“Extreme music for extreme people”. É possível que já se tenha cruzado com esta frase algures, que traduzida significa “música extrema para pessoas extremas”. É uma espécie de credo presente no merchandise dos Morbid Angel, uma das mais lendárias e influentes bandas de death metal da história. A premissa é autoexplicativa: é a celebração do nicho, acessível apenas após um teste implícito que só alguns passam. Mas o que acontece quando música assim quebra essa barreira e começa a ser ouvida por “pessoas não extremas”? Acontece o que os Blood Incantation demonstraram nesta noite de sábado, ao tocar para um Music Station completamente lotado em Lisboa — e a mandá-lo abaixo no processo.
Antes que o leitor possa franzir o sobrolho face a eventuais hipérboles, faça-se a ressalva de que esta sala lisboeta tem capacidade para pouco mais do que mil pessoas na área de espetáculos, ou seja, é de pequenas dimensões. No entanto, não só é ainda assim raro ver uma banda desta natureza — a tocar em nome próprio e não inserida numa digressão alargada — esgotar um espaço destes, como é importante compreender qual a fauna que veio ocupar este cantinho entre os Olivais e o Parque das Nações. Mais do que o “fã metaleiro” — e, mesmo nesse domínio, este concerto foi um “who’s who” de figuras da cena pesada nacional —, uma parte significativa do público compôs-se do melómano mais passível de ser encontrado numa ZdB ou num Musicbox (RIP) que nas florestas de guedelhas onde o riff com distorção é lei.
Essa assistência diversa, lá está, deve-se à posição onde os Blood Incantation se encontram neste momento. Formado em 2011 por músicos já tarimbados no underground, o quarteto de Denver, do estado do Colorado, tem o raro condão de, ao longo destes 14 anos, ter-se tornado na coisa mais próxima de uma banda de death metal, vá, não mainstream — isso seria um total oxímoro —, mas pelo menos aceite e celebrada em círculos musicais para lá dos mais pesados: basta ver o tipo de atenção que tem tido em publicações como The Wire, Stereogum, The Quietus, Pitchfork — onde, em 2021, até foram listados como uma das bandas a moldar o futuro da música — e até a revista Time.
O que o explica? A toada lírica — assente numa mitologia muito própria relacionada com vida extraterrestre, misticismo, exploração cósmica e os trâmites da natureza humana — ajuda, mas o mais importante mesmo é que, ao contrário de Samuel Úria, os Blood Incantation sempre foram do prog rock, mesmo que a início não o tenham demonstrado. A estreia de 2016, Starspawn, altamente devedora dos acima mencionados Morbid Angel, foi encarada como um clássico moderno, ainda que encerrada na ortodoxia das cadências infernais de bateria, nos vocais cavernosos e num vortex de riffs e solos devoradores que se espera no género — foi a promovê-lo, aliás, que vieram pela primeira vez a Portugal em 2017, para concertos no Porto e Almada.
Pedro Roque/Eyes of Madness
Tudo mudou com Hidden History of the Human Race, de 2019, quando, aos elementos de Starspawn adicionaram camadas generosas de sintetizadores e alagaram a sua palette de sons para incluir rock psicadélico e música ambiente. “Muitas pessoas diziam-me ‘eu nem sequer ouço metal, mas este álbum, de alguma forma, diz-me alguma coisa’, o que achei incrível”, admitiu o guitarrista Morris Kolontyrsky em entrevista à Stereogum, referindo-se a esse mesmo disco.
O mais fascinante neste fenómeno é que, ao contrário de tantos outros casos de bandas de metal que alargaram o número de fãs ao diluir o seu som, os Blood Incantation têm logrado o mesmo objetivo caminhando na direção oposta, ao complexificá-lo, conseguindo manter a brutalidade do seu som, mas tornando-o mais diverso, imprevisível e, estranhamente, acessível. E não sendo incomum o death metal ir beber a outros géneros musicais — há todo um rol de bandas de profusão jazzística ou de inclinações sinfónicas, por exemplo —, o que o quarteto conseguiu foi a alquimia rara de juntar todos estes elementos de uma forma fresca e original. O projeto a seguir, aliás, foi um passo ainda mais longe nesse sentido: em Timewave Zero, de 2022, preteriram total e qualquer forma de metal, mas para substituí-lo por um género tão ou mais exotérico para o comum ouvinte, música ambiente, brincando com texturas e tendo como guia os gigantes do krautrock e do kosmische.
Chegados a 2024, os Blood Incantation atingiram o corolário de todo este percurso com Absolute Elsewhere, destilação de violência primal misturada com as mais ricas tradições da música experimental dos anos 60 e 70, compondo-se de duas músicas com mais de 20 minutos divididas em secções. Enfiados nos lendários estúdios Hansa, em Berlim — por onde passaram nomes de Brian Eno e David Bowie a Depeche Mode ou U2 —, os norte-americanos viram-se crianças numa loja de brinquedos, tal a quantidade de material analógico que tinham à disposição (e não chegou, sequer, para a receita que queriam seguir neste álbum: acabaram por gastar mais 9000 euros a alugar sintetizadores). Além disso, a inspiração do vanguardismo alemão não se ficou pelos discos ouvidos, já que o grupo acabou mesmo por recrutar Thorsten Quaeschning, atual líder dos Tangerine Dream, para tocar numa das secções. Como resultado, lançaram um dos melhores álbuns de música pesada (e não só, talvez) dos últimos anos.
Tudo isto ajuda a explicar o clima de expectativa febril que se fazia sentir no Music Station neste regresso dos Blood Incantation — agora quinteto ao vivo, com presença de teclista —, passando do rótulo que tinham em 2017 de “mais” uma ótima banda de death metal para porta-estandartes de um movimento — involuntário ou não — de alargar os horizontes da música pesada para lá do espaço sideral que cantam.
Munidos de obeliscos egípcios com leds nas laterais (haja produção), subiram a palco primeiramente para tocar Absolute Elsewhere na sua inteireza, sendo que a primeira secção de The Stargate é demonstrativa exatamente do tipo de som que os Blood Incantation oferecem: uma viagem tenebrosa movida por blastbeats e pedal duplo ferozes, com riffs em vendaval guiados pela voz pavorosa de Paul Riedl. Todavia, rapidamente nos encontramos não no Tártaro musical, mas a planar entre as estrelas, quando a banda substitui este assomo de brutalidade pelo exotismo dos sintetizadores e entra no seu registo cósmico. Mais tarde, esta dualidade é pontuada com ainda mais vigor quando o metal é completamente substituído pelo kosmische enredado entre pinceladas etéreas dos teclados e guitarras límpidas, reminiscente dos Pink Floyd do Echoes, ou quando passa por uma sequência frenética de percussão gingona e Riedl deixa soar o seu registo límpido.
No decurso de toda esta viagem, não se encontra uma nota de pretensão nem de uma parte nem de outra — Riedl e demais banda estão em palco a abanar a cabeça como gente endiabrada e não como um grupo de músicos elevados a trazer a sua boa nova às massas; o público, idem, até “heys” repetidos se ouvem em algumas músicas, e quem sabe (e gosta de) fazer headbanging, lança-se nessa prática sem respeito pela sua saúde muscular. O único momento que resvala para isso — e mesmo assim, esteve mais assente no humor da partilha de tradições entre nerds musicais do que em presunção — foi quando o vocalista e guitarrista exigiu a um fã nas filas da frente que pegasse no vinil que tinha comprado e o virasse ao contrário para o concerto poder continuar. Ou seja, aludindo à vetusta prática de passar do lado A para o lado B de um disco num leitor musical.
O fã assim o fez e pudemos então passar para The Message, movida por princípios similares, a começar por um riff quase airoso e uma atípica passagem de intenso pedal duplo apenas acompanhado de guitarras limpas e baixo dissonantes. Mais à frente, neste jogo de dinâmicas, chegamos a um momento onde a influência floydiana se assume por completo, com Riedl a fazer a sua melhor imitação de David Gilmour deixando-nos confortavelmente entorpecidos, acordando-nos logo de seguida com a fúria de um riff thrash capaz de deixar crateras onde é tocado. No momento final desta canção, já depois de também um passeio numa floresta espacial ao som de flautas folk, damos de frente com o sublime, não apenas na sua vertente de fruição, mas no encarar aterrador do homem que se deixa ir ao encontrar-se perante uma onda gigante prestes a engoli-lo, tal é a sua conclusão gloriosa (pontuam harmonias que parecem secções de sopro, inclusive).
Pedro Roque/Eyes of Madness
O concerto, contudo, não terminaria aqui, havendo ainda tempo para recordar temas mais antigos. Em The Giza Power Plant, de regresso a Hidden History of the Human Race, o registo mantém-se na profusão de riffs e ideias musicais, mas passa de um âmbito mais cósmico para o mítico, e particular pelo motivo egípcio que domina o grosso da música. Já com The Vth Tablet (of Enûma Eliš), do seu primeiro EP, a regressão é ainda mais palpável — voltamos à selvajaria em estado puro. Não se entenda isto como uma crítica, num concerto assim há momentos para ficar siderado e outros para querer arrancar a traqueia à pessoa mais próxima.
Num concerto quase incólume — pecou a equalização da sala, que impediu de ouvir alguns dos detalhes mais sumarentos, em particular nas secções mais pesadas —, o caminho para o encore fez-se numa espécie de interlúdio em requiem com Meticulous Soul Devourment, inteiramente instrumental, criada de baixo e guitarra enquanto ventos lunares se ouvem de fundo. A chegada do baterista Isaac Faulk, atacando repetidamente o gongo que tinha atrás do seu kit, dava a indicação de que o fim estava aí, com Obliquity of the Ecliptic, onde até mosh e crowd surf se viu entre o público, encerrando com um solo com a potência de mil sóis.
Antes, seguindo o mesmo espírito aventureiro da banda para a qual estava a abrir, Tristan Shone mostrou que, quando não se arranja os instrumentos que se quer, basta construí-los de raiz. Cérebro por trás do projeto Author & Punisher, faz-se acompanhar ao vivo do guitarrista Phil Sgrosso porque nem ele consegue fazer tudo, mas quase. Na esteira dos Godflesh, o músico apresenta um metal industrial movido a pistão e válvula onde quase todos os sons partem de uma consola (por ele criada, onde se lê “this machine kills fascists”) onde está instalado e manipula alavancas e joysticks. Em disco, sabemos dos seus momentos de contemplação e até rara beleza entre o caos, mas ao vivo apostou em particular na segunda parte do seu nome, com um conjunto particularmente castigador de canções a soar a cargas de profundidade e capazes de rebentar subwoofers a qualquer veículos. O que se quer, portanto.