Numa linguagem acessível, os autores exploram os problemas de linguagem, tanto em termos técnicos quanto em termos filosóficos. No caso do primeiro, temos exemplos de problemas que parecem não ter solução: por exemplo, lê-se que, em vietnamita, não há palavra para “irmão”, havendo apenas para “irmão mais velho” ou “irmão mais novo”, o que coloca problemas de tradução de frases simples como “Entrei no autocarro com o meu irmão”. É que, no caso do original, pode dar-se o caso de o resto do texto não responder à questão da idade, ou mesmo de o autor nem ter pensado no assunto – de tal coisa não ter peso nenhum na narrativa; ora, para um nativo do vietnamita, será estranho este desconhecimento por parte do autor.

No caso do segundo, temos não só a questão de a tradução ter de veicular sentidos pouco éticos, mas também a de, por vezes, ter de se decidir por um género que não é claro no original. Línguas como o inglês trazem para o texto uma simplicidade que nem sempre ecoa noutras línguas, criando problemas a quem traduz: não só “the writer” tanto significa “o escritor” como “a escritora”, como “you” horizontaliza o tratamento, não mostrando o grau de formalidade, o que não acontece em línguas como o português.

Enfim, são alguns de vários exemplos que Coetzee e Dimópulos discutem, enquanto se lançam a uma conversa ampla não só sobre questões técnicas, mas também sobre questões éticas da linguagem. Coetzee aparece não só com a sua experiência de escritor, mas também de escritor que não navega apenas numa língua, e Dimópulos traz questões que extravasam os problemas técnicas, aparecendo com uma abordagem filosófica da linguagem, mostrando de que forma é o que o próprio texto interroga o que tantas vezes se toma por garantido, como os exemplos mencionados. Além disso, aqui e ali, entende-se de que forma a língua molda o pensamento, num diálogo em que se encontram duas formas de ver o texto – o de quem o faz e o de quem o traduz. É neste cruzamento que se dão as reflexões sobre identidade, género e dominação cultural.


Título: “O dom das línguas”
Autores: J.M. Coetzee e Mariana Dimópulos
Tradução: J. Teixeira de Aguiar
Página: 152

Editora: D. Quixote

O ponto de partida é simples – tentar perceber o que acontece quando se passa um texto de uma língua para outra. Mas, à medida que os exemplos se acumulam, também o fazem as perguntas, e é aí que se ganha densidade filosófica, por exemplo nos momentos em que os Coetzee e Dimópulos exploram de que forma é que as línguas de género masculino dominante transportam estruturas patriarcais, o que obriga a pensar a tradução como acto que vai além da técnica, trazendo para o texto questões éticas e políticas. Os dois trazem experiências de peso ao diálogo, transformando-o num misto de aula e ensaio, ainda que não caia no peso do texto académico, ilegível para o público geral.

De um lado, há um escritor habituado à economia da linguagem, que age entre a clareza seca da prosa anglófona; do outro, há uma tradutora habituada a interrogar a língua, ao invés de a manejar, e que se obriga a ler nas entrelinhas. Ainda assim, o livro é curto para os tantos temas que aborda, temas esses que, em abono da verdade, não aparecem aqui pela primeira vez: pelo contrário, são ecos das discussões já habituais da teoria da tradução contemporânea. Ao ritmo de um diálogo e não de um ensaio, é natural que os temas não sejam aprofundados, que surjam ao sabor do vento e da conversa, e que o texto em si seja mais ensaístico do que analítico. Aliás, o próprio formato de diálogo acaba por dispersar a argumentação, abdicando-se da progressão linear, com os dois interlocutores a saltar entre os temas de forma quase casual, sem transições claras.

Com isto, O dom das línguas interessa mais pelas perguntas que cria ao leitor do que pelas respostas que dá, obrigando quem lê a repensar a relação entre língua e identidade, e por vezes a pensar na forma como cada língua permite informação diferente – mais detalhada ou não – à própria frase. Não sendo uma bíblia sobre o assunto, não deixa de ser uma boa introdução ao pensamento crítico sobre a linguagem, ainda por cima por partir das vozes de dois gigantes.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.