O dia mais feliz ficou guardado para o único sítio onde tinha mesmo de acontecer: Cabo Verde venceu Essuatíni esta segunda-feira na Praia, a capital do arquipélago, e garantiu o inédito apuramento para um Campeonato do Mundo. O país africano, que precisava de um triunfo na última jornada da qualificação para não ter de fazer contas, fez história e vai estar no Mundial 2026.

Ainda assim, os últimos dias foram de alguma ansiedade. Cabo Verde poderia ter alcançado a qualificação já na passada quarta-feira, quando defrontou a Líbia em Tripoli, mas não foi além de um empate num jogo onde não fugiu a muita ansiedade e adiou a decisão — com muita polémica à mistura, devido a um golo anulado por fora de jogo já dentro do período de descontos. Contudo, e com os Camarões à espera de um deslize dos cabo-verdianos para ainda poderem sonhar com o apuramento, os Tubarões Azuis eram os únicos do Grupo D que dependiam apenas de si mesmos para estar no Campeonato do Mundo dos EUA, México e Canadá.

Aconteceu de quase tudo menos aquilo que tinha de acontecer: Cabo Verde empata com a Líbia e falha primeira chance de chegar ao Mundial

Cabo Verde chegava à última jornada da qualificação com seis vitórias, dois empates e uma derrota e mais dois pontos do que os Camarões. Para o decisivo e histórico jogo desta segunda-feira, o Governo cabo-verdiano concedeu tolerância de ponto para todos os funcionários públicos na ilha de Santiago, onde fica a cidade da Praia, e a população correspondeu ao esgotar os 15 mil lugares do Estádio Nacional.

“Vai ser o jogo mais importante alguma vez disputado pela seleção nacional. Vai ser um jogo de extrema importância para o país e para os nossos jogadores, que estão motivados para vencer e com isso vencer uma nova página na história do futebol no país. Poderá haver alguma ansiedade em querer marcar rapidamente”, explicou Bubista, selecionador dos cabo-verdianos desde 2020.

Assim, contra uma equipa de Essuatíni que ocupava o último lugar do Grupo D com apenas três pontos em nove jornadas disputadas, Bubista lançava Vozinha, guarda-redes do Desp. Chaves, na baliza, para além Yannick Semedo (Farense) e Dailon Livramento (Casa Pia), com Telmo Arcanjo (V. Guimarães), Stopira (Torreense), Sidny Lopes Cabral (Estrela da Amadora) e Bruno Varela (ex-Benfica e V. Guimarães) a começarem no banco.

Numa primeira parte que terminou sem golos, o vento foi o grande protagonista e complicou o desenrolar das jogadas que já tinha o relvado sintético como obstáculo. Cabo Verde dominou de forma clara, o guarda-redes de Essuatíni desperdiçou tempo praticamente desde o apito inicial a motivar até a entrada da equipa médica, e Dailon Livramento teve uma das melhores oportunidades ao rematar ligeiramente ao lado já na área (21′). Yannick Semedo também assustou nos descontos, com um pontapé de fora de área que Shabalala defendeu (45+3′), mas o jogo chegou mesmo ao intervalo empatado a zero.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e de Yaoundé chegava a notícia de que Camarões e Angola também tinham chegado sem golos ao fim da primeira parte — ou seja, a conjugação de resultados ia beneficiando os cabo-verdianos. Algo que não os impediu de correr atrás do golo. Ainda dentro dos cinco minutos iniciais da segunda parte, Dailon Livramento aproveitou uma confusão na área na sequência de um canto na direita para abrir o marcador (48′), soltando a euforia no Estádio Nacional e deixando os Tubarões Azuis ainda mais perto do Campeonato do Mundo.

Jamiro Monteiro poderia ter aumentado a vantagem logo a seguir, com um pontapé forte que acertou em cheio na trave (53′), mas o segundo golo já não tardou e apareceu por intermédio de Willy Semedo (55′), que foi engolido pela multidão nas bancadas depois de correr para festejar com os adeptos. O veterano Stopira ainda marcou nos descontos (90+1′) e o sonho de mais de 500 mil cabo-verdianos foi concretizado pelos 11 que estavam em campo: Cabo Verde venceu Essuatíni na Praia, ficou no primeiro lugar do Grupo D e qualificou-se para um Campeonato do Mundo pela primeira vez, garantindo que vai estar no Mundial 2026 nos EUA, México e Canadá.

Com a qualificação inédita no ano em que também assinala os 50 anos da independência, Cabo Verde torna-se o segundo país mais pequeno de sempre a chegar a um Campeonato do Mundo, já que tem menos de 600 mil habitantes — o mais pequeno até agora foi mesmo a Islândia, no Mundial da Rússia de 2018, com pouco mais de 400 mil habitantes. Adicionalmente, os cabo-verdianos juntam-se a Uzbequistão e Jordânia no lote de estreantes, já que os dois países também alcançaram a primeira qualificação de sempre para um Mundial.

Cabo Verde é também o quarto país de língua oficial portuguesa a chegar a um Campeonato do Mundo, depois de Brasil, Portugal e Angola. Os angolanos, aliás, registam apenas uma participação no Mundial, em 2006 e na Alemanha, sendo que não foram além da fase de grupos — onde até cruzaram com a Seleção Nacional, perdendo pela margem mínima com um golo de Pedro Pauleta.