O prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2025 foi atribuído a Mary E. Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi, anunciou esta segunda-feira o secretário-geral do Comité Nobel, Thomas Perlmann. em Estocolmo, na Suécia. Os três cientistas foram distinguidos pela descobertas na tolerância imunitária periférica, um importante mecanismo que impede o sistema imunológico de prejudicar o corpo.

“Os laureados de 2025 descobriram como o sistema imunológico é mantido sob controlo”, adianta o Comité Nobel, na rede social X, explicando que os três cientistas “identificaram os guardiões do sistema imunológico: as células T reguladoras, que impedem que as células imunológicas ataquem o nosso próprio corpo”.

Desta forma, sublinha o Comité Nobel, os vencedores do prémio Nobel 2025 “inauguraram o campo da tolerância periférica, estimulando o desenvolvimento de tratamentos médicos para cancro e doenças autoimunes”. “As descobertas deles foram decisivas para a nossa compreensão de como o sistema imunológico funciona e por que nem todos desenvolvemos doenças autoimunes graves”, diz Olle Kämpe, presidente do Comité Nobel, citado num comunicado.

À radio Observador, o imunologista e investigador do Instituto de Medicina Molecular Luís Graça realça importância das descobertas feitas por Mary E. Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi. “Pensamos no sistema imunitário como o conjunto de células que nos protege contra infeções. Só que, para funcionar bem, não pode causa lesão nas nossas próprias células. Foi a descoberta do mecanismo regulador — que faz com que o sistema imunitário consiga atacar os organismos que nos invadem, e, ao mesmo tempo, não causar destruição nas nossas próprias células — que mudou a forma como compreendemos a função do sistema imunitário“, sublinha o especialista, destacando que o conhecimento deste mecanismo é essencial para o combate a doenças oncológicas, por exemplo.

“Esta descoberta é fundamental porque permite atuar no sistema imunitário, fazendo com que este funcione melhor contra o cancro. Mas também demonstrando de que maneira podemos manipular o sistema imunitário para nos proteger de doenças autoimunes, alérgicas ou inflamatórias”, acrescentou Luís Graça.

Os contributos dos três vencedores do Nobel

O imunologista e professor universitário japonês Shimon Sakaguchi foi distinguido por um “descoberta importante” que fez há exatamente 30 anos. O Comité Nobel lembra que, em 1995, muitos investigadores estavam convencidos de que a tolerância imune só se desenvolveu devido à eliminação de células imunes potencialmente prejudiciais no timo [um órgão localizado no tórax], “através de um processo chamado tolerância central”. Contrariando essa ideia, “Sakaguchi mostrou que o sistema imunológico é mais complexo e descobriu uma classe anteriormente desconhecida de células imunes, que protegem o corpo de doenças autoimunes”.

Já a cientista norte-americana Mary E. Brunkow e o imunologista norte-americano Fred Ramsdell fizeram a outra descoberta importante em 2001, quando explicaram à comunidade científica a razão pela qual uma “linhagem específica de ratinhos era particularmente vulnerável a doenças autoimunes”.

Os dois cientistas descobriram que esses ratos tinham uma mutação num gene que designaram Foxp3, o que os levou a concluir que as mutações no equivalente humano desse gene causam uma doença autoimune grave, a IPEX [uma doença autoimune hereditária rara que causa a disfunção de várias glândulas endócrinas, inflamação do intestino e problemas de pele].

Dois anos depois disso, Shimon Sakaguchi foi capaz de confirmar essas descobertas, mostrando que o gene Foxp3 comanda o desenvolvimento das células que ele próprio identificara em 1995. “Essas células, agora conhecidas como células T reguladoras, monitorizam outras células imunes e garantem que nosso sistema imunológico tolera os nossos próprios tecidos”, sublinha o Comité Nobel.

O comité Nobel sublinha que o sistema imunológico humano “é uma obra-prima da evolução”, que diariamente “nos protege de milhares de vírus, bactérias e outros micróbios que tentam invadir nosso corpo”. “Sem um sistema imunológico funcional, não sobreviveríamos“, lembra o Comité.

Shimon Sakaguchi, de 74 anos, nasceu em Nagahama, no Japão. É imunologista e professor da Universidade de Osaka. Distinguido por várias vezes ao longo da carreira, era apontado ao Nobel da Medicina pelas descobertas no sistema imunológico pelo menos desde 2015.

Mary E. Brunkow, de 64 anos, é doutorada pela Universidade de Princeton e responsável sénior por programa de investigação científica no Institute for Systems Biology, em Seattle, nos Estados Unidos.

Já Fred Ramsdell, de 74 anos, doutorou-se em 1987 pela Universidade da Califórnia e hoje é consultor científico da Sonoma Biotherapeutics, uma empresa de São Francisco especializada em terapias celulares para doenças autoimunes.

A temporada de entrega dos prémios Nobel 2025 começa esta segunda-feira, com o prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina e prossegue, ao longo da semana, com a entrega dos prémios da Física, Química, Literatura e da Paz (este último, na sexta-feira). Dentro de uma semana, será conhecido o vencedor do Nobel da Economia. Os vencedores recebem cerca de 11 milhões de coroas suecas, o equivalente a um milhão de euros.

Desde 1901, o prémio Nobel da Medicina já foi atribuído por 116 vezes, a 232 pessoas, entre as quais 218 homens e 14 mulheres. Até hoje, só um português foi distinguido: o neurologista Egas Moniz, em 1949, pela “descoberta do valor terapêutico da leucotomia [no tratamento] de determinadas psicoses”.