Em 2017, o casal Raynor e Moth Winn perdeu a casa e a quinta que tinham no País de Gales após um investimento ruinoso na companhia de um amigo que faliu, e que os deixou cheio de dívidas. Perderam depois o seu caso em tribunal e ficaram quase sem meios de subsistência, tirando o rendimento mínimo de cada um. Ao mesmo tempo, Moth foi diagnosticado com uma rara doença degenerativa, sem direito a apoio social. Em vez de desesperarem, ou de recorrerem à ajuda de amigos e familiares, os Winn decidiram ir fazer uma longa caminhada pela costa sudoeste de Inglaterra. Compraram uma tenda no eBay, compraram muitas embalagens de massa instantânea, puseram as mochilas às costas e vestiram anoraques ligeiros, e meteram-se ao caminho.

Em 2018, Raynor transformou as suas anotações de viagem num livro, The Salt Path, que se transformou num best-seller, ganhou vários prémios de prestígio e trouxe fama e conforto financeiro ao casal. Em 2023, The Salt Path foi adaptado ao cinema em estreia na realização pela encenadora de teatro inglesa Marianne Elliott, com Gillian Anderson no papel de Raynor e Jason Isaacs no de Moth. Só que em julho passado, o semanário inglês Observer publicou uma investigação que revelou que os Winn mentiram sobre a razão da sua penúria. Raynor tinha dado um desfalque de mais de 60 mil libras na empresa onde trabalhava, para pagar um empréstimo, dívidas contraídas pelo casal e a hipoteca da casa. O dinheiro não chegou e o banco tomou posse desta. Por outro lado, soube-se que os Winn ainda possui uma propriedade e uma casa (em mau estado) em França.

[Veja o “trailer” de “The Salt Path — O Caminho do Amor”:]

O jornal descobriu também que, à altura, Raynor e Moth se chamavam Sally e Tim Walker, e questionou as características e a gravidade da doença do marido, após ter consultado nove neurologistas e investigadores. O Observer continuou a publicar artigos sobre o caso, e a BBC e outros títulos pegaram também nele, pondo agora em causa a veracidade de partes da narrativa do casal, bem como a existência de várias pessoas que Raynor e Moth disseram ter encontrado ao longo da sua caminhada. Raynor Winn respondeu às acusações de viva voz, com um artigo e através de advogados e pareceres médicos, reiterando que a narrativa era “honesta” e a doença do marido real. (Em 2020 e 2022, Raynor tinha escrito mais dois livros também de sucesso, o segundo dos quais uma prequela de The Salt Path).

Todos estes acontecimentos esvaziaram The Salth Path — O Caminho do Amor de credibilidade, e comprometeram a empatia e a identificação que os espectadores poderiam sentir pelo casal. Em vez de real e “inspiradora”, uma impressionante lição de vida, a sua jornada era em boa parte inventada e calculadamente manipuladora. E ao invés de desafortunados mas determinados e estóicos, os Winn eram afinal escroques, falsas vítimas do “sistema” e mentirosos. Mas mesmo que não soubéssemos a verdadeira história de Raynor e Winn Moth, The Salt Path-O Caminho do Amor não seria um bom filme, nem uma experiência emocional que nos calasse fundo.

[Veja uma entrevista com Gillian Anderson e Jason Isaacs:]

A tentativa de Marianne Elliott e da argumentista Rebecca Lenkiewicz de tirarem significados profundos, ensinamentos relevantes e sentimentos “poéticos” da sucessão de pequenas peripécias e encontros casuais que pontuam a caminhada do par, praticamente nunca resulta. Tal como não é convincente a ideia de que uma mudança súbita e violenta de estilo de vida como a que os Winn fazem tem efeitos terapêuticos reais, quer anímicos e psicológicos, quer físicos (ver a muito pouco verosímil reversão dos sintomas da doença de Moth, após abdicar de tomar a medicação). E uma aventura destas seria um teste de peso mesmo para pessoas habituadas a caminhar, e teria deixado os inexperientes Winn arrasados rapidamente.

[Veja uma entrevista com a realizadora Marianne Elliott:]

Se a realização de Marianne Elliott mantém sempre um registo de naturalismo equilibrado, sem procurar a imagem “compostinha” de bilhete-postal nem exagerar as condições agrestes de boa parte do percurso, e faz jus à beleza bravia daquela zona de Inglaterra e à sua meteorologia caprichosa, as interpretações de Gillian Anderson e Jason Isaacs, que gemem, arfam, resmungam e se  desfazem em carinhas e caretas, não contribuem para que The Salth Path — O Caminho do Amor se eleve, do ponto de vista dramático, acima do apenas remediado. Ironicamente, são as duas ou três sequências cómicas (caso das que resultam da confusão de Moth com um famoso poeta) que se contam entre as conseguidas.

[Veja um vídeo do “Observer” sobre o caso:]

Ver The Salt Path — O Caminho do Amor é como ouvir um casal amigo contar as suas desventuras e agruras quando fizeram campismo selvagem mesmo no duro, quando sabemos muito bem que na verdade ficaram instalados num hotel durante a maior parte do tempo. Entretanto, o debate em redor do livro e do filme, e das falsas — ou parcialmente verdadeiras — “histórias reais”, continua em Inglaterra.