Os amores trágicos de Carlos e Maria Eduarda, eternizados por Eça de Queiroz em Os Maias, ganham nova vida no palco da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Quase 140 anos depois da publicação do romance, o coreógrafo e diretor artístico Fernando Duarte transporta a obra maior do realismo oitocentista português para a linguagem da dança clássica, inaugurando o seu projeto de bailados narrativos — uma forma de aproximar a literatura da dança, ainda pouco explorada em Portugal.
A peça que se estreia esta quinta-feira, dia 16, no teatro Camões, em Lisboa, é composta por três atos e interpretada por 35 bailarinos frente a um cenário de grande impacto visual, concebido por José Manuel Castanheira, naquela que é a primeira colaboração entre o cenógrafo e a CNB. O bailado é acompanhado, ao vivo pela Orquestra de Câmara de Lisboa. Duarte não pretende reproduzir o romance, mas ressignificá-lo, criando um espetáculo de movimentos, símbolos e imagens que convidam o público a descobrir a força emocional e estética desta obra fundamental da cultura portuguesa.
“Li Os Maias quando tinha 16 anos e lembro-me de pensar: e agora, como vou viver sem estas personagens?”, recorda Fernando Duarte. “Hoje é o meu filho que o está a ler. Essa é a força dos clássicos — ligam gerações, são um património comum”, conta o coreógrafo e diretor artístico, que já tinha transposto para ballet O Primo Basilio e O Memorial do Convento, que foram levados à cena pela companhia independente Dança em Diálogos.
▲ O repertório, composto por autores pouco conhecidos do século XIX, entre os quais algumas mulheres compositoras, funde-se com os humores e as emoções da narrativa e ajusta-se a ela
HUGO DAVID/CNB
O coreógrafo descreve estes “seus” Maias como uma bailado como uma viagem onde texto e corpo dialogam uma ideia que se materializa com muita subtileza no cenário que, primeiro parece ergue-se como a aurora de um novo dia cheio de possibilidades: tecidos suspensos, hirtos delimitam o espaço como se foram paredes translúcidas. Mas aos poucos revelam-se frágeis e vão caindo, como portas que se abrem, como rasgões da vida, como a lenta derrocada das casas, dos Maias e da própria sociedade portuguesa. Este cenário convida-nos também a lembrar que a própria palavra “texto”, nasceu da palavra “tecido” — uma metáfora que aqui incluí a transformação do texto escrito em texto dançado.
Fragmentos de um discurso amoroso
O romance foi organizado em três atos: no primeiro conta-se a história do pai e do avô de Carlos Eduardo da Maia, Afonso, Pedro e Maria Monforte, figuras funestas marcadas por amores tristes e destinos menores.
O segundo ato, mais luminoso e festivo, abre um espaço dionisíaco de festas, promessas e enamoramentos e idílicos. É o tempo do encontro entre Carlos e Maria Eduarda. Já no terceiro ato, a alegria cede lugar à angústia do segredo revelado que impõe uma realidade esmagadora que impede qualquer tentativa de fuga.
A curadoria musical, assinada por Andrea Lupi, reforça as afinidades entre música e movimento. O repertório, composto por autores pouco conhecidos do século XIX, entre os quais algumas mulheres compositoras, funde-se com os humores e as emoções da narrativa e ajusta-se a ela.
Nesta versão de Fernando Duarte, o romance sobressai mais como leitura psicológica e simbólica da obra de Eça do que leitura social. Gestos lânguidos, frenéticos, sentimentais ou satíricos desdobram-se num espaço amplo aberto, onde imagens, da natureza e da cidade, projetadas em segundo plano, intensificam o drama interior das personagens e acrescentam informações nas entrelinhas dos gestos; a dança torna-se assim um espaço de interpretação, não de repetição — um novo texto feito de corpo, música, imagem.
▲ A peça que se estreia esta quinta-feira, dia 16, no teatro Camões, em Lisboa, é composta por três atos e interpretada por 35 bailarinos frente a um cenário de grande impacto visual, concebido por José Manuel Castanheira
HUGO DAVID/CNB
Rejeitando fronteiras rígidas entre a dança clássica e o contemporânea, Fernando Duarte mergulha nos múltiplos significados de cada movimento, dos mais amplos aos mais discretos. Há momentos de grande beleza estética, em que o público sente a presença viva de sentimentos universais do discurso amoroso de todos os livros e de todas as vidas — a recordação, a paixão, o feitiço, o desejo, a esperança, o desespero o medo, a perda, mesmo que escondidos sob as mil máscaras sociais. Neste bailado, Carlos da Maia é menos o herói idealista, melancólico ou patético, mas um neófito, aquele para quem o amor se torna um caminho de aprendizagem e talvez de reconciliação com o mundo.
À medida que o espetáculo avança para o final das suas quase duas horas, as imagens turvam-se, o rio escurece, o tecido rosado cai — deixando nua a casa da aurora e revelando a metálica nudez da realidade.
O fim parece inevitável, como o ponto final de Eça. Mas Fernando Duarte recusa o destino trágico absoluto e como o adolescente que não sabe viver sem as suas personagens diz: “Para mim, a história de Carlos e Maria Eduarda não acaba aqui. Há sempre um recomeço possível… talvez o Carlos e o Ega apanhem ainda o elétrico, talvez o atraso não seja fatal, talvez nunca nos tenhamos atrevido a imaginar o depois”.
A última imagem do espetáculo é, por isso, uma onda que chega à praia. E nela, uma promessa: tudo pode recomeçar, até mesmo para quem acredita que já tudo se perdeu.
“Os Maias” estreia-se no teatro Camões, em Lisboa, esta quinta-feira, 16 de outubro. Fica em cena até dia 26. São ao todo nove sessões, já quase esgotadas. Em abril de 2026 estará em Lodz, na Polónia.