Rui Vitória, Carlos Carvalhal e José Peseiro. São muitos os treinadores de futebol que despontaram em Portugal e deram o “salto” para o estrangeiro, alcançando o sucesso além-fronteiras. Todos estão desempregados, com o primeiro a ter deixado o comando técnico do Panathinaikos, equipa que ocupa o sétimo lugar no Campeonato grego, em setembro dois. Os outros dois também se encontram no mercado, depois de passagens mais ou menos bem sucedidas por Sp. Braga e Zamalek. Foi com o impacto global da escola de treinadores portugueses e o seu futuro no futebol mundial que os três se juntaram a Luís Catarino, comentador da SportTV e o moderador da conversa, na sessão que abriu a tarde do palco principal, o Puma Stage, deste terceiro dia de Portugal Football Summit, na Cidade do Futebol.
A conversa começou com Vitória a explicar que, a ida para a Arábia Saudita, para treinar o Al Nassr, foi “uma mudança brusca”. “Estive sempre em Portugal e nunca me imaginei a emigrar. A Arábia Saudita foi um mundo que se abriu. Foi um país que me abriu os horizontes, não só do ponto de vista financeiro. A vivência faz-nos crescer enquanto pessoas e enquanto profissionais. É evidente que vamos tendo situações novas, que nos surgem e que não estão nos livros, que não aprendemos em nenhuma faculdade. O treinador português é muito astuto e essa é a diferença se compararmos com outros. Há muitas situações do nosso futebol que nos levam a colocar em causa aquilo que se vai fazendo. A adaptação nasce do conhecimento que nós temos”, começou por dizer o treinador.
“Egito? A capacidade de perceber o contexto faz toda a diferença. Percebemos que o Salah era uma figura diferente da maioria dos companheiros. Dizia muitas vezes ‘Toda a gente quer ser como tu, mas ninguém quer fazer aquilo que tu fizeste para lá chegar’. Era uma figura acima. Surpreendeu-me as suas qualidades humanas. Tem a perceção do que é necessário em cada momento. Tivemos uma relação fantástica. Teve uma decisão crucial que não vi em mais lado nenhum. Havia momentos em que ele dizia aos colegas: ‘Se nós queremos trabalhar com intensidade, todos vocês têm de ser fortes na recuperação e descansar’. Ele dizer isto era o motor de arranque para todos cumprirem. Os jogadores têm de se sentir confortáveis. No Egito era um mundo muito particular. Os jogadores não querem sair de lá, têm vida de rei. Precisávamos de criar condições para os jogadores evoluírem. Fizemos uma série de estratégias, mas nunca é fácil mudar um país”, acrescentou.
Já Carlos Carvalhal começou por recordar a sua passagem sui generis” pelo Besiktas, que começou com um episódio inusitado. “Entro no início do Campeonato, não fiz a pré-época e o treinador tinha sido preso. Em dezembro saiu da cadeia e queria voltar, só que nós estávamos muito bem. Trabalhei em circunstâncias difíceis. É um Campeonato competitivo, que mexe com muita gente. Dentro de campo é um jogo muito difícil, muito duro. Era o Campeonato em que apareciam mais golos nos últimos cinco/dez minutos. Foi uma aprendizagem boa. Tinha muitos jogadores estrangeiros, diferente da realidade turca. Não foi difícil trabalhar com eles porque o entendimento do jogo era bom”, começou por referir.
Em Inglaterra foi completamente diferente, com uma aprendizagem muito grande, particularmente no Championship. Já levava algum capital de experiência, mas o Championship não é para meninos, é para rangers. Os níveis de competitividade são altíssimos e as equipas são muito diferentes, o que nos obrigava a moldar a nossa forma de jogar. O conhecimento das pessoas que nos acompanham também é importante. Temos uma difusão de conhecimento muito grande em Portugal e alguns traços que nos caracterizam como portugueses. Antigamente, todas as caravelas levavam portugueses. O português é que resolvia tudo e isto é cultural”, sublinhou.
“Em Inglaterra tive seis multas num mês e sugeri que fossem para o Jhony Conceição [adjunto], para não ficarem no meu nome. Impossível. Na escola, o menino inglês não copia. Temos isto que é negativo, mas também é positivo. Na hora do aperto, somos mais desenrascados do que os outros. Temos a capacidade de juntar as pessoas e colocarem-nas perto de nós. No Sp. Braga tivemos a possibilidade de ter uma academia de excelência. Entre o Vitinha, o Roger e o Rodrigo Gomes estamos a falar de 75 milhões de euros. As academias ajudam muito, a qualidade dos jogadores também. Nunca tive um miúdo que não me tivesse surpreendido. É uma questão de confiança e olhar para os jovens como olhamos para os outros, sem distinções. Lembro-me de, no ano passado, ter lançado o Diego [Rodrigues] no Estádio da Luz. Avançou como um jogador normal, estava ali como os outros. Futuro? Vamos continuar a mover-nos num clima onde há muita diversidade. Isso não vai mudar. Há desafios que estão colocados agora e que temos de refletir. Vamos ter cada vez menos tempo para treinar. Quanto menos tempo eu tenho para fazer uma coisa, tenho que utilizar esse tempo para colocar a equipa a jogar. Se não ganho fundamentos táticos, não vou conseguir meter a equipa a jogar. As folgas e o descanso também são muito importantes e vão ter influência no rendimento coletivo de algumas equipas”, rematou.
“No futuro a importância do treinador ainda vai ser decisiva, apesar de quererem baralhar isto com inteligência artificial. Cada vez vai ser mais importante o conhecimento do jogador. O que vai ser decisivo no futuro é a tomada de decisão, que tem de partir desta formação holística de base. Com o aparecimento da inteligência artificial, prevejo que, muito rapidamente, vai estar tudo automatizado para o jogador ter o rendimento x. O treinador vai ser pago só para tomar decisões, uma/duas por dia”, completou Carvalhal.
Treinador português José Peseiro rescinde contrato com o Zamalek
Já José Peseiro, começou por recordar o tempo em que esteve no Real Madrid, na sua “primeira e única” experiência como adjunto. “Cheguei lá e quase que as pernas tremeram, pela falta de experiência e a pressão mediática. Não interessa onde começamos. Eu comecei na Terceira Divisão e cheguei ao Real Madrid. Temos que nos adaptar ao contexto, ao discurso, à língua. Os galácticos são pessoas inteligentes. Foi uma experiência tremenda, que me preparou para tudo. Os galácticos eram 11 e os outros não tinham qualidade. O plantel foi feito para ser um produto para vender os galácticos. A primeira digressão foi feita por nós, na Ásia. O Florentino [Pérez] teve necessidade daquilo e não ganhámos nada. Quando os jogadores começaram a ter problemas de lesões fez com que acabássemos mesmo mal. Os galácticos acabavam o treino, almoçavam e tinham um avião à sua espera para irem vender a sua imagem. Conviver e aprender com eles foi um marco muito importante na imagem carreira. Não sei se teria dado os passos que dei”, recordou.
“Na Venezuela apanhei Covid-19, só tínhamos viagens a partir de Madrid. Tive de andar a ver a Liga em plena Covid-19. Um alemão ou um francês não o teriam feito. O português tem a facilidade de criar grupo. A Nigéria é incrível. A Nigéria só faz jogos fora, por uma questão de negócio e por falta de condições. Queríamos ganhar o AFCON, mas precisávamos dos jogadores. A vantagem de ser selecionador era visitar os clubes e ver o treino dos treinadores em diferentes contextos. Tive 19 meses de salários em atraso na Nigéria, como tive na Venezuela. Um mês antes do AFCON disse ‘Ou pagam-me ou vou-me embora’. Os jogadores queriam que continuasse. Foi das coisas mais impressionantes que ouvi na minha vida. Fui fazer o AFCON porque os jogadores me convenceram. Chegámos a final e infelizmente não ganhámos”, partilhou sobre as suas últimas experiências.
Quanto ao futuro, Peseiro prevê que o número de jogos seja cada vez maior. “A realidade é esta: mais competição porque é preciso mais dinheiro. Podemos fazer um treino com menos intensidade, mas isso não tem a mesma repercussão. Já se percebeu que se pode treinar com intensidade a seguir ao jogo, mas com um controlo maior do descanso. No futuro o treinador deverá estar lá em cima [na bancada] e ter um treinador de campo. Temos de pensar nisso”, concluiu.