidata que parece indomável. É uma tarde tórrida de julho. Maria de Lourdes Pintasilgo chega ao Hotel Ritz, em Lisboa, à boleia de um luxuoso Rolls-Royce. A candidata que o país se habituou a ver como uma típica e simpática mãe de família, profundamente católica, parece uma pessoa completamente diferente. O impacto é tremendo. Os jornais registam a mudança. O rosto lavado e o cabelo simplesmente escovado da antiga primeira-ministra foram substituídos pela maquiagem e o cabelo cuidadosamente arranjado. Está rodeada de gente importante, militares de Abril, mas também intelectuais e pessoas das artes e do jornalismo, como Eduardo Lourenço, Emídio Rangel, Natália Correia e Eduardo Prado Coelho. Apresenta-se como a candidata da unidade e da esperança contra o conformismo e o fatalismo, em nome da ética e da terra da fraternidade com que a esquerda tinha sonhado um dia. Escolhe como símbolo o arco-íris, uma inspiração vinda da América e do Partido Democrata, como prova de que, naquela candidatura, cabem todos os que vierem por bem. Do Ritz, segue no mesmo Rolls-Royce para uma festa popular na Madragoa, com direito a febras e sardinhas assadas. Maria de Lourdes Pintasilgo tem razões para estar confiante. Tem ótimas sondagens, aparece muito à frente de Mário Soares e taco a taco com Diogo Freitas do Amaral. Mais, numa segunda volta, garantem os estudos de opinião, a Presidência da República será dela. O entusiasmo da candidata é contagiante e não há visita que faça que não junte pequenas multidões, sobretudo mulheres e, sobretudo, mulheres mais pobres. A direita irrita-se com ela. Chamam-lhe de tudo. Vasco Gonçalves de saias, socialista terceiro-mundista, rosto do neogonsalvismo de saias e espartilho. Até o catolicismo assumido é questionado. Afinal, em que mundo é que se pode ser católico e marxista ao mesmo tempo? Mas há algo que não bate certo. Apesar do respeito de que goza, apesar do entusiasmo em torno da candidatura, apesar das ótimas sondagens e da irritação que provoca nos adversários, Pintasilgo continua sem contar com o apoio da figura que lhe pode garantir um caminho mais fácil para a vitória. E tudo se vai agudizar depois do bom resultado do PRD nas legislativas de outubro. Os homens de Ramalho Eanes convencem-se de que não precisam dela para nada. Os sinais de que está prestes a ser traída por quem menos espera avolumam-se há muito, mas ela continua a ignorá-los. Aprenderá da pior maneira que na política, por vezes, nem nos aliados se pode confiar. Ramalho Eanes tinha um plano e a primeira parte está concluída. Depois da estreia surpreendente do PRD nas legislativas de outubro de 1985, onde ficou apenas a cinco pontos percentuais do PS, o ainda presidente e os homens dele conspiram agora para um segundo objetivo: fabricar um candidato presidencial capaz de garantir que o movimento continua a ter influência a partir de Belém. A candidatura de Pintasilgo é um obstáculo, claro, mas Eanes julga ter encontrado o homem certo para o desafio.
A prevenção e a averiguação de eventuais casos de corrupção e outras fraudes praticadas no aparelho de Estado. Quis também o governo convidar-me para, como alto comissário, ser o titular dessa função.
Membro fundador do MFA, o primeiro a ocupar o cargo de Ministro da Administração Interna em democracia e alto comissário contra a corrupção, Manuel Costa Braz tem um currículo de peso. É ele a escolha do presidente. Só que Ramalho Eanes vai cometer um erro fatal. Convence-se de que pode impor um candidato aos camaradas sem negociar com eles previamente. Não vai dar bom resultado. Apesar do empenho pessoal do presidente, a candidatura de Costa Braz não arranca. As rivalidades internas do PRD e no círculo de militares que rodeiam Eanes paralisam tudo. Costa Braz continua sem sedes, sem dinheiro, sem meios técnicos e sem estruturas para a campanha. É o primeiro a perceber que está condenado e toma a única decisão racional: desistir antes que seja demasiado tarde. Eanes, que tinha descartado uma candidata natural e uma mulher de inteira confiança, fica agora sem a alternativa que desejava. Precisa de um plano B. O plano B de Eanes vai ter uma vantagem adicional: deixar Mário Soares totalmente desorientado. Quando ouve os primeiros rumores, o candidato socialista não acredita. Seria ele verdadeiramente capaz de se candidatar, de enfrentar o partido que tinha ajudado a fundar, de o enfrentar a ele em particular? Até faz uma aposta com a mulher. Soares diz que só pode ser mentira. Maria de Jesus Barroso acredita que vai mesmo acontecer. O candidato surpresa revela-se no início de novembro. Mário Soares vai ter de enfrentar aquele que já foi um dos melhores amigos dele. Um homem que considerava um irmão. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Este rapaz é um tipo ambicioso e é um analfabeto político. Eu tenho que ir para lá dar-lhe aulas de política.
E então deu-me uma mala, uma malinha daquelas executiva, achei muito bom. Cheia de dinheiro. Cash.
Havia uma tensão, se quiser. Não creio que houvesse a hipótese de traição, mas havia uma tensão real.
"A Eleição Mais Louca de Sempre" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, e tem banda sonora original de Samuel Úria. O guião e as entrevistas são de Miguel Santos Carrapatoso. A sonoplastia e desenho de som são de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da RTP. Podcast Plus do Observador, é mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
